Nada mais fascinante do que ver como as pessoas usam as mesmas palavras para descrever conceitos completamente diferentes. Viajar, por exemplo.
Quase todo mundo que conheço diz que adora viajar, que não vive sem viajar, que não há nada melhor que conhecer novas culturas, blablablá. E eu respondo que odeio viajar, gosto é de ficar no conforto da minha casa, com minha rotina, meus apetrechos de cozinha, meus livros e meu cachorro. E tenho que ouvir: cruzes, Alexandre, como você pode ser assim? Já tão novo e tão velho!
Aí, pra ser simpático, eu pergunto como foi a viagem: ah, foi ótima. Era uma excursão de trinta brasileiros em um ônibus. Ficamos no Holiday Inn do Bois de Bologne. Passamos cincos dia maravilhosos em Paris. Fomos ao Louvre, à Torre Eiffel e fizemos muitas compras na Champs-Elyseés! E, por fim, com uma ingenuidade sincera, concluem:
Foi uma delícia conhecer a França!
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Naturalmente, quem deve entender tudo errado sou eu.
Evito todos os lugares turísticos. Os únicos que conheço são os do Rio e, agora, de Nova Orleans, pra mostrar aos amigos que me receberam em suas terras. Não fui à Estátua da Liberdade nem à Torre Eiffel. Quando viajo, sempre tento viver como nativo, comprar comida onde compram, utilizar o transporte coletivo que usam, vestir-me como eles. Ou seja, na medida do possível, tentar entender como é a essência de ser nova-iorquino, parisiense, lisboeta.
O mais importante de qualquer país é seu povo. Conhecer a Franca, na prática, significa conhecer os franceses. Passar poucos dias em uma cidade, visitando os pontos turísticos mais pasteurizados e artificiais, sem nenhum contato com os nativos, não chega perto de conhecer nada – só os colegas de excursão, e olhe lá.
Dá pra conhecer mais da França ficando em casa, ouvindo rádios francesas e lendo jornais franceses pela internet, assistindo filmes franceses e lendo livros franceses, do que vendo Paris do alto da horrenda Torre Eiffel.
(Não entendo a graça que o povo vê na Torre Eiffel, uma agulha gigantesca enfiada em um gramado em uma das cidades mais lindas do mundo, completamente destoando de toda a arquitetura que lhe cerca. Guy de Maupassant almoçava todo dia na Torre Eiffel e, um dia, lhe perguntaram: se odeia tanto a torre, por que almoça nela todos os dias? E ele respondeu: Porque é o único lugar em Paris de onde não vejo a Torre Eiffel.)
Se quer mesmo conhecer a França, meu melhor conselho é: faça amigos franceses. Descubra por onde andam os franceses na sua cidade. Apareça por lá. Puxe papo. Conviva com eles. Pergunte do que sentem saudades e o que mais estranharam no novo país. Escute. Observe. E vai aprender mais sobre a verdadeira cultura francesa do que em vinte viagens turísticas.
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Eu odeio viajar porque viajar é uma tarefa física e mentalmente estafante. Viajar demanda aplicação e estudo, para que não se chegue ao destino como um turista ignorante. Viajar exige uma alteração completa na rotina, uma imersão radical na nova cultura. Viajar quer dizer aprender a comer, se vestir, se locomover e falar como os nativos. Viajar significa reaprender do zero as atividades humanas mais básicas, utilizar ao máximo a capacidade de adaptação que nos separa dos outros animais. Se isso não é a coisa mais cansativa do mundo, eu não sei o que é.
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A crônica acima faz parte do meu livro de viagem, Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas, escrito em 2007, e à venda em forma de ebook por R$20.
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Meu livro sobre Cuba, Radical Rebelde Revolucionário, escrito em 2007, e disponível em forma de ebook, está vendendo muito bem, obrigado. Algumas das melhores crônicas estão disponíveis no blog. Para todas as outras, só comprando o livro. Abaixo, algumas das minhas preferidas:
O Período Especial e seu Apartheid
A Salada Monetária Cubana
Os Jineteiros
Dionisio, Um Chileno Malandro
As Jineteiras
Cinema Cubano
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Para quem tiver curiosidade, eis aqui algumas coisas que já disseram sobre o livro:
Por Que Che Não Escreveu Isso Antes?, pelo insuspeito anti-comunista Adailton Persegonha, do Leite de Pato:
o desfilar de seus personagens reais, a paisagem de um país perdido entre o presente, o passado e um futuro sempre incerto, as confusões de suas diversas moedas, sua crítica ácida (e ranzinza no meu modo de ver) do turismo sob a batuta do seu imenso poder de observação e objetividade me fizeram ter um sonho: ver este livro lançado em território cubano!
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Chato, Crítico e Cínico, por Marcos Donizetti:
"Alex Castro é outro tipo de pessoa, tão ou mais irritante que os já citados, para ser sincero. Seja ele visto como um liberal libertário ou como um rebelde revolucionário, ele na verdade é um chato, crítico e cínico. É exatamente por isso que eu o acho a pessoa mais “confiável” para falar sobre Cuba, por mais que ele mesmo deixe claro já no início de seu livro Radical Rebelde Revolucionário que talvez nada do que ele relata nas 155 páginas seguintes seja verdade. É um bom começo."
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E o Alex Castro Gosta de Picadura, do Uber-Blogueiro Cardoso:
Hum. Intelectual. Que fuma cachimbo. Passeando em Cuba bancado por universidades para estudar a Disneylandia do Socialismo? Isso sempre dá naqueles livros chatíssimos onde o cara republica propaganda do Partido, ou então é escrito por um anticomunista ferrenho que vai passar o tempo todo falando das atrocidades da Revolução. Todo livro sobre Cuba cai nesses dois modelos. (...)
O livro é excelente, li de uma sentada só, mesmo com isso soando altamente comprometedor em um post com esse título. São 155 páginas com crônicas deliciosas, onde ele conta seu dia-a-dia na terra de Fidel. Ele descreve um povo como qualquer outro. Alegre, triste, otimista, conformado, assustado, orgulhoso, envergonhado.
Ele encontrou Dolores, a bibliotecária mais sensual desde a Barbara Gordon, descobriu que os cubanos também usam o Jeitinho Brasileiro e aprendeu que quem decide o menu é o burocrata do Governo que escolhe quais produtos colocar nas lojas naquela semana. Passou por saias justas com vendedoras de abacaxi, apaixonou-se por vários pés (longa história) e enganou a polícia para tomar sorvete barato.
Alex alterna momentos líricos com o mais puro sarcasmo. (...) Ele comete vários pecados que farão com que a Academia odeie seu livro, e desejasse estar sob o Regime Cubano, onde Alex seria preso e seus livros proibidos. Ele cita o prosperidade artificial graças ao Regime Soviético, conta que os jornais oficiais são subsidiados, e que o povo os usa como substituto de papel higiênico, conta dos táxis para cidadãos, proibidos por lei de levar turistas, e constantemente parados pelo polícia. (...)
Mesmo assim, Radical Rebelde Revolucionário não é um ebook-denúncia. Nem tudo é ruim, nem tudo é um dramalhão mexicano. Alex não tem uma agenda oculta através do livro. Ele consegue falar mal de uma coisa, e na próxima crônica falar bem de outra. Mostra que por detrás da propaganda e da antipropaganda há gente. E gente é sempre interessante.
Recomendo muito a leitura do livro.
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