Elogio a Dom João

Vale a pena lembrar que, a despeito do filme ridículo da Carla Camurati, Dom João é certamente um dos grandes Chefes de Estado e de Governo que o Brasil já teve. Transferir a Corte para o Rio de Janeiro, longe de ser a fuga de um poltrão, foi uma estratégia brilhante e ousada. Poucos de nossos líderes amaram tanto o Brasil: só saiu daqui obrigado. Conquistou a Guiana Francesa e o Uruguai. Em meros 12 anos, entre 1808 e 1820, transformou o Brasil em uma nação moderna: em nenhum outro período de nossa história, houve um salto tão exponencial em tão pouco tempo. Concedeu-nos sem derramamento de sangue o que quase todas as nações guerreiam pra conseguir. Nunca foi nosso inimigo: quando Portugal esteve em guerra com o Brasil, entre 1822 e 1823, ele era rei mas já não mandava nada.

Crônica de Dom João VI D. João VI no Brasil

Por fim, em 1815, no mesmo ano em que inventa o Brasil, quando senta-se na mesa do Congresso de Viena para redesenhar o mapa da Europa, Dom João era o único sobrevivente de uma Era que já então parecia antiquíssima. Depois do vergalhão napoleônico, o gordinho poltrão comedor de frango era representante da única dinastia continental pré-napoleônica que ainda estava no poder. De todas as dinastias, reis e impérios existentes no começo do século, só restara ele, líder inconteste de um Reino onde o sol nunca se punha, com presença em todos os continentes, do Brasil a Goa, do Timor a Angola, de Macau à Guiana Francesa, do Algarve a Moçambique. Apesar de seu status periférico dentro da Europa, mais de um Rei deve ter lhe olhado com admiração e inveja, pensando: qual será o segredo desse filha da puta?

Movimento da Independência 1821-1892 7 de Setembro de 1822: a Independência do Brasil

Tudo isso para que, 200 anos depois, seja lembrado como um poltrão idiota só porque ele comia frango e se lambuzava.
D. João VI: Um Príncipe Entre Dois Continentes

 

14.01.10


Categorias: Política, Rio de Janeiro


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Comentários:


Comentário de: Sblargh · http://sblargh.blogspot.com

Acho que é a primeira vez desde... sei lá, acho que desde sempre que eu vejo qualquer pessoa falando qualquer coisa sobre qualquer figura histórica brasileira que não seja pra dizer que é um idiota desonesto que fez as coisas só por malandragem.

Eu sou da geração que teve aulas de história com quem teve aulas de história na ditadura e, pra essa gente, elogiar figuras históricas como você fez agora é propaganda de fascismo... eu acho. Sei lá porque todos meus professores de história sempre odiaram tanto os líderes brasileiros, mas eu vou deduzir que é isso.

PermalinkPermalink 14.01.10 @ 10:49



Comentário de: outro Edson

Pô, achei que houve uma forçada de mão aqui. O "só saiu daqui obrigado" não diz muita coisa e também pode ser aplicado a D. Pedro II e até ao Getúlio (se bem que Getúlio saiu para um lugar menos interessante que a Europa), entre outros. Sem falar que ele também só veio ao Brasil obrigado, n'é não?

Transformou países periféricos em província? Tipo, subcolonialismo? E isso foi bom?

A estratégia de fugir correndo ao Brasil, de fato, foi esperta. Mas isso só torna Napoleão o grande responsável pelos avanços brasileiros. Não quero nem pensar que tipo de país seríamos se não tivesse existido o baixinho corso. E, convenhamos, a transformação ocorrida no Brasil naquele período se deve mais ao patamar baixíssimo em que o país era mantido na marra até então. Pô, não se podia ter um tear aqui. Não se podia ter um prelo aqui. Moleza modernizar uma joça dessa.

O fato de ele ser rei sem poder em Portugal durante a "guerra" de independência também fala mais contra ele do que a favor.

PermalinkPermalink 14.01.10 @ 11:27



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Eu gosto de história do Brasil.

Obrigada Alex.

PermalinkPermalink 14.01.10 @ 13:47



Comentário de: FlaviaQ

Gostei desse ponto de vista.

Não é uma critica, mas eu ri quando vi que você (que estuda sobre escravos) escreveu sem "derramento de sangue".

É óbvio que eu entendi perfeitamente o que você queria dizer, só achei engraçado ter essa frase nesse contexto.

Beijos

PermalinkPermalink 14.01.10 @ 18:10



Comentário de: Henrique Cartaxo

Eu já comi frango daquele jeito, é muito divertido...

Não sei se já bebi tanto quanto o Lula alguma vez na vida.

PermalinkPermalink 14.01.10 @ 23:24



Comentário de: Glauber

Edson, transformar os outros em colônia é melhor que ser transformado, nesse ponto de vista, até que não foi ruim

E dizem que o Napoleão escreveu em seu diário que Dom João VI "foi o único que me enganou"

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 01:44



Comentário de: outro Edson

"Edson, transformar os outros em colônia é melhor que ser transformado..."

Ah, é? Você quer dizer: "submeter o Uruguay é melhor que ser submetido pelo Uruguay"? A não ser que você tenha a Copa de 50 em mente, não acho que isso faça sentido.

Talvez você esteja simplesmente falando genericamente de um conceito totalmente abstrato e, nesse caso, eu prezo outros conceitos abstratos como, por exemplo, "autodeterminação dos povos".

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 12:17



Comentário de: JCCyC · http://rsnda.blogspot.com

Eu li "1808" ano retrasado. Em retrospecto, esse livro também entrou na onda do "D. João VI Era Um Banana", embora menos, porque mais conectado à realidade.

Para uma pessoa que gosta de ler livros de História que trazem fatos verdadeiros, análises que fazem sentido, e que são leitura divertida, o que você aconselha sobre esse período?

Alex, já pensou em escrever um livro de história voltado ao grande público? Não necessáriamente sobre o RUdePBeA, talvez sobre a Regência e Maioridade de DPII?

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 15:35



Comentário de: JCCyC · http://rsnda.blogspot.com

A propósito, como é que um post sobre X-Men entra nos "Posts Similares"? D. João era tataratataravô do Mancha Solar?

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 15:42



Comentário de: Marcio E. Goncalves

A conquista da Cisplatina/Uruguay era algo bem mais complicado do que o Imperio Portugues (e depois o Braisleiro) tentando dar uma de "sub-imperialista" na epoca.

O fato eh que o Brasil precisava ter a navegacao do Prata livre, caso contrario nao havia jeito de chegar a grande parte do territorio nacional. Na epoca nao haviam muitas estradas e tudo mais e o jeito mais facil e economicamente viavel de se chegar alugares como o Mato Grosso era atraves do Prata (sim, mesmo saindo do Rio).

Deixar o Uruguay se unir a COnfederacao Argentina (como quase ocorreu) era o mesmo que abrir mao de metade do territorio nacional.

Essa situacao tensa se manteve por todo o seculo 19. O Brasil sempre se meteu na politica interna do Uruguai, mesmo depois da independencia do dito, por essa questao delicada do Prata.

(A Guerra do Paraguai eh decorrente dessa situacoa tensa, nao por manipulacoes malvadas inglesas)

E tambem tem um lance quase filosofico - os portugueses, e depois os brasileiros, tinham um conceito de fronteiras naturais (comparem o mapa organico do Brasil com o mapa quadradao dos EUA).

Entao o Uruguay nao ser brasileiro era uma "falha" nesse conceito, um buraco nas fronteiras naturais do pais.


PermalinkPermalink 15.01.10 @ 15:49



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

14.01.10 @ 11:27 (outro Edson)
[2]

Alex,
"mais de um Rei deve ter lhe olhado com admiração e inveja, pensando: qual será o segredo desse filha da puta?"

O segredo é q oeste a Zoropa acaba em Portugal.

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 16:46



Comentário de: Amora

O blog é seu e aqui você fala o que quiser.
Mas eu me coço de curiosidade de ver você
falando sobre o Haiti. Dá pra ser?

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 17:13



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

O Haiti só tinha pobres e gangster,com o terremoto perdeu tudo.Mas o Brasil e os USA iram ajudá-los.O Brasil com pobres e os USA com gangster.


Quantos haitianos são necessários para trocar uma lâmpada no Haiti?
Nenhum,
Não há haitianos e nem lâmpadas do Haiti.

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 19:50



Comentário de: HUME

Indy,

O que você disse aí é para fazer rir ou está em treinamento para participar do Campeonato Regional de Palermas?

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 21:56



Comentário de: Ulisses Adirt · http://incautosdoontem.opsblog.org/

Aproveite, Alex, mais um textinho sobre injustiças históricas: http://incautosdoontem.opsblog.org/2009/08/12/papagaio-come-o-milho-e-periquito-leva-a-fama/

:-)

PermalinkPermalink 16.01.10 @ 00:19



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Estou em treinamento r´ss

Mas é engraçado né,humor negro rsrsrs´ss.Mesmo porque nao tem haitiano branco.

PermalinkPermalink 16.01.10 @ 16:32



Comentário de: rayssa · http://presencadapeste.blogspot.com/

a gente nota o quanto D joao VI foi fudido comparando o estado de portugal (e depois o brasil) e o da espanha durante todo o seculo XIX.antes do primeiro reinado , nos ainda podiamos traficar escravos e nao tinhamos a inglaterra na nossa cola por causa disso. a corte estava de boa aqui enquanto napoleao tocava o terror na europa, o imperio luso estava praticamente intacto. agora olha pra espanha: foi arrasada por napoleao e comecou a perder as colonias, ai, assim q bounaparte sai do jogo, ela pede dinheiro pra inglaterra pra financiar a guerra contra as independencias que ainda estavam rolando e o q os ingleses pedem em troca? comprometimento de acabar com o trafico em 4 anos!! resultado: perdeu tudo, menos cuba. e fica o resto do seculo inteiro traficando e fugindo da inglaterra pra manter a fiel ilha. ai ela perde cuba e ate hj os espanhois falam pra alguem q acabou de perder alguma coisa valiosa que "mais se perdeu em cuba". dom joao VI,meliga. fernando VII, perdeuplayboy.

PermalinkPermalink 16.01.10 @ 18:14



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