Tem muito gente reclamando de que Lula foi a Cuba e não falou sobre a questão dos presos políticos.
O último foi o Gabeira, de cuja biografia já não restam nem os farrapos, republicando em seu blog artigo de Mario Vargas Llosa.
Não entendo bem essa crítica. Que Cuba é uma ditadura, isso todo mundo sabe - leiam meu livro Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas.
Mas qual é o Chefe de Estado, QUALQUER Chefe de Estado, que em visita oficial a um país, QUALQUER país, fica metendo o bedelho em suas questões políticas internas?
Fico pensando se essas pessoas (que reclamam do Lula ir a Cuba e não falar de prisioneiros políticos) gostariam que Lula fosse aos Estados Unidos e falasse dos prisioneiros ilegais em Guantánamo. Ou da guerra e ocupação ilegais do Iraque, baseadas em mentiras do governo anterior. É isso que querem? É essa que desejam que seja a postura externa da diplomacia brasileira?
Fico pensando também o que diriam se, mais tarde, os presidentes de Cuba ou dos EUA visitassem o Brasil e viessem NOS enfiar o dedo na cara sobre o desmatamento da Amazônia ou sobre nossa enorme desigualdade sócio-econômica.
Será que iriam ouvir calados? Ou será que bateriam no peito para bradar que estrangeiro não tem nada que se meter nas nossas questões internas?
Pois, pois.
* * *
Atualização
O leitor Sal perguntou:
Não creio que um direito universal e fundamental que é a liberdade de expressão seja um assunto limitado a ser discutido internamente, ou então não seria universal. Até os EUA aceitam críticas com relação a Guantánamo. Foi cogitado seu fechamento pelo Obama. Pq os irmãos Castro só aceitam elogios e puchasaquismos? O que dá pra entender do sr. Lula é que devemos também respeitar ditaduras. Vc concorda com isso?
Então, vamos lá.
Pra começar, não estou personalizando e falando do "Lula" - o título tem o nome dele porque a crítica é sempre contra ele pessoalmente. Eu não acho que o Lula deve ou não deve fazer porra nenhuma. Estou falando do Presidente do Brasil - que, por acaso, é o Lula, em quem eu não votei nesse mandato, mas que poderia ser qualquer um.
Por uma questão de diplomacia e bons costumes, o Presidente do Brasil não deve sair por aí dando pitaco nas questões internas de outros países soberanos, mesmo que esses países soberanos sejam ditaduras que mantenham prisioneiros políticos.
O silêncio do Presidente do Brasil sobre qualquer questão interna de qualquer país soberano não quer dizer uma tomada de posição (ou seja, se não criticou um massacre de civis, então é porque apóia o governo ditatorial que o cometeu, etc), mas simplesmente boa educação e boa diplomacia.
Não existem direitos universais. O cidadão brasileiro tem alguns direitos (como liberdade de expressão) porque esses direitos são garantidos por uma constituição legitimamente promulgada e assegurados por um estado legalmente constituído.
Esses pretensos "direitos universais" não são nem direitos e nem universais. Não significam nada, não garantem nada. Quem disse que são direitos? Quem garante seu exercício? Qualquer um pode levantar o dedo e proclamar que, de agora em diante, possuir uma cópia do meu livro Mulher de Um Homem Só é um direito inalienável de todo ser humano, mas e daí? Simplesmente dizer isso (sem a legitimidade de falar universalmente em nome de todos os humanos e sem o poder para de fato de garantir esse direito) simplesmente não quer dizer nada.
Por fim, o leitor pergunta: "Pq os irmãos Castro só aceitam elogios e puchasaquismos?"
Deve ser porque eles são dois ditadores safados, não? Juro que não entendo esse tipo de pergunta. Será que você entende mesmo o significado de "ditador", "ditadura", essas coisas?
Ficou claro ou quer que eu soletre?
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Meu livro sobre Cuba, Radical Rebelde Revolucionário, escrito em 2007, e disponível em forma de ebook, está vendendo muito bem, obrigado. Algumas das melhores crônicas estão disponíveis no blog. Para todas as outras, só comprando o livro. Abaixo, algumas das minhas preferidas:
O Período Especial e seu Apartheid
A Salada Monetária Cubana
Os Jineteiros
Dionisio, Um Chileno Malandro
As Jineteiras
Cinema Cubano
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Para quem tiver curiosidade, eis aqui algumas coisas que já disseram sobre o livro:
Por Que Che Não Escreveu Isso Antes?, pelo insuspeito anti-comunista Adailton Persegonha, do Leite de Pato:
o desfilar de seus personagens reais, a paisagem de um país perdido entre o presente, o passado e um futuro sempre incerto, as confusões de suas diversas moedas, sua crítica ácida (e ranzinza no meu modo de ver) do turismo sob a batuta do seu imenso poder de observação e objetividade me fizeram ter um sonho: ver este livro lançado em território cubano!
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Chato, Crítico e Cínico, por Marcos Donizetti:
"Alex Castro é outro tipo de pessoa, tão ou mais irritante que os já citados, para ser sincero. Seja ele visto como um liberal libertário ou como um rebelde revolucionário, ele na verdade é um chato, crítico e cínico. É exatamente por isso que eu o acho a pessoa mais “confiável” para falar sobre Cuba, por mais que ele mesmo deixe claro já no início de seu livro Radical Rebelde Revolucionário que talvez nada do que ele relata nas 155 páginas seguintes seja verdade. É um bom começo."
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E o Alex Castro Gosta de Picadura, do Uber-Blogueiro Cardoso:
Hum. Intelectual. Que fuma cachimbo. Passeando em Cuba bancado por universidades para estudar a Disneylandia do Socialismo? Isso sempre dá naqueles livros chatíssimos onde o cara republica propaganda do Partido, ou então é escrito por um anticomunista ferrenho que vai passar o tempo todo falando das atrocidades da Revolução. Todo livro sobre Cuba cai nesses dois modelos. (...)
O livro é excelente, li de uma sentada só, mesmo com isso soando altamente comprometedor em um post com esse título. São 155 páginas com crônicas deliciosas, onde ele conta seu dia-a-dia na terra de Fidel. Ele descreve um povo como qualquer outro. Alegre, triste, otimista, conformado, assustado, orgulhoso, envergonhado.
Ele encontrou Dolores, a bibliotecária mais sensual desde a Barbara Gordon, descobriu que os cubanos também usam o Jeitinho Brasileiro e aprendeu que quem decide o menu é o burocrata do Governo que escolhe quais produtos colocar nas lojas naquela semana. Passou por saias justas com vendedoras de abacaxi, apaixonou-se por vários pés (longa história) e enganou a polícia para tomar sorvete barato.
Alex alterna momentos líricos com o mais puro sarcasmo. (...) Ele comete vários pecados que farão com que a Academia odeie seu livro, e desejasse estar sob o Regime Cubano, onde Alex seria preso e seus livros proibidos. Ele cita o prosperidade artificial graças ao Regime Soviético, conta que os jornais oficiais são subsidiados, e que o povo os usa como substituto de papel higiênico, conta dos táxis para cidadãos, proibidos por lei de levar turistas, e constantemente parados pelo polícia. (...)
Mesmo assim, Radical Rebelde Revolucionário não é um ebook-denúncia. Nem tudo é ruim, nem tudo é um dramalhão mexicano. Alex não tem uma agenda oculta através do livro. Ele consegue falar mal de uma coisa, e na próxima crônica falar bem de outra. Mostra que por detrás da propaganda e da antipropaganda há gente. E gente é sempre interessante.
Recomendo muito a leitura do livro.
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