A Importância Tautológica de Os Sertões (Os Sertões, de Euclides da Cunha, 2)

Tautology Club

Em uma sala de aula, ainda mais depois de passar cinco semanas lendo um livro difícil e palavroso, é fundamental justificar essa escolha para os alunos. Afinal, por que estudar Os Sertões?

Minha resposta talvez tenha sido um pouco frustrante, mas é a seguinte:

No fim das contas, Os Sertões é importante... por ser importante. Sua importância está em ter... uma enorme importância.

Deu pra entender? Eu explico.

* * *

Existe um tipo bem específico de aluno, em geral com um perfil mais conservador ou de exatas (ambos frequentemente andam juntos), que insiste sempre nos tais "fatos" ("hard facts"). Quando se matriculam em cursos de História, trazem essa expectativa de descobrir como as coisas realmente aconteceram, pensam que a História é uma busca pela verdade.

É trabalhoso, às vezes impossível, tentar fazê-los entender que a Verdade pertence à esfera da Religião. Que a História não busca necessariamente a verdade dos fatos porque, sinceramente, não se acredita mais que exista essa tal verdade e, muito menos, que ela esteja acessível aos historiadores, distantes do seu objeto tanto no espaço quanto no tempo. Hoje, a História preocupa-se mais com versões e interpretações, culturas e mentalidades.

São Paulo nos Primeiros Anos 1554-1601: São Paulo no Século XVI Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, O

(Por exemplo, o fato concreto de Amador Bueno ter sido aclamado Rei em 1641 é relativamente desimportante. Taunay acha que aconteceu. Alencastro acha que é uma invenção auto-glorificatória paulista. Muito mais importante é a aclamação, falsa ou verdadeira, ter sido tomada como verdadeira durante muitos séculos, a ponto de ter se tornado parte do mito fundador de São Paulo. Entendem? O fato acontecer ou não é um mero acidente histórico que não nos diz necessariamente nada. O fato de sucessivas gerações terem acreditado que era possível que a aclamação acontecesse e, mais ainda, incorporado-a à sua identidade e ao seu folclore, nos diz MUITO sobre quem eram essas pessoas e quais eram suas prioridades.)

Euclides da Cunha: Esboço Biográfico   Guerra do Fim do Mundo

Pois então. Os fatos históricos sobre Canudos pouco importam. Para quem quer saber a História da Guerra de Canudos, existem livros muitos melhores que Os Sertões. (Recomendo O Sertão Prometido: O Massacre de Canudos, de Robert M. Levine.) Euclides, na verdade, só chegou no teatro de operações nas últimas semanas do conflito e viu muito pouco com seus próprios olhos: quase tudo, em Os Sertões, é de segunda mão. Para quem quer uma narrativa mais humana e emocionante da Guerra de Canudos, também existem livros melhores do que Os Sertões. (Recomendo A Guerra do Fim do Mundo, um dos últimos livros grandes de Vargas Llosa, antes de ele entrar em seu triste declínio atual. Esse romance, lido nos meus nove meses de hiato entre escola e universidade, talvez tenha sido o principal responsável por eu cursar História.) Então, se não lemos Os Sertões pra saber os fatos históricos e nem pra acompanhar a narrativa humana, por que então lemos Os Sertões? Por que o livro é importante?

Os Sertões não é importante por causa da Guerra de Canudos. Tivemos muitas outras "guerras" como Canudos, muitas outras comunidades interioranas, isoladas e religiosas (atávicas, como diria Euclides) foram exterminadas pelas autoridades constituídas. Contestado é apenas um outro exemplo entre muitos.

Contestado - O Território Silenciado Contestado: A Guerra dos Equívocos

Os Sertões não é importante por ter sido escrito por Euclides da Cunha, correspondente de guerra e testemunha ocular. Ele não foi testemunha tão ocular assim, aliás. Todo conflito como Canudos também teve um ou mais escritores que lhes servissem de testemunhas e, em geral, um livro obscuro sobre um massacre obscuro gerou tão pouco interesse quanto o próprio massacre. Diante do manuscrito de Os Sertões - um livro longuíssimo, em português difícil e empolado, sobre um conflito ocorrido no meio do nada, escrito por autor iniciante e desconhecido - quem jamais imaginaria que o livro seria, quem dirá, lido e resenhado e, quando muito, um enorme sucesso?

O que importa não é Canudos em si - pois houve muitos Canudos. O que importa não é um livro ter sido escrito sobre Canudos - pois há muitos livros importantes e desprezados. O que importa é o fato de um livro ter feito tanto sucesso - apesar de ter tudo para ser um dos maiores fracassos editoriais da história.

Canudos, Euclides, um livro chamado "Os Sertões", são acidentes históricos que podem ou não ter significado maior. Mas o enorme sucesso do livro Os Sertões, escrito por Euclides da Cunha, sobre a Campanha de Canudos, foi um fenômeno nacional que nos diz muito sobre essas milhares e milhares de pessoas, em todo o Brasil, que compraram, leram e resenharam esse livro, passaram adianta ou pegaram emprestado, se reconheceram ou se enojaram, amaram ou odiaram.

Era um livro que estava se comunicando fortemente, intimamente com muitos dos anseios, medos, contradições daquela sociedade. Por quê? Que sociedade era essa que consumia tão avidamente um livro sobre civilização e barbárie, raça e meio ambiente?Sertões, Os

Na introdução de "Folha Explica Os Sertões": "Um Sucesso Imprevisto", diz Roberto Ventura:

De seu autor, Euclides da Cunha, já se disse que dormiu obscuro e acordou célebre, conforme a pitoresca expressão do crítico Sílvio Romero. ... Mas, embora quase tudo conspirasse contra seu êxito, Os Sertões se tornou um dos maiores sucessos de público e de crítica do Brasil, com mais de 50 edições em língua portuguesa e traduções em pelo menos nove línguas. Em 1994, em pesquisa feita com 15 intelectuais pelo jornalista Rinaldo Gama, da revista Veja, o livro foi apontado como o mais importante da cultura brasileira. A obra de Euclides recebeu um total de 15 votos, seguida de Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, com 14, e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, com 11. Machado de Assis foi, porém, o escritor mais votado, e o único a figurar na lista com duas obras: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899).

 Machado de Assis: Obra Completa    Casa-Grande e Senzala

Os Sertões teve três edições em apenas três anos, de 1902 a 1905. A primeira se esgotou em pouco mais de dois meses e rendeu a Euclides um saldo de dois contos e 200 mil-réis, do qual resultou um lucro de 700 mil-réis, depois de descontado o seu aporte para a publicação. Mas, como escreveu ao pai em 25 de fevereiro de 1903, o que lhe importava era o “lucro de ordem moral”, resultante do reconhecimento que obtivera, pois todos o tinham elogiado, até o visconde de Ouro Preto, último chefe de gabinete da Monarquia3.

A narrativa que Euclides faz da guerra de Canudos inspirou diversos romances europeus e latino-americanos, como Le Mage du Sertão (O Mago do Sertão, 1952), do francês Lucien Marchal; João Abade (1958), de João Felício dos Santos; Capitão Jagunço (1959), de Paulo Dantas; Veredicto em Canudos (1970), do húngaro Sándor Márai; La Guerra del Fin del Mundo (1981), do peruano Mario Vargas Llosa; A Casca da Serpente (1989), de José J. Veiga; As Meninas do Belo Monte (1993), de Júlio José Chiavenato; e Canudos (1997), de Ayrton Marcondes. Serviu ainda de base para um dos mais belos filmes de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), e para um sofrível longa-metragem histórico de Sérgio Rezende, A Guerra de Canudos (1997).

DVD Deus e o Diabo na Terra do Sol Casca da Serpente

Como explicar tal sucesso de um livro de grandes proporções sobre um assunto macabro, cujos potenciais leitores se voltavam para a nova era de progresso, anunciada pelo quadriênio presidencial havia pouco inaugurado? Por que Os Sertões se tornou um êxito comercial e literário capaz de surpreender tanto seu autor, que gastara cinco anos de trabalho em sua redação e revisão e quase dois meses de salário em sua impressão, quanto o próprio editor, até então certo de que grossas obras históricas sempre davam prejuízo? E como entender a morte do escritor, crítico da violência da guerra de Canudos e dos instintos primitivos capazes de levar o homem à vingança, abatido em tiroteio com o amante de sua mulher? Este livro procura responder a tais perguntas.

O motivo principal para ler Os Sertões em pleno 2010 é justamente para tentar responder às perguntas acima.

Então, voltando ao começo, Os Sertões é importante... por ser importante. Sua importância está em ter... uma enorme importância.

Entenderam agora?

* * *

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A edição crítica da Ateliê Editorial, abaixo, organizada por Leopoldo M. Bernucci, é de longe a melhor edição de Os Sertões de todos os tempos. Ficou muito tempo esgotada, mas agora foi reimpressa. É a edição que uso, depois de passar por três outras. Recomendo enfaticamente para todos que quiserem ler o livro a sério.

Ano passado, também saiu uma nova edição, bastante aumentada, da Obra Completa de Euclides pela Nova Aguilar. Ainda não folheei, mas já está na minha lista de desejos.

Euclides da Cunha - Obra Completa    Os Sertões

 

15.03.10


Categorias: Livros


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Comentários:


Comentário de: João Ricardo · http://berimbeat.wordpress.com

Outro dia, dia desse, chuto que foi a uns 30 dias vai, vi Os Sertoes no sebo, 15 conto, tinha ido comprar outros livros, mas achei que tava barato, levei embora, fiz eu bom negócio?

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 01:12



Comentário de: Hugo

"em geral com um perfil mais conservador ou de exatas (ambos frequentemente andam juntos),"
A que se conclui que as ideias bocós de organizacao social da esquerda festiva podem decorrer de uma intrínseca dificuldade de lidar com números e lógica, em especial; fatos, hipoteses e probabilidades?

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 08:03



Comentário de: Alex Castro Email

hugo...

sim, pq nao? eh uma explicacao tao boa qt qq outra....

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 08:10



Comentário de: aiaiai

acho que vc tem razão. no entanto, achei o livro insuportável. é um dos poucos que não consegui ler até o final.


e Hugo,
você é de exatas, né? aposto que adora uma matemática kkkkkkkkkkkkkkkkkk

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 09:43



Comentário de: Tiago Gornicki Schneider

"ideias bocós de organizacao social da esquerda festiva" - o que ser isso? As pessoas tentarem se organizar para se contrapor ao andamento natural das coisas? Esquerda festiva? Que discurso claro e compreensível, hein?
Porra, faltou tu tentar responder essas questões, Alex, para os mais preguiçosos e que tentaram e não conseguiram ler o livro... Depois do Hobbit, tentarei mais uma vez.

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 11:56



Comentário de: José Carlos · http://www.darnomeaoboi.blogspot.com

Penso que Fernando Pessoa sintetizou o que queres dizer com " o mito é o nada que é tudo." .

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 12:19



Comentário de: Permafrost · http://drplausivel.blogspot.com

Alex,
Sei não. A tautologia é criticada justamente pq não diz nada. Tua resposta não diz 'por quê' e principalmente 'como' ele se TORNOU importante. Qdo alguém pergunta por que algo é importante, quer saber qual é a história da coisa, não ouvir um curto-circuito lógico.

¿Por que o Lula é famoso?
Pq ele é muito conhecido.
¿Por que?
Pq ele é importante.
¿Por que?
Pq muita gente lhe dá importância.
¿Por que?
Pq ele é famoso.

Apesar de vc procurar se desassociar da "verdade" ao associá-la à religião, a tautolotia tem TUDO a ver com religião; toda religião é essencialmente tautológica. Tua tautologia sobre a importância d'Os Sertões é praticamente a ÚNICA Verdade q vc pode afirmar com certeza sobre essa obra, e é provavelmente por causa disso q vc usa essa tautologia.

A tautologia é um vácuo q se aplica a tudo no Universo e ao próprio Universo.

¿Por que é importante beber água?
Pq ela é importante prà vida.
¿Por que é a vida é importante?
Pq os vivos lhe dão importância.

Uma resposta semi-tautológica e ainda assim verdadeira sobre a importância d'Os Sertões seria:

Esse livro é importante pq, qdo foi publicado, não foram publicados outros duzentos livros melhores sobre o mesmo assunto, de modo q ele ficasse justamente mofando nas prateleiras.

Conhecimento bruto adquirido = zero.

¿Por que é importante adquirir conhecimento bruto?
Pra ter algo pra fazer entre o nascimento e a morte.

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 12:54



Comentário de: Eric

Antes de tudo, os perfis de "exatas" e "engenharia" têm distinções. Como o artigo linkado indica, assim como um dos comentários nele, a grade curricular de engenharia enfatiza bastante a aplicação da ciência, mas não muito a crítica, criatividade e criação. Outros cursos, como matemática, estatística e física (incluiria minha primeira formação - ciência da computação - também), têm uma abordagem mais experimental, o que tem um lado bom (incentiva o raciocínio "outside the box"), mas dificulta a adaptação ao trabalho, quando este requer conhecimentos no estilo "mão na massa".

No mais, como também sou formado em humanas, percebo em muitos professores e profissionais dessas áreas um certo desprezo pelo método científico, que pode sim ser derivado de um "recalque" contra a matemática e outras ciências exatas.

Toda ciência é uma busca da verdade, em minha opinião. No entanto, ao contrário do que o autor do blog parece indicar, mesmo as ciências exatas (salvo pela matemática) não buscam uma verdade absoluta, mas sim uma verdade possível. O conhecimento total das relações físicas e químicas é algo virtualmente inatingível (quanto mais perto olhamos, mais detalhes surgem), mas ao saber mais, podemos aplicar esse conhecimento de formas inovadoras.

Nas ciências humanas, a busca da verdade possível também é importante. Não sou formado em História, mas acredito que saber se determinado evento ocorreu ou não seja importante. As interpretações e versões sobre ele são igualmente imprescindíveis, pois podem dar conclusões sobre o momento histórico, o sentimento popular e outros elementos que fazem parte dessa noção de verdade possível. No mundo do Direito, o conceito de "verdade real" é fortemente combatido, mas a noção de "verdade possível" é essencial para qualquer tipo de decisão por parte de um juiz.

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 14:26



Comentário de: Transeunte

"Que a História não busca necessariamente a verdade dos fatos porque, sinceramente, não se acredita mais que exista essa tal verdade e, muito menos, que ela esteja acessível aos historiadores, distantes do seu objeto tanto no espaço quanto no tempo."

Isso até hoje me atormenta. Penso mais como o Eric. Alex, tem como indicar uma leitura? Um artigo na net ou, quem sabe, escrever alguma coisa sobre?

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 16:28



Comentário de: Arthur

Por isso que eu sai da historia. Entrei achando que era mais ou menos uma ciencia.

A vida do euclides é extremamente interessante, você não vai deixar de comentar a biografia do homem neh alex?


PermalinkPermalink 15.03.10 @ 16:45



Comentário de: Alex Castro Email

arthur....

na segunda q vem... :)

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 16:57



Comentário de: JCCyC · http://rsnda.blogspot.com

Tenho orgulho de ser uma exceção à regra. Sou engenheiro do IME e minhas idéias são, na maioria, aquilo que se convencionaria chamar de "esquerda".

Agora, é bem provável que a estatística seja verdadeira. Tristemente.

E eu entrei no Tautology club do Facebook. Por quê? Porque entrei no Tautology club do Facebook.

PermalinkPermalink 15.03.10 @ 18:51



Comentário de: Bear

E eu que achava que uma obra literária tinha (que ter) um valor próprio qualquer. É importante porque vendeu? porque não teve concorrente? Vai daí que, como Paulo Coelho vend... ah deixa pra lá. Não ouso concluir o pensamento...

PermalinkPermalink 16.03.10 @ 02:27



Comentário de: Alex Castro Email

ue bear, e vc acha q paulo coelho nao é importante?

PermalinkPermalink 16.03.10 @ 02:36



Comentário de: Josué

É interessante que as três obras citadas como as mais importantes - Os sertões, Casa-grande & senzala, Macunaíma - lidam, cada um a sua maneira, com propostas de o que foi ou estava sendo a formação do povo brasileiro, e as três intimamente ligadas à noção de raça. Pensando na tautologia da importância d'Os sertões, é curioso ver que, mesmo no país em que os intelectuais negam que a noção de raça seja algo relevante para a população, ela é tema central dos três textos que eles próprios votaram.

PermalinkPermalink 16.03.10 @ 10:21



Comentário de: Josué

corrigindo: EM que eles próprios votaram.

PermalinkPermalink 16.03.10 @ 10:24



Comentário de: rayssa gon · http://presencadapeste.blogspot.com

sempre tem aquele que fala que best-seller não presta. tenho resposta padrão para isso ja.

PermalinkPermalink 16.03.10 @ 10:33



Comentário de: Luiz Aquino · http://hajaluz.webluz.net

Quando lí sertões fiquei louco, foi em uma fase que gostava muito de religião, geografia, antropologia, literatura e história. Ainda não havia decidido o caminho profissional e tudo isso era possibilidade, Euclides é muito, mas muito técnico e sincero no que descrevo.

Como sou exagerado. Sempre. Vou arriscar a dizer que ele propôs descrever a gênese do Brasil

PermalinkPermalink 17.03.10 @ 07:11



Comentário de: Jonas Binelli

Acho essa discussão sobre a história-ciência uma coisa muito interessante. Me parece que o que faz a história uma ciência é o método, não o objetivo. É o rigor científico (que, convenhamos, muitos historiadores deixam de lado sem cerimônia) do "fazer historiográfico" que faz a ciência, não a busca da verdade ou coisa que o valha...

PermalinkPermalink 17.03.10 @ 10:47



Comentário de: Adriano Araújo · http://adrianodsa.wordpress.com

Essa eterna birra entre as áreas (os de humanas acham que os de exatas são ingênuos, e os exatas acham que os de humanas são burros), me parece, e essa é uma idéia ainda em formação em minha cabeça, que a linha divisora seja mais de natureza psicológica. Explico. Tenho formação nas duas áreas e, a partir de minha experiência pessoal, fiquei com a forte impressão de que, enquanto a galera de exatas e engenharias estão imbuídos de um sentimento de otimismo com a capacidade humana para grandes feitos, via método científico, o pessoal das humanidades, por outro lado, tendem a enfatizar muito mais os aspectos negativos e as limitações humanas, com um viés anti-científico.

Ou seja, na área de exatas há esse ambiente de maravilhamento com o poder da ciência, de tal modo que a comunidade científica em geral se vê como herdeira do iluminismo do séc. XVIII. Por mais que se reconheça as limitações humanas, eles tendem a vê-las com um grão de sal, enfatizando as enormes conquistas e avanços materiais dos últimos 200 anos.

Já na área de humanas, há um ambiente de desconfiança e cinismo para com a "modernidade"; diz-se que o iluminismo falhou na entrega de suas promessas e que não há uma seta da história apontando para um futuro melhor para a humanidade.

Quem está certo ou errado? obviamente ambos estão meio certos e meio errados, mas, confesso, me inclino um pouco mais para o estado mental de exatas, mesmo mantendo em mente que um bom futuro não está garantido e que há muito por fazer no campo social.

PS.: Assino embaixo no que o Eric falou sobre a verdade possível.

PermalinkPermalink 17.03.10 @ 12:45



Comentário de: rafael lima

Alex, não tem tautologia nenhuma.

Os Sertões é importante por ser um clássico: uma obra que carrega os valores da civilização que representa, ajudando-os a permanecerem e se reforçarem.

O problema é que você recusa parte desses valores: belicismo, preconceito, patriotismo, machismo ainda que aceite outros valores, como a superioridade da Arte e o conceito do que é Belo.

Não precisava jogar o bebê fora, junto com a água, ao recusar os primeiros valores. A questão é que uns são indissociáveis dos outros. Para se livrar do que você não gosta, é preciso destruir e refundar do zero a civilização.

Qualquer tentativa de conciliação vai variar da falha completa ao ridículo da rebeldia a favor.

PermalinkPermalink 17.03.10 @ 13:58



Comentário de: Alex Castro Email

rafael,

hmmm

eu nao gosto mt desse termo "classico", acho que ele já nao quer dizer nada, prefiro usar "canonico"

e tb nao acho q "superioridade da arte" e "o belo" sejam valores... ninguem me viu falar aqui dessas coisas, tambem nao fazem parte nem do meu vocabulario nem do meu horizone explicativo...

mas acho q vc tem razao numa coisa... eu adoro sim Os Sertoes... e gosto dele justamente pq ele expoe, ele denuncia, ele exemplica todas essas nossas caracteristicas e vicios e defeitos tao negativos como.... belicismo, preconceito, patriotismo, machismo!

a beleza do livro está em justamente escancarar tudo isso... em ser um espelho onde podemos nos ver como realmente somos....

PermalinkPermalink 17.03.10 @ 14:07



Comentário de: Bear

Alex, se Paulo Coelho é importante, então ser importante não tem importancia nenhuma (ichi! sabia que isso não ia dar certo!)

PermalinkPermalink 18.03.10 @ 02:06



Comentário de: Alex Castro Email

putz, paulo coelho é o autor brasileiro mais traduzido de todos os tempos... quase todos os nao-brasileiros q tiveram qq contato com cultura brasileira o fizeram pelo paulo coelho... pra uma parcela gigantesca da populacao global, paulo coelho vai ser seu unico contato com a cultura brasileira... se isso nao faz dele imensamente importante, serio, vc tem outra definicao de importancia q eu...

podemos usar paulo coelho nao soh pra entender a profissionalizacao da profissao de escritor no brasil, a ascensao do misticismo e da auto-ajuda, um certo boom literario e de tiragens, globalizacao literaria, percepção da cultura brasileira no exterior (especialmente o interessantissimo fato q mt gente le paulo coelho sem de sar conta q ele eh brasileiro), etc etc... e isso é só assim, de improviso, e sem nem entrar nos enredos dos livros....

PermalinkPermalink 18.03.10 @ 02:19



Comentário de: rafael lima

Alex,

Se você não vê o Belo como um valor, então porque publica tantas fotos das suas amigas, leitoras e da paisagem & arquitetura do Rio de Janeiro e New Orleans?

(concordo com a substituição de clássico por canônico).
abs,

PermalinkPermalink 22.03.10 @ 13:27



Comentário de: Buriti

Eu nunca li tanta besteira de uma vez só. Sao preconceituosos pseudo-cientistas, que se julgam entendedores de alguma coisa, mas nao tem idéia de merda nenhuma e que vao passando pra frente esse monte de preconceitos que regem a cabeca do brasieliro. Calem-se todos, seus brasileiros idiotas! Sao a desgraca do Brasil!

PermalinkPermalink 25.07.11 @ 10:45




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