Minha vida é assim, deixa eu contar como foi meu dia de ontem. Virou meia-noite de quinta pra sexta e eu estava lendo A Crônica de El Rei Dom Pedro I, de Fernão Lopes, escrita entre 1440 e 1450, pra um grupo de estudos de literatura portuguesa que iria se encontrar aqui em casa às 17h. Para maior comodidade, baixei o arquivo em txt, converti e tava lendo no kindle. Fiquei lendo na varanda, fumando cachimbo, e com um labrador de 50kg no colo, me despedindo dele.
Fui dormir às cinco da manhã e acordei à uma da tarde, e comecei freneticamente a arrumar a casa. Lavei minhas roupas, toda minha roupa de cama e de banho, passei aspirador nas duas salas e na varanda, lavei o banheiro todo, fiquei de quatro pra esfregar o encardido da banheira. Comi uma cumbuca de chili de peru que fiz semana passada e ainda está na geladeira, a cada dia um pouco mais gostoso.
Enquanto limpava e lavava a casa, comecei a falar no MSN com uma menina que veio me procurar pelo blog e com quem venho tendo conversas deliciosas, muito interessantes e muito excitantes. Pra não quebrar o clima, não disse que estava conversando com ela e, entre uma frase e outra esfregando a banheira e pendurando roupa. Muito doméstico, né?
Finalmente, deu cinco horas, os membros dos grupo de estudos chegaram (menos a Camila, que estava chorando rios no aeroporto, se despedindo do namorado que voltou ao Brasil bem no vôo das cinco), eu não tinha nem tomado banho ainda, abri a porta pra eles todo sujo e suado, e pedi 10 minutinhos pra tomar uma chuveirada, sintam-se em casa, hein? Bem coisa de carioca. Me despedi da minha amiga no MSN com muita dor no coração.
Enquanto discutíamos literatura portuguesa do século XV, meu telefone não parou de tocar. Primeiro ligou uma senhora, negra, sessentona, gente boa, que já tinha vindo à minha casa no dia anterior, confirmando que queria mesmo meu labrador preto e que estava vindo buscá-lo. Depois, ligou Maria, que seria minha hóspede esse fim de semana, dizendo que seu vôo Austin-Nova Orleans tinha atrasado. Logo em seguida, ligou Rosa Maria, ex roommate, que sairia pra jantar conosco, perguntando da Maria e eu disse: o vôo atrasou.
Sobre literatura portuguesa: esse povo que reclama dos nomes dos romances russos, devia tentar ler uma História de Portugal. Todos os reis de Portugal, Castela, Aragão, etc, tem os mesmos nomes, repetidos infindavelmente, e você nunca tem certeza sobre quem está falando. Péra, esse Dom Pedro é o I de Portugal, o I do Brasil ou o I de Castela? Afonso VI é o de Aragão ou de Aragão é o Afonso IV? Bem, também tem um Afonso IV em Portugal, mas é de outra época.... Em suma, enlouquecedor.
Às sete, o povo do grupo de estudos começou a sair. Os livros da próxima reunião quem escolheu fui eu: vamos ler Auto da Barca do Inferno e Auto da Índia, de Gil Vicente.
Mal saíram e chegou Joyce. Na verdade, quem viu o meu anúncio no jornal foi a Jean, amiga da Joyce da igreja (não perguntei qual): como sabia que a Joyce estava procurando um cachorro pra lhe fazer companhia, Jean me ligou, marcou tudo, pegou a amiga em casa e trouxe pra cá. Joyce e meu labrador preto se amaram (ele é uma graça, ama todo mundo) e, pronto, acabou-se mais umaa história: em 15 de janeiro, uma noite fria e chuvosa, ele veio bater na minha porta. Cuidei dele como pude, passei unguento nas suas feridas, dei amor e carinho, botei anúncios em todos os cantos e, hoje, 26 de fevereiro, ele foi começar nova vida como companheiro inseparável da Joyce, que mora sozinha e precisa de amor canino. Tomara que sejam felizes. Vou visitá-los quando puder.
Mal saíram Joyce e Jean, eu fui correndo cagar (vocês repararam que não parei um só minuto!) e, óbvio, enquanto estava cagando, chegou a Maria, que foi recebida pelo Oliver e pelos outros roommates, e só fui conhecê-la por último.
Maria é irmã do Roberto, ex roommante, uma das pessoas que mais gosto nessa vida e autor das minhas melhores fotografias. Roberto cometeu suicídio em julho passado, eu só fui saber em dezembro, fiquei completamente destruído, corri atrás da família dele. Ele e a irmã eram melhores amigos e ele morava com ela quando se matou. Maria disse que queria muito vir a Nova Orleans, me conhecer, rever a Rosa Maria (que era a minha outra roommate, na época do Roberto), ver a casa, trocar histórias. Enfim, como diria a Camila, trabalhar o luto. E veio. Nunca tínhamos nos falado, mas Maria chegou hoje e vai passar o fim de semana comigo. Me deu um livro, com uma dedicatória fofa: "qualquer amigo do meu irmão é meu amigo".
(A história do Roberto me fez repensar o caso da Libeca. Na verdade, quem disse pra um suicida em potencial que ele tinha direito de se matar, mas que eu sentiria sua falta, fui eu. Falei isso. E falaria de nosso. Mas não para o Roberto. Eu lutaria por ele. Sei lá. Preciso trabalhar isso melhor. Entendo que ele tem o direito de se matar, mas ele também tem o direito de se alistar na marinha e eu tenho direito de lutar pra evitar que meus amigos façam burradas desse tipo.)
Enquanto eu ainda estava no banheiro, ligou a Rosa Maria, queria saber se a Maria já tinha chegado. Já, respondi. Ela veio nos buscar e passamos a noite toda batendo papo, comendo pizza, tomando vinho, rindo, trocando histórias nada a ver, e lembrando do Roberto. Não, ninguém chorou.
Finalmente, Rosa Maria foi embora, Maria foi pra sala escrever no seu laptop (ela é escritora) e eu, eu vim pra cá falar com vocês. Falar que essa minha vida é muito engraçada. São uma e meia da manhã, eu acordei faz umas doze horas, não parei um segundo, falei sacanagem na internet e esfreguei banheira, relembrei meu amigo morto e discuti literatura portuguesa medieval, arrumei uma casa pra um cachorro perdido e escrevi um post rápido, avoado, correndo, e apressado, que não reli e que vou postar.... agora.
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