O Fator Constrangimento (Drops de Teatro, 7)

É fácil de jogar longe o livro horrível daquele autor nosso amigo, ou sair no meio do filme do nosso genro, mas no teatro tudo é mais complicado.

Gosto de sentar na primeira fila, ali no gargarejo, mas minha acompanhante disse que não: se a peça não fosse engraçada, ele iria ter que ficar se forçando a rir, só pra não magoar os atores.

Um filme ruim é só ruim. Um livro ruim é só ruim. É fácil ler uma página de Paulo Coelho e xingá-lo de sub-escritor, mas imagino qual seria nossa reação se, antes de ler a página, tivéssemos que vê-lo escrevendo essa página, pensando, mudando, refletindo. corrigindo, imprimindo e, então, nos mostrando o resultado todo orgulhoso. Quem teria coragem de lhe encarar nos olhos e dizer que é uma merda?

Por isso, uma peça ruim é, acima de tudo, constrangedora: caramba, aquele povo todo está ali, na sua frente, em cima do palco, dando tudo, decorando falas, pintando o rosto, fazendo acrobacias, suando em bicas - e, mais importante, te encarando olho no olho. Sentem o cheiro do seu peido, vêem seu bocejo, escutam o barulho do plástico da sua bala - e sabem se você não está rindo. Essa é a magia do teatro - e também o motivo pelo qual uma peça ruim também é, antes de tudo, uma peça constrangedora.

Resultado: a peça era tão, mas tão constrangedora que minha amiga nem mesmo fingiu rir.

 Comédias completas de Martins Pena  Comédias completas de Martins Pena
Vale muito, muito a pena ler e assistir Martins Pena.

* * *

Leia todos meus textos sobre teatro e também dê uma olhada na seção de livros de teatro do Submarino.

  Brasil: Palco e Paixão: um Século de Teatro

 

19.03.10


Categorias: Teatro


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Comentários:


Comentário de: Fernando

Sou contra piedade artística. Pra mim, é compactuar com mediocridade.

É como quando vemos aqueles meninos na favela batucando em latas e, em nome da correção política, temos que dizer algo do tipo "Olha! É a arte, a música livrando os jovens da periferia das drogas e dando uma oportundiade de vida!". Quer ensinar música ensina, mas ensina direito né!

PermalinkPermalink 19.03.10 @ 12:08



Comentário de: Haline · http://www.halinices.blogspot.com

E peça ruim apresentada pra funcionários de empresa. Nossa, maior va ever.

PermalinkPermalink 19.03.10 @ 14:41



Comentário de: Permafrost · http://drplausivel.blogspot.com

Na verdade, pra quem sabe ouvir, os conhecidos são os melhores críticos: A crítica involuntária dos conhecidos é a mornidão no aplauso e o lugar-comum no elogio. É uma pena q tantos artistas não saibam ouvir o elogio recebido e tantos espectadores não saibam ouvir o próprio aplauso: trivialidades como as do Paulo Coelho não ficariam obesas, ocupando espaço precioso.

PermalinkPermalink 19.03.10 @ 15:29



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