(Antes, leia Ensinar Literatura)
Esse semestre, na minha aula de Introdução aos Estudos Brasileiros, meus alunos estão lendo Os Sertões, de Euclides, Casa Grande & Senzala, do Freyre, Verdade Tropical, do Caetano, e Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus (trechos), e também Dom Casmurro, de Machado de Assis, e A Hora da Estrela, da Clarice (inteiros). Além disso, também vamos assistir Tropa de Elite, Cidade de Deus, dois episódios de Cidade dos Homens, Edifício Master, Bye Bye Brasil e Amores Possíveis. E, para matar dois coelhos com uma só cajadada, enquanto estivermos lendo o livro do Caetano, vamos assistir à montagem do Zé Celso e do Teatro Oficina para Boca de Ouro, do Nelson Rodrigues, e também ouvir as músicas e ver as obras de artes plásticas mencionadas.
Reparem que essa não é uma aula de literatura, mas multidisciplinar, por isso a tentativa de mostrar vários trabalhos, de várias épocas, de vários gêneros, de vários campos do saber. Literatura, cinema, TV, teatro, música. O limite que me impus foi: nenhum trabalho estrangeiro (ou seja, mostrar como o Brasil se vê, e não uma visão externa do Brasil), e nenhum trabalho acadêmico (no sentido de escrito no ambiente universitário, ou seja, colocando o aluno em contato com a obra primária, não com um intelectual opinando ou analisando a obra.)
A aula é caótica, mas tudo bem, o Brasil também é. Muito pior é tentar explicar ou expor uma entidade caótica de modo mastigado e explicadinho - ou seja, ilusoriamente simples e falseado. Aos alunos ocasionalmente desesperados, eu dou o seguinte consolo: esse curso não tem prova, só trabalhos de tema livre. Ou seja, você somente será julgado nos temas que escolher abordar e terá todo o tempo que quiser para se preparar. A grande questão é: dentro desse caos que é o Brasil, sobre que temas ou áreas ou autores ou obras VOCÊ vai decidir se debruçar? De que modo VOCÊ vai se introduzir no caos que é o Brasil e dar sua contribuição?
Exemplos de dois trabalhos excelentes:
Cidade de Deus vs Slumdog Millionaire: Uma aluna comparou as críticas da comunidade da Cidade de Deus à equipe do filme, por terem usado e descartado a favela, ajudando pouco e ainda estigmatizando o lugar, com o trabalho social que a equipe de Slumdog Millionaire realizou na favela onde fizeram seu filme, inclusive criando um fundo universitário para muitos dos alunos mirins.
As diferenças entre o dialeto branco e o negro: Um aluno percebeu que, em um dos episódios de Cidade dos Homens onde os meninos da favela encontram meninos classe-média do asfalto, que eles falam mais ou menos a mesma língua, mesma gíria, mesma inflexão. E escreveu um trabalho interessantíssimom comparando isso à situação nos EUA, onde a comunidade negra faz às vezes um esforço consciente pra desenvolver uma linguagem própria, fazendo com que haja, muitas vezes, um verdadeiro fosso linguístico entre um menino negro da periferia e um menino branco classe-média alta da mesma idade.
(Minha única observação foi que esse talvez seja um fenômeno mais carioca do que brasileiro: já ouvi mais de um paulista comentar que todo carioca, até os mais pretensamente bem-educados, falam como se fossem traficantes do morro. Naturalmente, tirando o despeito e o exagero, com certeza o carioquês do morro e o do asfalto são muito mais próximos, digamos, do que o paulistanês da periferia e o da Vila Madalena.)
Agora leia: Ensinando os Livros Difíceis.
Posts similares:
Ensinar Literatura
Introdução aos Estudos Brasileiros
Twitadas (XI)
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário