O Submarino está vendendo, em promoção por tempo limitadíssimo, O Hobbit, O Silmarillion e O Senhor dos Anéis por R$48 (Preço normal é R$272!) Em homenagem a essa milagrosa promoção, republico aqui um texto antigo sobre o livro, um dos meus preferidos de todos os tempos.
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Tolkien e a Tradição Épica
Há muito mais literatura entre o primeiro e o último livro de "O senhor dos anéis" do que suspeita a vã filosofia dos doutores em Literatura Comparada.
A trilogia se insere solidamente na grande tradição das narrativas épicas e não fica a dever a nenhuma. Pelo contrário, é a síntese de todas, com uma roupagem moderna e mais acessível.
Tolkien faz uso de todos aqueles arquétipos que povoam o imaginário humano desde as primeiras rodas ao redor da fogueira até a mais recente novela das oito. Em seus livros, e não só em "O senhor dos anéis", podemos encontrar os monstros irredimíveis e os monstros que se revelam heróis, os heróis incorruptíveis e os heróis corrompidos, o rei que revela sua nobreza ao se comportar com um homem do povo e o rei que revela sua falta de berço ao abusar das prerrogativas do cargo. Duendes, magos, princesas, elfos e anões completam a lista de arquétipos.
Apesar disso, "O senhor dos anéis" nunca é um romance fácil. Ele se utiliza dos arquétipos sem se submeter a eles. Distorce nossas expectativas e nos revela mais do que esperávamos. Sua deliciosa complexidade se deve nem tanto às referências geográficas e mitológicas da Terra-Média, dificuldade que um bom glossário resolve, mas sim às inúmeras camadas de leitura e interpretação que a saga exibe.
"O Caso dos Dez Negrinhos", por exemplo, meu livro preferido de Agatha Christie, foi escrito unicamente por ela, sem a participação de nenhum leitor. Não interessa quantas vezes o lermos: ele vai sempre dizer a mesma coisa, contar a mesma história.
Experimente ler "O Processo", de Kafka (ou "O senhor dos anéis", de Tolkien) de dez anos em dez anos: a cada leitura, você estará segurando um livro diferente.
A crônica da Terra-Média se presta a múltiplas leituras.
Uma leitura mais clássica, por exemplo, se focalizaria em Aragorn, o herói épico tradicional, forte, seguro, leal, comprometido, um poço de qualidades romenescas.
A leitura mais óbvia pensa o livro como a história de Frodo. Por um lado, o portador do anel é o herói trágico por excelência, escolhido pelo destino para se sacrificar pelo bem comum, sem esperar nada em troca. Como ele mesmo diz, em um dos trechos mais bonitos do livro, ele salvou o Condado, mas não para ele; algumas vezes, alguém tem que desistir de algo para que os outros possam usufruir dos seus benefícios.
Frodo também encarna um típico personagem do imaginário do século XX: o homem comum pego em acontecimentos muito maiores que o obrigam a navegar entre escolhas morais complexas. O exemplo mais imediato são os chamados "romances sérios" de Graham Greene.
Mas há outras leituras possíveis do épico de Tolkien.
Esqueçam os lordes como Aragorn e, de certo modo, Frodo. Experimentem ler o livro como a história de um jardineiro simples que seguiu seu patrão sem titubear em uma missão suicida do outro lado do mundo.
De certo modo, Sam é o único que não se deixa deslumbrar pelos acontecimentos históricos que presencia. Até mesmo Merry e Pippin têm suas ilusões de grandeza e orbitam as cortes dos reis humanos. Mas Sam, o simples Sam, de mentalidade tacanha e direta, consegue o que nem os mais poderosos conseguiriam, usar o anel sem se corromper, e depois voltar calmamente para o Condado e viver feliz para sempre.
Outras leituras são possíveis. E a cada nova leitura, o enredo do livro revelará novos símbolos, novos significados, novos tesouros.
Apesar disso, os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur", "Nibelungenlied", "El Cid", "Os Lusíadas" e "Beowulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis".
É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles. Ninguém melhor do que eles para aproveitar todas as referências e estruturas simbólicas do texto.
Mas, infelizmente, os doutores da Academia, e tantos outros, não lêem "subliteratura".
Publicado originalmente na capa do TribunaBis, caderno de cultura da Tribuna da Imprensa, em 17 de dezembro de 2003. Adaptado e revisado para o blog em 4 de março de 2010, aniversário de 10 anos do LLL.
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Essa tradução de Beowulf, de 1992, ainda é considerada a melhor em português, de autoria de Ary Galvão, meu professor de literatura no ensino médio por três anos e um dos maiores especialistas brasileiros em inglês medieval. Apesar disso, ou por causa disso, dava aulas de literatura em escola e, através dele, conheci Camus, Shakespeare, Euripides, Joyce, Tolstoi, Kafka, Hemingway, Charlotte Bronte, uma enorme lista. Especialmente, Galvão adorava ler alto seus trechos favoritos: sua interpretação preciosa de Lady Bracknell, em A Importância de Ser Honesto/Prudente, ainda é das coisas mais engraçadas que ouvi na vida. Hoje, que dou aulas de literatura, penso muito em Ary Galvão, que foi quem mais me ensinou literatura por mais tempo. Galvão, que me chamava (a sério!) de "delinquente juvenil" e "líder negativo de grupo", também me presenteava livros que achava que eu iria gostar, e costumava me dar notas mais altas nos trabalhos que eu não entregava do que nos que eu efetivamente fazia - será que era de propósito ou simplesmente inventava notas para os trabalhos inexistentes, achando que os tinha perdido? Não sei, mas era claro que Ary Galvão não estava nem aí para nossos trabalhos, nossas notas, para disciplina de sala de aula: ele amava literatura e pronto. Seu entusiasmo era belíssimo e contagiante. Eu admirava sua capacidade de cagar sinceramente para tudo o que considerasse desimportante, chato ou burocrático, e concentrar-se somente no fundamental: a palavra certa, o tom exato. Galvão morreu em 1994, um ano depois de eu me formar e dois depois de publicar sua tradução de Beowulf, que permanece para nós como o legado dos seus esforços intelectuais de toda uma vida.
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O Senhor dos Anéis, com certeza, é uma das grandes obras da literatura universal. Não é infantil, nem bobo, não é escapista, nem simplista. É complexo, lindo, profundo, multifacetado, heróico, triste: enfim, grande como só as grandes obras são grandes. O Silmarillion não fica muito atrás, também maravilhoso e belíssimo. O Hobbit, sim, é um livro infantil, mas é o prólogo perfeito para os seguintes.
Não quero soar como anúncio das facas Ginzu, mas realmente não trabalho no Submarino e não tenho como saber quanto tempo duram essas promoções. Às vezes semanas, às vezes 24 horas. Então, se quiser os livros, é melhor comprar logo. Sempre que anuncio alguma promoção, me vem alguém chorar depois: "puxa, fui lá todo empolgado e já estava cinco vezes o preço que você anunciou..." Pois é, não sejam esse cara. Vão lá, comprem, e depois nunca digam que nunca fiz nada por vocês. E vão com Tolkien.
E obrigado ao Brandizzi, que me passou a dica. Aliás, se você, leitor amigo, encontrar outra promoção linda dessas dando sopa no Submarino, me avise e anuncio aqui.
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