(Antes leia Ensinar Literatura e Ensinando Livros e Filmes nas Minhas Aulas)
Muitos colegas evitam ensinar "livros difíceis", seja porque os alunos não vão acompanhar ou porque vão fugir do curso. Aí, acabam ensinando livros fáceis e curtos, e depois ainda dão provas cheias de perguntas objetivas - eufemismo pra decoreba.
(Aqui não existe a cultura da xerox. Os professores ralam pra dar apenas livros que estejam em catálogo e, como os alunos vão comprar mesmo o livro, a tendência é ler logo o livro todo. Até existe xerox, mas somente em casos excepcionais.)
Eu devo mesmo entender tudo errado, pois minha postura é oposta. Eu prefiro dar livros difíceis, estimular um certo caos intelectual misturado com debate fecundo nas aulas, e depois pedir um trabalho de tema aberto - que eu vou não apenas desenvolver com eles por algumas semanas, mas também corrigir com generosidade.
Ao invés de dar um livro fácil e exigir que saibam tudo sobre o livro, prefiro dar um livro difícil e exigir menos, pedir um ensaio de tema livre onde vou descobrir o que cada aluno tirou da obra e o que tem a me oferecer de volta.
O raciocínio é o seguinte: um professor de literatura justifica sua existência não apenas ajudando o aluno a estabelecer conexões que ele talvez não estabeleceria (tipo dar Tropa de Elite e Os Sertões na sequência) mas também guiando-o na leitura não apenas de livros que ele provavelmente não leria, como, mais importante, que se lesse, não conseguiria extrair dele tudo o que poderia (Os Sertões, de novo, é um excelente exemplo).
Em outras palavras, se eu fosse ensinar um curso universitário sobre Dostoievski, não daria nem O Jogador nem Crime e Castigo, que são razoavelmente fáceis, mas sentaria pacientemente com meus alunos para ajudá-los a enfrentar Os Irmãos Karamazovi. Ou Grande Sertão Veredas. Moby Dick. Ulysses. Em Busca do Tempo Perdido. Etc etc.
Nós, que ensinamos literatura, lemos tanto e por tanto tempo ao longo de nossas vidas que às vezes esquecemos que somos a exceção. Nesses formumários sobre quantidade de livros lidos por ano, o valor máximo em geral é "11 ou mais". Pra mim, onze livros é o que leio em um mês normal (em janeiro de 2010, foram 16); no mundo real lá fora, quem lê mais de 11 por ano já pode se considerar um leitor voraz. Para a maioria dos nossos alunos, a graduação universitária será o máximo da sua escolaridade e o período mais intenso de leituras de suas vidas. De um modo bem real, o que não lerem agora, provavelmente não vão ler mais. Ou talvez, se lerem, não aproveitem tanto.
A hora de botar esse povo pra ler é agora.
Posts similares:
Ensinar Literatura
Dar Aula de Literatura
Faça seu filho gostar de ler!*
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário