Em uma sala de aula, ainda mais depois de passar cinco semanas lendo um livro difícil e palavroso, é fundamental justificar essa escolha para os alunos. Afinal, por que estudar Os Sertões?
Minha resposta talvez tenha sido um pouco frustrante, mas é a seguinte:
No fim das contas, Os Sertões é importante... por ser importante. Sua importância está em ter... uma enorme importância.
Deu pra entender? Eu explico.
* * *
Existe um tipo bem específico de aluno, em geral com um perfil mais conservador ou de exatas (ambos frequentemente andam juntos), que insiste sempre nos tais "fatos" ("hard facts"). Quando se matriculam em cursos de História, trazem essa expectativa de descobrir como as coisas realmente aconteceram, pensam que a História é uma busca pela verdade.
É trabalhoso, às vezes impossível, tentar fazê-los entender que a Verdade pertence à esfera da Religião. Que a História não busca necessariamente a verdade dos fatos porque, sinceramente, não se acredita mais que exista essa tal verdade e, muito menos, que ela esteja acessível aos historiadores, distantes do seu objeto tanto no espaço quanto no tempo. Hoje, a História preocupa-se mais com versões e interpretações, culturas e mentalidades.
(Por exemplo, o fato concreto de Amador Bueno ter sido aclamado Rei em 1641 é relativamente desimportante. Taunay acha que aconteceu. Alencastro acha que é uma invenção auto-glorificatória paulista. Muito mais importante é a aclamação, falsa ou verdadeira, ter sido tomada como verdadeira durante muitos séculos, a ponto de ter se tornado parte do mito fundador de São Paulo. Entendem? O fato acontecer ou não é um mero acidente histórico que não nos diz necessariamente nada. O fato de sucessivas gerações terem acreditado que era possível que a aclamação acontecesse e, mais ainda, incorporado-a à sua identidade e ao seu folclore, nos diz MUITO sobre quem eram essas pessoas e quais eram suas prioridades.)
Pois então. Os fatos históricos sobre Canudos pouco importam. Para quem quer saber a História da Guerra de Canudos, existem livros muitos melhores que Os Sertões. (Recomendo O Sertão Prometido: O Massacre de Canudos, de Robert M. Levine.) Euclides, na verdade, só chegou no teatro de operações nas últimas semanas do conflito e viu muito pouco com seus próprios olhos: quase tudo, em Os Sertões, é de segunda mão. Para quem quer uma narrativa mais humana e emocionante da Guerra de Canudos, também existem livros melhores do que Os Sertões. (Recomendo A Guerra do Fim do Mundo, um dos últimos livros grandes de Vargas Llosa, antes de ele entrar em seu triste declínio atual. Esse romance, lido nos meus nove meses de hiato entre escola e universidade, talvez tenha sido o principal responsável por eu cursar História.) Então, se não lemos Os Sertões pra saber os fatos históricos e nem pra acompanhar a narrativa humana, por que então lemos Os Sertões? Por que o livro é importante?
Os Sertões não é importante por causa da Guerra de Canudos. Tivemos muitas outras "guerras" como Canudos, muitas outras comunidades interioranas, isoladas e religiosas (atávicas, como diria Euclides) foram exterminadas pelas autoridades constituídas. Contestado é apenas um outro exemplo entre muitos.
Os Sertões não é importante por ter sido escrito por Euclides da Cunha, correspondente de guerra e testemunha ocular. Ele não foi testemunha tão ocular assim, aliás. Todo conflito como Canudos também teve um ou mais escritores que lhes servissem de testemunhas e, em geral, um livro obscuro sobre um massacre obscuro gerou tão pouco interesse quanto o próprio massacre. Diante do manuscrito de Os Sertões - um livro longuíssimo, em português difícil e empolado, sobre um conflito ocorrido no meio do nada, escrito por autor iniciante e desconhecido - quem jamais imaginaria que o livro seria, quem dirá, lido e resenhado e, quando muito, um enorme sucesso?
O que importa não é Canudos em si - pois houve muitos Canudos. O que importa não é um livro ter sido escrito sobre Canudos - pois há muitos livros importantes e desprezados. O que importa é o fato de um livro ter feito tanto sucesso - apesar de ter tudo para ser um dos maiores fracassos editoriais da história.
Canudos, Euclides, um livro chamado "Os Sertões", são acidentes históricos que podem ou não ter significado maior. Mas o enorme sucesso do livro Os Sertões, escrito por Euclides da Cunha, sobre a Campanha de Canudos, foi um fenômeno nacional que nos diz muito sobre essas milhares e milhares de pessoas, em todo o Brasil, que compraram, leram e resenharam esse livro, passaram adianta ou pegaram emprestado, se reconheceram ou se enojaram, amaram ou odiaram.
Era um livro que estava se comunicando fortemente, intimamente com muitos dos anseios, medos, contradições daquela sociedade. Por quê? Que sociedade era essa que consumia tão avidamente um livro sobre civilização e barbárie, raça e meio ambiente?
Na introdução de "Folha Explica Os Sertões": "Um Sucesso Imprevisto", diz Roberto Ventura:
De seu autor, Euclides da Cunha, já se disse que dormiu obscuro e acordou célebre, conforme a pitoresca expressão do crítico Sílvio Romero. ... Mas, embora quase tudo conspirasse contra seu êxito, Os Sertões se tornou um dos maiores sucessos de público e de crítica do Brasil, com mais de 50 edições em língua portuguesa e traduções em pelo menos nove línguas. Em 1994, em pesquisa feita com 15 intelectuais pelo jornalista Rinaldo Gama, da revista Veja, o livro foi apontado como o mais importante da cultura brasileira. A obra de Euclides recebeu um total de 15 votos, seguida de Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, com 14, e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, com 11. Machado de Assis foi, porém, o escritor mais votado, e o único a figurar na lista com duas obras: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899).
Os Sertões teve três edições em apenas três anos, de 1902 a 1905. A primeira se esgotou em pouco mais de dois meses e rendeu a Euclides um saldo de dois contos e 200 mil-réis, do qual resultou um lucro de 700 mil-réis, depois de descontado o seu aporte para a publicação. Mas, como escreveu ao pai em 25 de fevereiro de 1903, o que lhe importava era o “lucro de ordem moral”, resultante do reconhecimento que obtivera, pois todos o tinham elogiado, até o visconde de Ouro Preto, último chefe de gabinete da Monarquia3.
A narrativa que Euclides faz da guerra de Canudos inspirou diversos romances europeus e latino-americanos, como Le Mage du Sertão (O Mago do Sertão, 1952), do francês Lucien Marchal; João Abade (1958), de João Felício dos Santos; Capitão Jagunço (1959), de Paulo Dantas; Veredicto em Canudos (1970), do húngaro Sándor Márai; La Guerra del Fin del Mundo (1981), do peruano Mario Vargas Llosa; A Casca da Serpente (1989), de José J. Veiga; As Meninas do Belo Monte (1993), de Júlio José Chiavenato; e Canudos (1997), de Ayrton Marcondes. Serviu ainda de base para um dos mais belos filmes de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), e para um sofrível longa-metragem histórico de Sérgio Rezende, A Guerra de Canudos (1997).
Como explicar tal sucesso de um livro de grandes proporções sobre um assunto macabro, cujos potenciais leitores se voltavam para a nova era de progresso, anunciada pelo quadriênio presidencial havia pouco inaugurado? Por que Os Sertões se tornou um êxito comercial e literário capaz de surpreender tanto seu autor, que gastara cinco anos de trabalho em sua redação e revisão e quase dois meses de salário em sua impressão, quanto o próprio editor, até então certo de que grossas obras históricas sempre davam prejuízo? E como entender a morte do escritor, crítico da violência da guerra de Canudos e dos instintos primitivos capazes de levar o homem à vingança, abatido em tiroteio com o amante de sua mulher? Este livro procura responder a tais perguntas.
O motivo principal para ler Os Sertões em pleno 2010 é justamente para tentar responder às perguntas acima.
Então, voltando ao começo, Os Sertões é importante... por ser importante. Sua importância está em ter... uma enorme importância.
Entenderam agora?
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A edição crítica da Ateliê Editorial, abaixo, organizada por Leopoldo M. Bernucci, é de longe a melhor edição de Os Sertões de todos os tempos. Ficou muito tempo esgotada, mas agora foi reimpressa. É a edição que uso, depois de passar por três outras. Recomendo enfaticamente para todos que quiserem ler o livro a sério.
Ano passado, também saiu uma nova edição, bastante aumentada, da Obra Completa de Euclides pela Nova Aguilar. Ainda não folheei, mas já está na minha lista de desejos.
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