Esse semestre, estou ensinando um curso chamado Introdução aos Estudos Brasileiros.
Como o curso supre o requisito curricular de "Cultura Não-Ocidental", na primeira aula colocamos em discussão o conceito de Ocidente. Afinal, o que é o Ocidente? Quem faz parte do Ocidente? Quem decide quem faz parte do Ocidente? De onde veio esse conceito? Ele ainda serve pra alguma coisa?
Pedi aos alunos pra escreverem num papel sua definição de Ocidente e uma lista de países ocidentais, depois trocamos os papéis. Foi bem interessante.
Muitos brasileiros não têm noção de que, na Europa e nos EUA, nosso país não é ocidental. Para alguns de meus alunos, nem mesmo a Espanha era ocidental: ocidente seriam apenas os países anglo-germânicos, da Alemanha à Austrália. Para a maioria dos alunos, por exemplo, Israel era parte do ocidente e o Brasil, não: apesar disso, a aluna israelense não se pensava ou se via como ocidental e a maioria dos brasileiros, eu inclusive, sim.
Uma leitora me perguntou no MSN:
mas então você vai ensinar pra eles que o Brasil faz parte do ocidente?
Tive que rir, né? Não existe uma definição certa de Ocidente. Cada um define como quer. Ninguém está errado nessa história. Muito mais interessante, é aprender que cada pessoa define o termo de maneira diferente, entender de onde ele surgiu e pensar se ele ainda serve pra alguma coisa.
Eu já fico satisfeito só por mostrar que as coisas nunca são tão simples quanto se pensa. Por exemplo, muito mais interessante do que saberem que outros países definem ocidente de forma diferente, foi os alunos se darem conta de que, mesmo entre eles, as diferenças eram enormes. Que uma palavra que usavam como se fosse auto-evidente no seu significado era, na verdade, entendida de formas radicalmente diferentes dentro do próprio grupo.
Ridículo seria eu dar uma aula "ensinando" aos meus alunos que somente porque eu, na minha cultura, cresci me achando ocidental, que então eu sou ocidental mesmo, de verdade, hein!, e que eles têm que ver assim também, por favor!! - como se eu fosse um loser implorando pra entrar no clubinho mais cool do bairro.
Eu sou ocidental porque minha língua nativa é ocidental, porque cresci lendo os grandes autores da tradição ocidental, porque vivo em um país onde grande das instituições e tradições é ocidental. Essa é minha auto-identidade. O fato de qualquer outra pessoa, de uma cultura diferente, com um ponto de referência diferente, não me considerar ocidental não afeta em nada minha auto-identidade, nem é justificativa para que eu embarque numa cruzada para convencê-los de que estão "errados".
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Comentários Comentados
Sim o Brasil faz parte do Ocidente. Eu considero ocidente as culturas que tem alta influência de Roma. Não sei como explicar, mas só aqui nos EUA percebi como indianos, chineses e coreanos são muito diferentes dos europeus e americanos. Não sou um estudioso da história como tu, mas acho que o grande grupo de civilizações que surgiram na Europa após a queda do Império Romano (e que foram muito influenciadas por ele) e se espalharam pelo mundo são o que hoje chamamos de Ocidente.
Vc pode até achar, mas grande parte dos americanos não acha que nem o Brasil nem o Mexico faz parte do West ou dos Western Countries... Por queserá isso?
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Se não nos consideram ocidentais, nos consideram o que? Achei muito esquisito!!!
Ou nos consideram Terceiro-Mundo (o que significa, na cabeça deles, não-ocidental) ou simplesmente não nos consideram nada, não pensam na gente nunca - do mesmo como nunca pensamos, sei lá, no Sri Lanka e na Indonésia.
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Eu sei que para os americanos, tudo o que não é europa e e eua e canadá não é ocidental. Mas, eles estão errados. Ocidental é a parte do mundo a oeste do centro do mundo na época de roma. a leste, está o oriente - índia, china, japão, egito, arabes, etc (grosso modo). Cultura ocidental é toda aquela influenciada/dominada pela cultura greco-romana. Não acho essas denominações ocidental/oriental adequadas ao mundo de hoje. Mas a história não muda de uma hora para outra, é um processo, então, ainda repetimos isso. Agora, isso tudo considerando o que acham os norte-americanos cultos, né? porque a maioria deles deve achar que western countries são "aqueles campos do oeste, onde antes existiam os indios e que nós fomos lá e destruimos eles e dominamos o lance".
A sua definição ser essa não quer dizer que a deles esteja errada, nem vice-versa. O "ocidente" é uma convenção, uma abstração cultural que cada um define como quer. Cada um dos meus alunos definia de maneira diferente. Nem mesmo entre eles havia um consenso. O importante é percebermos que um conceito que achamos normal e auto-evidente não é consensual nem mesmo entre um grupo pequeno e homogêneo como meus alunos.
Não é uma coisa de gente ignorante que não sabe a resposta certa (que é a nossa, claro!), mas algo que inclusive intelectuais e academicos acham, pensam e escrevem. Eu descobri que não éramos "Ocidente" lendo livros de história e estudos culturais muito antes de vir morar aqui.
O termo é comum e muito usado, aparece no noticiario o tempo todo: "Western countries send aid to Haiti", "BRIC countries may surpass West", etc, e não, ninguém pensa que se refere ao Velho Oeste.
O que acho engraçado é que a nossa arrogancia de definir Ocidente do nosso jeito e achar que essa é a resposta certa (e que todo mundo deveria achar o mesmo!) é EXATAMENTE igual a arrogancia deles, que fazem a mesmissima coisa.
o que a mídia norte americana chama de western countries é uma coisa. O conceito histórico é outra. Eu tô me referindo ao conceito historico que é "paises que foram influenciados ou dominados pela cultura grego-romana". Se a mídia norte-americana diz outra coisa e se os seus alunos não sabem o conceito histórico, posso fazer nada. Acho que falta pesquisa e leitura, só isso. pessoalmente, como disse, acho tudo isso muito ultrapassado. Minha reação ironica é sempre "ocidente de que ponto de vista" cara pálida?! kkkkkkk Não é questão de correto ou incorreto, é questão de conceito. E sobre o velho oeste, eu tenho certeza de que tem muito americano (talvez a maioria) que não entende quando a mídia diz western countries, justamente porque imagina o velho oeste!
Não estou falando só da cultura média das ruas. Mesmo em livros acadêmicos, de história, de literatura, de estudos culturais, europeus e norte-americanos definem "ocidente" e "paises ocidentais" assim. Pra eles, o conceito histórico é esse. Tanto em um livro de história escrito por acadêmico respeitavel ou na CNN, quando falam de "western countries" ou "the west" não estão falando na gente, pensando na gente, se referindo a gente.
Quando falam em West, estão falando dos países brancos e ricos, democracias liberais e capitalistas, alinhadas com os EUA. Para eles, a America Latina não é nem branca nem rica nem liberal nem democrática o suficiente pra ser West. Nao é que eles pensam: "vamos excluí-los do ocidente". É simplesmente que não pensam em nós quando pensam em Ocidente...
Se você acha isso ruim ou errado, é outra questão. Eu não tenho nada a ver com isso. Você pode ir reclamar com eles, não comigo.
E sim, eu também acho que a palavra e o conceito estão perdendo o sentido de ser.
tá bom...eu acho que eles não pensavem em nós (ai incluindo todos os países que não são eles kkkkk eua, canada e europa...quiça austrália, né?)e, a maioria, continua não pensando. Eles chamam de ocidental tudo o que é branco/desenvolvido e não incluem os países perífericos - até pouco tempo chamados de terceiro mundo - na lista de ocidentais porque simplesmente se acostumaram a fazer isso. Mas o conceito histórico permanece...sem querer ser chata e já sendo. e bom, acrescentando, que eu não acho nem bom nem ruim ser ocidental. Acho impreciso, no mundo contemporâneo. Conceitualmente, me sinto ocidental porque faço parte de uma cultura que foi altamente influenciada pela cultura grego-romana. Mas também me sinto outra coisa - que ainda estamos por definir - já que também fui altamente influenciada por outras culturas não grego-romanas. Por exemplo: eu como mandioca desde pequena, a farinha e o tuberculo (parece bobagem, mas só eu sei o que passei para conseguir explicar a um noruegues que diabos era mandioca kkkkkkk). Isso já me faz ser diferente "deles", não acha? Outro exemplo: eu conheço candomblé, sei bastante sobre os orixás e seus significados. Não porque resolvi estudar, mas porque fez parte da minha formação cultural - desde pequena ouço falar nisso, convivo com pessoas que conhecem. Esse é outro ponto que me diferencia "deles". Então: sou ocidental (embora "eles" não me incluam nessa), mas não me conformo muito com isso. Acho que sou outra coisa, bem mais complexa do que ocidental, assim como todos os brasileiros, argentinos, etc, etc. Do outro lado, podemos hoje classificar os chineses como orientais e colocar no mesmo "saco" dos iraquianos?
Você agora está criando uma falsa oposição Ocidente/Oriente, como se tudo que não fosse ocidente, fosse necessariamente oriente, e não é bem assim.
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Algumas Matérias Aleatórias pra Exemplificar
- O Que É o Ocidente Nesse Final de Século
- Climate summit "takes note" of accord
Latin American and African countries have sharply criticised the agreement, threatening to boycott it. They accuse Western countries, led by the United States, of betraying the United Nations. The European Union has endorsed the accord while expressing disappointment at its limitations.
- The West and the Rest are converging
Since 1990, Bangladesh, Egypt and Brazil have had an average annual rate of reduction in child mortality of 4.7 percent, 5.5 percent and 6.3 percent, respectively. This obviously represents a switch to a converging world, as the average annual rate of reduction of child mortality in Sweden was only 3.6 percent over the last century. Bangladesh is catching up to Sweden. In health and demography, the major countries in Asia, the Middle East and Latin America are progressing faster than the West ever did. The resulting population composition and health status enable these countries to grow their economies faster than the West ever had.
Cultural Policies of Non-Western Countries
Brazil (July 2006) Development policy based on stimulating creative thinking and on cultural networks is the key to success in the current era of globalisation. This policy philosophy, as exemplified by the Brazilian Minister of Culture, Gilberto Gil, determines both the national and international approach to culture in his country.
- Non-Western Countries - Public Sphere Guide
- Resenha do Livro "O Que É o Ocidente" de Phillipe Nemo, onde o autor francês explicitamente exclui a América Latina da sua idéia de Ocidente:
His immediate concern, when the book was first published in French in 2004, was the enlargement of the European Union eastward (now a fait accompli). This movement amounted, in his view, to a dilution of the Western character--Grecce being disregarded--of the former fifteen-nations club of the old continent by the inclusion of countries that have not passed fully or partially through one of the morphogenetic stages described earlier. This lack of passage is particularly the case for Romania and Bulgaria, two predominantly Orthodox countries that did not experience a Papal Revolution during the Middle Ages and, like the Catholic and Protestant countries in central and eastern Europe and Latin America, experienced a more or less incomplete "liberal-democratic revolution" in the nineteenth century. Moreover, the European Union's enlargement process now includes Turkey, a Muslim country, on its waiting list, which we may assume Nemo finds an even more worrisome development. He therefore proposes instead the creation of a Western Union, which would include all of the properly Western countries under his criteria: the Catholic and Protestant countries of western Europe, Canada, the United States, Australia, New Zealand, various European dependencies overseas, and maybe Israel, if it chooses a Western instead of a Zionist identity. This Western Union should be a confederacy, less centralized than the current European Union and with a more balanced North Atlantic Treaty Organization. Although this proposal expresses a "clash of civilizations" mentality a la Samuel Huntington, Nemo asserts that the Western Union should promote "the dialogue of cultures" in its political dealings with other cultures.
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Alguns Livros Interessantes
Orientalismo, de Edward Said, além de fascinante e delicioso, narra a maneira pela qual o Ocidente criou um Oriente mítico e misterioso em oposição a si mesmo. Ocidentalismo: O Ocidente aos Olhos de seus Inimigos é uma resposta bem-humorada ao livro de Said, mostrando também o modo como os países não-ocidentais criaram uma versão própria e fictícia do Ocidente que tanto odeiam.
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http://twitter.com/AlexCastroLLL
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