O Paraíso É Bem Bacana, de André Sant'Anna

 Paraíso é Bem BacanaResolvi ler por recomendação do Lucas Murtinho e do Xerxenesky. Não me arrependi. De fato, é um grande livro. Dos poucos livros ambiciosos escritos no Brasil ultimamente. 450 páginas. Multifacetado, duro, polifônico, empático.

É a história de Mané, preto, pobre e burro, virgem punheteiro, craque no futebol. Graças ao esporte, Mané sai de Ubatuba, vai jogar na Alemanha, se converte ao Islamismo e se martiriza - tudo para conseguir as prometidas 72 virgens no paraíso. Mané, coitado, é quase um bicho: patologicamente tímido, pouco instruído, incapaz de apreender a complexidade do mundo a sua volta, ele se deixa arrastar pela correnteza de sua própria vida.

Além de participarmos dos delírios sexuais de Mané (semi-vivo e mutilado em uma cama de hospital), ouvimos também as vozes de seus amigos de escola, da sua mãe, da sua psicóloga, dos seus colegas de time, do paciente na cama ao lado, da enfermeira, da polícia que investiga o atentado: basicamente, de todos que cruzam sua história. O martírio de Mané ainda nos parece estranhamente contemporâneo: assim como o terrorista nigeriano do dia de natal, Mané também coloca a bomba dentro da cueca - explode, não morre, mas fica sem pau.

O personagem de Mané, em especial sua voz, é pintado ao mesmo tempo com sutileza e empatia, mas também com brutalidade e enfado. Eu faria apenas uma crítica: não são necessários tantos apartes de Mané narrando todas as mulheres que está comendo durante seus delírios paradisíacos. O leitor quer avançar na história, saber o que vai acontecer com ele, como foi que acabou virando homem-bomba, e não ler mais dez páginas de pirações masturbatórias. Quando virei a página cem, comecei a pular as partes narradas por ele e só voltei a lê-las perto do final do livro, quando Mané começa a descrever o processo que o levou ao auto-martírio. O Paraíso É Bem Bacana termina com 21 páginas de um mollybloonesco monólogo alucinante e alucinado de Mané, no qual ele, pela primeira vez no livro e em sua vida, começa finalmente a.... entender! E a rir.

O Brasil do racismo, das mulatas, do esporte como única possibilidade de ascensão social, das pequenas maldades cotidianas, da homofobia, está todo aí.

* * *

Dois trechos, tirados da excelente resenha do Antonio Marcos Pereira:

É porque é tudo mocréia. Se elas conhecesse o negão aqui, elas largava esses véu e essas roupa preta e ia fazer fila pra dar uma bimbada. No fundo eles, os turco todo, só quer saber de sacanagem. Aqueles folheto do Mané era cheio de sacanagem. Os cara ia ganhar não sei quantas esposa quando morresse, tudi virgem, tudo cabaço. Na rua, eles fica fazendo pose pose de sério, as mulher tudo fingindo que é santa. Mas, embaixo daquela roupa, deve tá tudo com as buceta se derretendo.

Era para o Mané ter uma noite e tanto. Era para o Mané se deitar e ficar pensando em tudo aquilo que estava acontecendo na vida dele, do Mané. Era para o Mané fazer planos, sonhar com um futuro glorioso, ele, o Mané, lá, na Europa, cercado de mulheres lindíssimas, louras, européias, cheio de dinheiro, morando numa mansão, ... conquistando títulos internacionais, vencendo a Copa do Mundo, entrando para a história do futebol mundial, entrando para a história. Era para o Mané até ter uma insônia saudável, uma insônia feliz, uma insônia realizada.

Mas não. ...

O Mané, prestes a entrar num futuro grandioso, estava com medo de perder um almoço – um bife, um ovo frito, uma fatia de queijo derretido, duas folhas de alface, um tomate, um bocado de maionese, uma garrafa tamanho médio de guaraná.

 Paraíso é Bem Bacana

 

13.01.10


Categorias: Livros


Posts similares:
Sexta Sub: Aquário derretido
Lucas Murtinho e "Mulher de Um Homem Só"
45% dos brasileiros não querem saber de ler

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

O Brasil do racismo, das mulatas, do esporte como única possibilidade de ascensão social, das pequenas maldades cotidianas, da homofobia, está todo aí.

esporte como única possibilidade de ascensão social...

Mas há muitas possibilidades de ascensão social, Alex, só que há poucas possibilidades de enriquecer, para brancos e negros. Sim, é mais dificil para negros, mas não é tanto assim, não. É difícil para os dois.

Agora, o que me ocorre é o radicalismo dessa maneira de raciocinar: então se o cara não pode ficar milionário não há ascensão social nenhuma? Ir da classe pobre para a classe "mérdia" não quer dizer nada? Tá, eu sei que você não gosta muito da classe "merdia" (ainda que não entenda muito bem porque, afinal a classe "mérdia" nunca te fez nada), mas os pobres gostam dela. Gostam muito. Querem fazer parte dela, sabe?

E eles acham isso ascensão social.

E é até mais fácil chegar lá trabalhando, estudando e tendo paciência que pelo futebol. No futebol, ou você é craque e faz um grande contrato ou você é um pé-rapado que ganha um salário mínimo e tem que ter outro emprego para se sustentar. 90% dos jogadores "profissionais" estão nesse caso.

Como uma coisa leva a outra, esse foi o caso do americano Jim thorpe, o grande campeão olímpico de origem índia. Ele tinha jogado como semi-profissional algumas partidas de beisibol, em troca de algumas refeições e passagens de onibus. Por isso, ele perdeu suas medalhas de ouro. Esse foi o pretexto. O verdadeiro motivo é que, nos vintage, não se admitia que um índio fedorento derrotasse os aristocratas brancos no glorioso esporte amador.

E, já que você resolveu falar em homofobia, talvez você deva saber que os negros são mais homofóbicos que os brancos. E as cotas raciais aumentarão os casos de homofobia nas universidade pública. Pode ter certeza disso.

PermalinkPermalink 13.01.10 @ 15:57



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

Mas pela resenha, talvez eu até compre o livro. Alias, eu já teria comprado seu livro, Alex, se não fosse minha falta de grana. Mas se não comprar agora, com certeza comprarei quando tiver o kindle ou algo parecido, daqui a alguns anos. Eu não sou esquerdista, Alex, não tenho família que me sustente o vício da leitura.

PermalinkPermalink 13.01.10 @ 16:01



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

Mas eu sou a favor das cotas nas universidades públicas. As cotas raciais irão desmoralizar a universidade pública. E para o Brasil começa a dar certo é preciso acabar com a universidade pública. A universidade pública é a saúva moderna: ou o Brasíl acaba com a universidade pública ou a universidade pública acaba com o Brasil. Temos que acabar com essas saúvas. E as cotas raciais serão nosso tamanduá! Vamos defender as cotas, Alex, eu te apoio nessa!

Por que acho isso? Ah, eu já expliquei porque aqui: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/09/o_povo_quer_saber_1

PermalinkPermalink 13.01.10 @ 16:02



Comentário de: Alex Castro Email

"Eu não sou esquerdista, Alex, não tenho família que me sustente o vício da leitura. "

nem eu. quem sustenta meu vicio é a universidade!

PermalinkPermalink 13.01.10 @ 16:03



Comentário de: Fê França · http://www.fernandafranca.com.br/blog

Já me metendo no assunto: quem sempre sustentou meu vício foi a biblioteca. Depois eu mesma passei a comprar os livros.
Beijos.

PermalinkPermalink 17.01.10 @ 03:48



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: As Peças e o Trânsito (Drops de Teatro, 5)

Próximo post: Elogio a Dom João

um blog sobre literatura, empatia e desapego

sobre mim

contato, bio, fotos, livros, compre

Busca

    Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site