Resolvi ler por recomendação do Lucas Murtinho e do Xerxenesky. Não me arrependi. De fato, é um grande livro. Dos poucos livros ambiciosos escritos no Brasil ultimamente. 450 páginas. Multifacetado, duro, polifônico, empático.
É a história de Mané, preto, pobre e burro, virgem punheteiro, craque no futebol. Graças ao esporte, Mané sai de Ubatuba, vai jogar na Alemanha, se converte ao Islamismo e se martiriza - tudo para conseguir as prometidas 72 virgens no paraíso. Mané, coitado, é quase um bicho: patologicamente tímido, pouco instruído, incapaz de apreender a complexidade do mundo a sua volta, ele se deixa arrastar pela correnteza de sua própria vida.
Além de participarmos dos delírios sexuais de Mané (semi-vivo e mutilado em uma cama de hospital), ouvimos também as vozes de seus amigos de escola, da sua mãe, da sua psicóloga, dos seus colegas de time, do paciente na cama ao lado, da enfermeira, da polícia que investiga o atentado: basicamente, de todos que cruzam sua história. O martírio de Mané ainda nos parece estranhamente contemporâneo: assim como o terrorista nigeriano do dia de natal, Mané também coloca a bomba dentro da cueca - explode, não morre, mas fica sem pau.
O personagem de Mané, em especial sua voz, é pintado ao mesmo tempo com sutileza e empatia, mas também com brutalidade e enfado. Eu faria apenas uma crítica: não são necessários tantos apartes de Mané narrando todas as mulheres que está comendo durante seus delírios paradisíacos. O leitor quer avançar na história, saber o que vai acontecer com ele, como foi que acabou virando homem-bomba, e não ler mais dez páginas de pirações masturbatórias. Quando virei a página cem, comecei a pular as partes narradas por ele e só voltei a lê-las perto do final do livro, quando Mané começa a descrever o processo que o levou ao auto-martírio. O Paraíso É Bem Bacana termina com 21 páginas de um mollybloonesco monólogo alucinante e alucinado de Mané, no qual ele, pela primeira vez no livro e em sua vida, começa finalmente a.... entender! E a rir.
O Brasil do racismo, das mulatas, do esporte como única possibilidade de ascensão social, das pequenas maldades cotidianas, da homofobia, está todo aí.
* * *
Dois trechos, tirados da excelente resenha do Antonio Marcos Pereira:
É porque é tudo mocréia. Se elas conhecesse o negão aqui, elas largava esses véu e essas roupa preta e ia fazer fila pra dar uma bimbada. No fundo eles, os turco todo, só quer saber de sacanagem. Aqueles folheto do Mané era cheio de sacanagem. Os cara ia ganhar não sei quantas esposa quando morresse, tudi virgem, tudo cabaço. Na rua, eles fica fazendo pose pose de sério, as mulher tudo fingindo que é santa. Mas, embaixo daquela roupa, deve tá tudo com as buceta se derretendo.
Era para o Mané ter uma noite e tanto. Era para o Mané se deitar e ficar pensando em tudo aquilo que estava acontecendo na vida dele, do Mané. Era para o Mané fazer planos, sonhar com um futuro glorioso, ele, o Mané, lá, na Europa, cercado de mulheres lindíssimas, louras, européias, cheio de dinheiro, morando numa mansão, ... conquistando títulos internacionais, vencendo a Copa do Mundo, entrando para a história do futebol mundial, entrando para a história. Era para o Mané até ter uma insônia saudável, uma insônia feliz, uma insônia realizada.
Mas não. ...
O Mané, prestes a entrar num futuro grandioso, estava com medo de perder um almoço – um bife, um ovo frito, uma fatia de queijo derretido, duas folhas de alface, um tomate, um bocado de maionese, uma garrafa tamanho médio de guaraná.
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