Cada vez mais, aqui nos EUA, existe uma tendência a misturar cinema, música, TV, teatro, gibi, etc, nas aulas de literatura. Eu não tenho nada contra, exceto pela justificativa:
Temos que ter filmes para atrair os alunos! Se não, eles não se interessam!
Fico com a impressão de que os próprios professores de literatura acham que ninguém mais gosta de literatura. Que os alunos só vão fazer um curso de literatura, e ler os bons romances de determinada tradição, se forem subornados com músicas e filmes, espelhinhos e colares brilhantes. Que um curso sem meia dúzia de filmes na ementa ficará às moscas, coitadinho.
Eu não acho que a literatura está decadente, morta ou perto do fim. Eu não acho que a literatura tem que ser defendida, protegida ou privilegiada. Cruzes, longe de mim entrar em um discurso de defesa de qualquer coisa, "defesa da literatura", "defesa da língua portuguesa", afe.
Mas acho que a literatura tem que ser ensinada nos cursos de literatura, dados pelos departamentos de literatura. Se os próprios professores de literatura, do alto dos seus doutorados em literatura, acham que a literatura já não é o suficiente para atrair alunos aos cursos de literatura... então, fodeu.
Adoro o fato de que, pelo menos aqui nos EUA, os departamentos de literatura são suficientemente livres para dar cursos sobre música, cinema, teatro, histórias em quadrinhos, etc. Todos esses assuntos enriquecem nossa compreensão do mundo. Esse semestre, por exemplo, só na minha universidade, temos um curso sobre "Satire TV and the Public Sphere, com ênfase em programas de "notícias falsas", como Daily Show e Colbert Report, sendo oferecido pelo departamento de comunicação e ensinado, por acaso, por um excelente professor brasileiro. No departamento de inglês, um curso sobre Graphic Novel está lendo Watchmen, Maus, Fun Home, Sandman, Persepolis e outros. Minha amiga Annie está ensinando um curso sobre Dança Brasileira - semestre passado, ensinou outro sobre Imigração Brasileira nos EUA.
Eu mesmo, em todos os cursos que ensinei, sempre incluí pelo menos alguns filmes e já tenho um bom artigo acadêmico na cabeça sobre reproduções da Bad Girls/Femme Fatales nas histórias em quadrinhos mais recentes. Também sou totalmente a favor de atrair mais e mais alunos aos nossos cursos. Eu vendo meus cursos com a mesma obstinação de vendedor insistente com a qual empurro Mulher de Um Homem Só aqui pelo blog: não apenas faço pôsteres e espalho pela universidade, como também, no semestre anterior, visito cursos relacionados para vender o meu.
Mas incluo filmes nos meus cursos não por achar que os alunos não gostam mais de literatura. Oras, se ensino um curso eletivo de literatura em um departamento de literatura, ainda mais em um país onde é comum os alunos "visitarem" trocentos cursos na primeira semana para poderem escolher melhor, eu presumo que todos os alunos que escolheram ficar é porque gostam muito de literatura, sim senhor.

Dou filmes por vários motivos.
Em primeiro lugar, para os alunos terem uma referência visual das obras que estão lendo. Meus alunos vêm de outra cultura. Não sabem quase nada do Brasil. Se dou uma crônica de José de Alencar ou um romance de Machado de Assis, eles simplesmente não têm referência visual alguma dessa época ou lugar. O Rio de Janeiro do século XIX, pra eles, é uma lacuna completa. Então, passar Xangô de Baker Street, uma comédia leve sobre um personagem que eles conhecem, serve não apenas de referência visual e cultural, mas também de intervalo recreativo entre uma leitura e outra, oferecendo a eles um tempo vago para poderem escrever seus trabalhos ou ler o que ainda não leram.
Além disso, claro, os filmes são uma produção cultural autêntica e importantíssima, e estão sempre em diálogo com os livros. Esse semestre, vamos ler Verdade Tropical e assistir Bye Bye Brasil; Quarto de Despejo com Cidade de Deus e Cidade dos Homens; Os Sertões com Tropa de Elite. A própria seqüência dos filmes e livros no decorrer do curso já é suficiente para promover uma narrativa fecunda na cabeça dos alunos, estimulando a criação de novas conexões.
Mas, com certeza, eu não ensino filmes porque acho que preciso disso pra atrair alunos para as aulas de literatura, ou porque acho que ninguém faria aula de literatura sem filmes e música misturados no meio.
Não, não acho que professores de literatura tenham que defender a literatura. A literatura é muito maior que os departamentos de literatura: se todos sumissem de repente, Hamlet continuaria firme e forte no mesmo lugar.
O que acho, isso sim, é que professores de literatura têm que não só gostar genuinamente de literatura mas também presumir que existe um público de alunos que genuinamente gosta de literatura e que esses alunos vão se matricular nos cursos de literatura sem a necessidade de cenouras, filmes, enganações, malabarismo. E que muitos desses alunos, aliás, gostam tanto de literatura que vão se tornar professores de literatura como nós, mantendo vivo esse enorme esquema pirâmide que chamamos de Academia, amém.
Porque, sinceramente, se nós, que estudamos literatura e vivemos de literatura, presumirmos que ninguém mais quer saber de literatura (a não ser que venha junto com luzes e músicas e efeitos especiais), então é melhor fechar a loja e irmos estudar Odontologia como mamãe sempre quis.
Não sei vocês mas, pra mim, ser pago pra ler literatura, escrever sobre literatura e falar sobre literatura pra uma platéia cativa e voluntária que adora literatura é o melhor emprego do mundo. Tirando uma detalhes chatos, como dar nota e papelada de modo geral, isso tudo eu já fazia antes, de graça.
A literatura não precisa ser defendida, mas, egoisticamente falando, nossos empregos de professores de literatura talvez sim. E presumir que já não existe interesse pelo principal produto que estamos vendendo é dar um tiro no próprio pé.
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Na sequência:
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