Atavismo é uma palavra-chave para entender Os Sertões. Segundo o Dicionário Houaiss:
Atavismo. 1871. substantivo masculino. // 1. Rubrica: biologia. reaparição em um descendente de caracteres de um ascendente remoto e que permaneceram latentes por várias gerações. // 2. Derivação: sentido figurado. hereditariedade biológica de características psicológicas, intelectuais, comportamentais. Ex.: a arte de cozinhar lhe chegara por a. // 3. Derivação: sentido figurado. retorno a um estilo, uso, ponto de vista, enfoque etc. Ex.: um a. literário.
Assim como Euclides passa todo o livro denunciando o atavismo de Antonio Conselheiro e de Canudos (que seriam a erupção contemporânea de barbarismos passados latentes na raça mestiça), ele também não poupa as turbas da Rua do Ouvidor.
Esse, aliás, é um bom exemplo que explicação contextual necessária para alunos estrangeiros. Na época, a Rua do Ouvidor era a mais elegante e civilizada da República - ou seja, a referência de Euclides a ela é altamente simbólica. Sem saber isso, é impossível absorver o impacto do importantíssimo trecho abaixo:
Afinal a multidão interveio.
Copiemos: "Já era tarde e a excitação do povo aumentava na proporção de sua massa sempre crescente; assim nesta indignação lembraram-se dos jornais monarquistas, e todos por um, em um ímpeto de desabafo, foram às redações e tipografias dos jornais Gazeta da Tarde, Liberdade e Apóstolo, e, apesar de ter a polícia corrido para evitar qualquer assalto a esses jornais, não chegou a tempo de evitá-lo, pois a multidão aos gritos de viva a República e à memória de Floriano Peixoto invadiu aqueles estabelecimentos e destruiu-os por completo, queimando tudo".
Então começaram a quebrar e inutilizar tudo quanto encontraram, atirando, depois, os objetos, livros, papéis, quadros, móveis, utensílios, tabuletas, divisões etc., para a rua de onde foram logo conduzidos para o largo de São Francisco de Paula, onde formaram uma grande fogueira, ficando outros em montes de destroços na mesma rua do Ouvidor." ...
As linhas anteriores têm um objetivo único: fixar, de relance, símiles que se emparelham na mesma selvatiqueza. A rua do Ouvidor valia por um desvio das caatingas. A correria do sertão entrava arrebatadamente pela civilização adentro. E a guerra de Canudos era, por bem dizer, sintomática apenas. O mal era maior. Não se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral. O homem do sertão, encourado e bruto, tinha parceiros porventura mais perigosos. ...
A força portentosa da hereditariedade, aqui, como em toda a parte e em todos os tempos, arrasta para os meios mais adiantados — enluvados e encobertos de tênue verniz de cultura — trogloditas completos. Se o curso normal da civilização em geral os contém, e os domina, e os manieta, e os inutiliza, e a pouco e pouco os destrói, recalcando-os na penumbra de uma existência inútil, de onde os arranca, às vezes, a curiosidade dos sociólogos extravagantes, ou as pesquisas da psiquiatria, sempre que um abalo profundo lhes afrouxa em torno a coesão das leis eles surgem e invadem escandalosamente a História. São o reverso fatal dos acontecimentos, o claro-escuro indispensável aos fatos de maior vulto. ...
[A]tribuir a uma conjuração política qualquer a crise sertaneja exprimia palmar insciência das condições naturais da nossa raça. ...
E esta insciência ocasionou desastres maiores que os das expedições destroçadas. Revelou que pouco nos avantajávamos aos rudes patrícios retardatários. Estes, ao menos, eram lógicos. Insulado no espaço e no tempo, o jagunço, um anacronismo étnico, só podia fazer o que fez — bater, bater terrivelmente a nacionalidade que, depois de o enjeitar cerca de três séculos, procurava levá-lo para os deslumbramentos da nossa idade dentro de um quadrado de baionetas, mostrando-lhe o brilho da civilização através do clarão de descargas.
Reagiu. Era natural. O que surpreende é a surpresa originada por tal fato. Canudos era uma tapera miserável, fora dos nossos mapas, perdida no deserto, aparecendo, indecifrável, como uma página truncada e sem número das nossas tradições. Só sugeria um conceito — e é que, assim como os estratos geológicos não raro se perturbam, invertidos, sotopondo-se uma formação moderna a uma formação antiga, a estratificação moral dos povos por sua vez também se baralha, e se inverte, e ondula riçada de sinclinais abruptas, estalando em flaults, por onde rompem velhos estádios há muito percorridos.
Sob tal aspecto era, antes de tudo, um ensinamento e poderia ter despertado uma grande curiosidade. A mesma curiosidade do arqueólogo ao deparar as palafitas de uma aldeia lacustre, junto a uma cidade industrial da Suíça...
Entre nós, de um modo geral, despertou rancores. Não vimos o traço superior do acontecimento. Aquele afloramento originalíssimo do passado, patenteando todas as falhas da nossa evolução, era um belo ensejo para estudarmo-las, corrigirmo-las ou anularmo-las. Não entendemos a lição eloqüente.
Na primeira cidade da República, os patriotas satisfizeram-se com o auto-de-fé de alguns jornais adversos, e o governo começou a agir. [Os Sertões, "Quarta Expedição", I - A Rua do Ouvidor e as Caatingas]
Para Euclides, se o mestiço do interior era primitivo, desengonçado e incapaz de civilização, o mestiço do litoral não ficava muito atrás. Em diversos aspectos, era provavelmente ainda pior:
Fora do litoral, em que se refletia a decadência da metrópole e todos os vícios de uma nacionalidade em decomposição insanável, aqueles sertanistas, avantajando-se às terras extremas de Pernambuco ao Amazonas, semelhavam uma outra raça, no arrojo temerário e resistência aos reveses. [Os Sertões, "O Homem", I - ... E sua Reflexão na História]
Ao invés da inversão extravagante que se observa nas cidades do litoral, onde funções altamente complexas se impõem a órgãos mal constituídos, comprimindo-os e atrofiando-os antes do pleno desenvolvimento — nos sertões a integridade orgânica do mestiço desponta inteiriça e robusta, imune de estranhas mesclas, capaz de evolver, diferenciando-se, acomodando-se a novos e mais altos destinos. porque é a sólida base física do desenvolvimento moral ulterior. [Os Sertões, "O Homem", II - Uma Raça Forte]

Dois livros recentes sobre a morte de Euclides.
Apesar de escrever o livro praticamente para denunciar o bárbaro atavismo de Conselheiro e dos canudenses, Euclides tem suficiente auto-crítica para estender sua denúncia também aos mestiços do litoral - grupo no qual ele teoricamente se incluía.
* * *
Em 1909, sete anos após o imenso sucesso de Os Sertões, Euclides invadiu armado a casa do amante de sua esposa, disposto a matar ou morrer. Dilermando, além de pai biológico de dois filhos de Euclides, também era um dos melhores atiradores do exército: mesmo surpreendido, abateu Euclides a tiros. Em legítima defesa, decidiu o júri.
Poucos anos depois, em 1916, mesma tragédia: o filho de Euclides (um dos poucos NÃO gerados por Dilermando!) atirou nele pelas costas em pleno cartório - mas atirava tão mal que Dilermando conseguiu reagir e matá-lo, sendo novamente inocentado.
Uma recente biografia de Euclides, publicada postumamente por Roberto Ventura, teoriza que o personagem de Antonio Conselheiro, em Os Sertões, cuja criação literária seria bem distante de sua figura história, representaria na verdade "uma projeção psicanalítica das maiores obsessões de Euclides: o temor da irracionalidade, da sexualidade, do caos e da loucura." (fonte) Ainda não li a biografia de Ventura, excelente intelectual precocemente falecido que tinha os mesmos interesses que eu (raça e nacionalidade em ensaístas como Bonfim, Euclides, Nabuco, Freyre), mas já fiquei aqui pensando...

De certo modo, Euclides encarna sua própria crítica ao atavismo da turba ensandecida da Rua do Ouvidor:
A força portentosa da hereditariedade, aqui, como em toda a parte e em todos os tempos, arrasta para os meios mais adiantados — enluvados e encobertos de tênue verniz de cultura — trogloditas completos. Se o curso normal da civilização em geral os contém, e os domina, e os manieta, e os inutiliza, e a pouco e pouco os destrói, recalcando-os na penumbra de uma existência inútil, de onde os arranca, às vezes, a curiosidade dos sociólogos extravagantes, ou as pesquisas da psiquiatria, sempre que um abalo profundo lhes afrouxa em torno a coesão das leis eles surgem e invadem escandalosamente a História.
Parágrafos como o acima também poderiam descrever um intelectual tímido e civilizado, franzino e baixinho, que quando se descobre um corno criando os filhos do amante de sua esposa, ao invés de utilizar os muitos recursos legais e pacíficos então disponíveis, resolve lavar sua honra com sangue, comportando-se como um bárbaro primitivo possuído por ódios primordiais atávicos e sem se importar em quem mais seria ferido. Além de causar sua própria morte e a de seu filho, anos depois, Euclides também alveja o irmão de Dilermando, jogador profissional de futebol no Botafogo, e que comete suícidio depois de ter que abandonar o esporte graças aos ferimentos que sofreu. O atavismo de Euclides, assim como o de Conselheiro, também deixa um rastro de sangue atrás de si.
Talvez, o momento em que irrompe na casa de Dilermando e já sai atirando, sem nem se importar em acertar um inocente, seja o momento em que finalmente Euclides abraça seu lado atávico e selvagem, e aceita que o Brasil, tão mestiço e desequilibrado, sempre a mercê dos seus piores instintos, simplesmente é imune à civilização.
* * *
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A edição crítica da Ateliê Editorial, abaixo, organizada por Leopoldo M. Bernucci, é de longe a melhor edição de Os Sertões de todos os tempos. Ficou muito tempo esgotada, mas agora foi reimpressa. É a edição que uso, depois de passar por três outras. Recomendo enfaticamente para todos que quiserem ler o livro a sério.
Ano passado, também saiu uma nova edição, bastante aumentada, da Obra Completa de Euclides pela Nova Aguilar. Ainda não folheei, mas já está na minha lista de desejos.
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