Homem e mulher se casam. Ele se converte à religião dela. Mais tarde, se divorciam. Mãe ganha a custódia e continua criando filho em sua religião - ela alega que casal tinha concordado criar o filho nessa religião. Pai, depois de divorciado, reverte à sua antiga religião e começa a levar filho (de três anos de idade) para cultos, chegando inclusive a iniciá-lo nela. Mãe entra com ação na justiça para impedir Pai de expor filho à outra religião - argumentando que pode confundi-lo. Pai faz um escândalo, dizendo que estão interferindo em sua liberdade de expressão, de religião e em seus direitos de pai.
E aí? Complicado, né?
Se seu ex-conjuge começasse a levar seu filhinho para cerimônias de umas dessas seitas bizarras*, você iria gostar? Se sentiria no direito de tentar impedir?
(*Seita bizarra = religião do outro)
A história tem muitos outros detalhes mas, sinceramente, não são muito importantes e podem viciar suas opiniões. Com base no resumo, o que vocês acham?
Faz diferença a mãe alegar que o pai se converteu e que tinham concordado criar filho nessa religão? Faz diferença mãe alegar que, por ter a custódia legal, cabe a ela decidir a religião do filho e que expô-lo a outra pode confundi-lo? Faz diferença o pai alegar que nunca se converteu de verdade e que foi só pra agradar os sogros? Faz diferença o pai alegar que ele e a ex-esposa nunca foram de fato religiosos nem seguiam estritamente os mandamentos daquela religião? Faz diferença o pai ter chamado a televisão para vê-lo levando o filho ao culto, fazendo um cerco circo midiático?
Talvez a questão mais importante: é prejudicial à criança ser exposta a duas religiões enquanto cresce?
Sinceramente, acho que ser exposto a duas religiões simultaneamente aumenta as chances da criança se dar conta de que nada daquilo faz nenhum sentido.
Ou seja, não poderia ser mais benéfico.

Longe, a melhor Bíblia em português.
* * *
A complexa relação entre paternidade e religião é um dos temas do meu romance, Mulher de Um Homem Só. Trecho:
Quando Raquel nasceu, ele ainda veio me dizer que não queria que ela fosse batizada, imagina!, porque era uma violência com o bebê comprometê-la com uma religião antes que tivesse liberdade de escolha! Mais tarde, poderia escolher sua fé com calma e teria o resto da vida para ser batizada, crismada, fazer bat mitzvah ou peregrinar a Meca. E eu, que nessa época já tinha cinco anos de experiência em ser casada com o Murilo e conhecia todas as manhas do rapaz, argumentei que a menina precisava de padrinhos, que isso fazia parte da cultura brasileira, que amanhã estaria brincando com as amiguinhas e seria a única menina do grupo sem uma dinda, e ele, ele teve padrinhos, não teve?, e não adorava a madrinha até hoje?, como poderia negar isso à própria filha, esse elemento crucial de brasilidade? Ah, hoje eu rio, quase tenho pena do Murilo, mas estava lutando pela minha filha: ele não tinha o que responder e Raquel foi batizada na mesma igreja onde nos casamos. Não preciso nem dizer quem foi a madrinha.
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