Devo ser mesmo muito transparente. De vez em quando, me acusam:
"você só vem falar comigo quando quer alguma coisa."
E dá vontade de responder: sim, ué. Claro. Qual é o problema? Não somos amigos nem nada, não temos assunto. Tenho que fingir que sou seu amigo só porque quero alguma coisa de você? Ou senão o quê? Só podemos fazer favores pra amigos? Se o cara não for, ou se fingir de amigo, não rola?
Já salvei a vida de duas pessoas e nunca mais as vi. Imagina se tivéssemos que virar amiguinhos, ou sair pra almoçar toda semana - ou mesmo todo ano! Já não basta salvar o cara, agora tenho que aturá-lo pra sempre? Ninguém mais salvaria ninguém.
Eu não discrimino meus favores prestados. Posso dizer "não", se não der, ou dizer "sim" e pegar mais um crédito no banco kármico. Faço favores para amigos, porque os amo, e para inimigos, por despeito, para humilhá-los com minha generosidade.
O que me irrita mesmo são aqueles malas que ficam enrolando ("e aí?, como está?, tudo bem?, tudo..."), que te roubam horas e horas que não voltarão nunca mais ("e a família? sua sobrinha já está andando?"), que te obrigam a manter o pior tipo de conversa oca ("mas tá quente, hein?, caramba, será que esse verão não acaba nunca?!"), que ainda fingem interesse profundo na sua vida ("sua tese é sobre o que mesmo?, não, não, pode contar em detalhes!") quando você sabe que eles querem te pedir alguma coisa.
Devo ser mesmo um monstro, porque gosto é das pessoas que me procuram e falam logo o que querem, nem que queiram somente me explorar. O meu maior inimigo é quem me faz perder tempo.
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