Reclamar do roteiro não-existente de Avatar (como se cinema se resumisse a roteiro!) é como ir em um restaurante famoso por sua pizza, onde fazem a massa com um método único e complicadíssimo, e sair reclamando que o restaurante é uma merda porque o chope estava quente. Chego a achar mesquinharia ver o cara pagando um dobrado pra fazer a melhor pizza do mundo... e menosprezar o resultado porque, sei lá, o guardanapo tinha uma mancha.
Avatar é um filmaço porque é uma puta experiência cinematográfico, é lindo, é amplo, é emocionante, é visualmente espetacular. Sim, o roteiro é um lixo. Clichê em cima de clichê. A história mais velha, mais racista, mais preconceituosa, mais paternalista, mais condescendente do mundo. O sonho escapista de todo branquinho que se acha bonzinho, mas que, na verdade, é tão ruim quanto os piores. Avatar é somente mais um espécime em uma longa lista que inclui Pocahontas, Tarzan, O Fantasma, Dança com Lobos, etc etc.
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A premissa básica desse gênero é a seguinte:
Branco avançadinho, sensível e gente boa se mete no meio de primitivos não-civilizados e rapidamente se afeiçoa pelos bichinhos. Comprovando a superioridade e adaptabilidade natural da raça superior, em pouquíssimo tempo ele já aprende todos os costumes dos nativos e torna-se ainda melhor que eles no seu próprio estilo de vida, ao ponto de tornar-se o líder e defendê-los dos outros brancos malvados.
Entenderam o supremo paternalismo? Os nativos passaram a vida inteira ali, desenvolvendo aquelas habilidades, caçando, pescando, whatever, o cara chega, acha bonitinho ("poxa, que legal isso que vocês fazem!") e, em três meses, já está melhor que eles em TUDO que passaram a vida inteira se aperfeiçoando pra fazer! Imagine se você fosse um Nobel de Física e aparecesse um carinha que nunca viu Física na vida, achasse legal, começasse a estudar do seu lado e, em três meses, já estivesse melhor que você, provando todas as falhas da sua fórmula e ainda ganhando três Prêmios Nobel?
Provavelmente, muitos autores desse gênero se consideram sinceros anti-racistas e nem percebem a enorme condescendência de suas histórias. Os heróis brancos são tão fodas que são fodas até quando rejeitam seus próprios valores. Eles são tão mas tão fodas que o único jeito dos nativos derrotá-los é sendo liderados por um deles. A superioridade inata e total do branco é sempre inquestionável.
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Acho que o único modo de vocês entenderem a suprema babaquice desse tipo de enredo é apresentar a versão inversa dele. Poderia ser com humanos em Pandora ou brancos na África, mas, usando índios na Europa, eis como seria o roteiro do MEU filme:
Peri, índio americano nascido às margens do Rio Paquequer, atravessa o Atlântico numa jangada improvisada e desembarca na França. Imediatamente, ele fica apaixonado e fascinado por aquele mundo, pelas roupas, pelos perfumes, pelas pinturas, pela arquitetura.
Em uma ruela, ele vê uma moça sendo atacada por bandidos e, mesmo sem saber o que acontecia, ele a defende - como um bom herói. Naturalmente, ficam amigos e começam a passear juntos pela cidade: ela vai lhe explicando como funcionam as coisas e ele vai rapidamente aprendendo as línguas e os costumes. De repente, ela é encontrada pela guarda do palácio real: era uma princesa, que às vezes fugia de sua vida chata para andar entre os plebeus. Peri, seu herói, também é levado para o palácio, como convidado de honra.
Passam-se alguns meses. Peri já domina o francês e aprendeu todas as intrigas da corte melhor do que qualquer cortesão puxa-saco. Nas reuniões com o Rei, graças a seus sábios conselhos, ele logo torna-se ministro de confiança, andando pra cima e pra baixo de botinhas de salto alto, puffy shirt e peruca branca.
Então, estoura uma guerra. Peri nem entende bem o motivo, alguma dessas coisas fúteis que parecem tão importantes aos primitivos, como se uma mulher virgem que deu a luz (!) era santa ou não, mas, enfim, sua lealdade agora é com seu país de adoção e ele vai à guerra. Além de trazer para o campo de batalha sua sabedoria guerreira tupi, como guerra de emboscadas, Peri também domina as modalidades guerreiras dos brancos - torna-se campeão de esgrima. Saudável, forte, instintivo, inteligente, adaptável, Peri rapidamente galga os degraus do oficialato.
Na batalha decisiva, o general morre na sua frente e Peri assume o comando dos exércitos aliados, conseguindo uma vitória decisiva contra os protestantes! Durante a cerimônia de rendição, Peri fala para todos os combatentes e faz com que vejam os seus erros, que era besteira se matar por tão pouco, que deveriam abraçar a natureza, blá blá, e em pouco tempo, todos os países da Europa já tinham abandonado o cristianismo criador de caso e abraçado a religião eco-animista de Peri.
Mais tarde, quando vai se aproximando a data do casamento da Princesa da França com seu prometido, o Austro-Duque Franco-Siciliano, ela confessa ao pai que era Peri que amava. O velho rei, claro, não gosta, mas Peri tinha salvo o reino, era Marechal da França, essas coisas de raça não pareciam mais tão importantes assim, olha a ficha-corrida do moço!
O filme termina logo após a morte do Rei, com a coroação de Peri, já casado com a Princesa, como Rei-Cacique da França (agora Nova Tupilândia), o mais poderoso reino da Europa pagã anímica.
Olha, acho que vai ser sucesso de bilheteria.
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Dois artigos interessantes com uma perspectiva diferente sobre Avatar:
When Will White People Stop Making Movies Like "Avatar"?
The AVATAR Movie from a Haitian Perspective
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http://twitter.com/AlexCastroLLL
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Não fui convidado pra pré-estréia. Não ganhei boné de brinde. Ninguém tentou me comprar. Uma tristeza isso.
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