Gosto cada vez mais de dar aulas. Adoro especialmente criar o curso. Fazer uma ementa é como elaborar uma grande narrativa ou construir um argumento: primeiro, vou mostrar isso e depois aquilo; passar o filme X pra quebrar o efeito do livro Z; ler o texto A pra complementar o artigo B, e assim por diante.
Esse semestre, estou ensinando um curso chamado Introdução aos Estudos Brasileiros.
Como o curso supre o requisito curricular de "Cultura Não-Ocidental", na primeira aula colocamos em discussão o conceito de Ocidente. Afinal, o que é o Ocidente? Quem faz parte do Ocidente? Quem decide quem faz parte do Ocidente? De onde veio esse conceito? Ele ainda serve pra alguma coisa?
Para a segunda aula, lemos metade de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e assistimos um clipe do documentário Estamira. Carolina, negra, pobre, favelada, é um dos autores brasileiros mais traduzidos e estudados de todos os tempos - apesar de ninguém no Brasil a conhecer. Além de começarmos a falar de favelas, existem outras questões fundamentais: em primeiro lugar, sobre testimonio, um gênero literário no qual o diário de Carolina às vezes se enquadra às vezes não. Vamos trabalhar com algumas definições de testimonio e tentar entender de que maneiras Carolina se enquadra e não se enquadra nessa tradição hispano-americana.
Há também a questão do cânone. Devemos ler Carolina? Não seria melhor ler um clássico? Faz sentido deixar de ler Machado de Assis pra ler Carolina Maria de Jesus? Ou melhor, será preciso deixar de ler Machado pra ler Carolina? De que modo Carolina pode completar e ajudar na compreensão de Machado, e vice-versa? No Brasil, Carolina foi hostilizada, ridicularizada e, hoje, ignorada. Quase ninguém sabe quem ela é. No exterior, tanto em países comunistas quanto capitalistas, pelos mais variados motivos ideológicos, o diário é best-seller há 50 anos, lido e estudado em cursos de literatura, antropologia, história. Por que isso? Carolina tem valor ou não? O que é que os estrangeiros viram que os brasileiros ou não viram... ou não querem ver?
Em seguida, filme e televisão: Cidade de Deus, dois episódios de Cidade dos Homens ("A Coroa do Imperador", da primeira temporada, e "Tem que Ser Agora", da segunda), e Tropa de Elite.
Cidade de Deus quase todos os alunos já viram. De fato, pra muitos, toda a informação que têm do Brasil saiu desse filme. Por isso, é importante revê-lo com novos olhos e fazer o contraponto com o seriado Cidade dos Homens que é, em larga medida, o Anti-Cidade de Deus.
Já Tropa de Elite coloca em discussão muitas questões políticas interessantes que complementam Cidade de Deus: de quem é a culpa do tráfico? Do playboy que compra? Da polícia corrupta? Do bandido que vende? Faz sentido falar em culpa? E como o filme se posiciona em relação ao Capitão Nascimento? Será ele o Jack Bauer carioca que a direita celebrou? Será o filme a tragédia do policial que, apesar de incorruptivel e bem-treinado, ainda assim mata barbaramente e, no fim das contas, não resolve nada? Ou seja, Nascimento é o herói ou o anti-herói?
Então, depois de vermos a polícia militar subir o morro e executar sem julgamento todos aqueles bárbaros marrozinhos que estão ameaçando a vida ordeira dos cidadãos de bem do Leblon, mudaremos completamente de assunto e começaremos a ler Os Sertões, de Euclides da Cunha.
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