Há muito tempo atrás, antes de existir o LLL, na época dos dinossauros e das máquinas de fax, o Polzonoff já blogava. O pobre Paulo exercia seu direito básico humano: ele lia livros e, depois, dava sua opinião sincera sobre eles. E, por isso, era rotineiramente linchado. Quem lê o Polzonoff desde aquela época sabe como ele sofria com essas pancadas, os dramas pessoais, as decisões de largar a crítica e de largar a internet, as recaídas, as novas recaídas, o horror!, o horror!, etc. Acompanhei tudo com muito interesse pois sabia que poderia facilmente estar no lugar dele.
A lição que tirei dos linchamentos contínuos que sofreu Paulo Polzonoff é que não dá pra falar de Franz Kafka como se fala de Daniel Galera. Não porque um é intrinsicamente melhor que outro, mas porque um vai ler a sua crítica e o outro, não. O Polzonoff estava simplesmente exercendo seu direito, e exercendo muito bem, de opinar sobre o que bem entendesse mas, ao mesmo tempo, tinha um autor de carne e osso sofrendo do outro lado. Na verdade, a lição que tirei foi que mesmo as besteiras que escrevemos em blogs têm consequências concretas.
Além disso, existe a questão da cortesia profissional mínima: eu não sou nem quero ser crítico literário, sou romancista e escritor. Não faz sentido me desgastar à toa, criar inimizades em troca de nada, com os meus colegas de ofício, com os pobres-coitados que dividem comigo a mesma trincheira, que também estão arriscando a vida e a prosperidade em nome de uma literatura quase sempre ingrata.
Então, decidi, desde os primórdios do LLL, que jamais criticaria um autor vivo - especialmente se fosse iniciante ou local. Criticar o Houellebecq é diferente de criticar a Carola Saavedra: o Houellebecq está bem vivo, mas nunca vai me ler; a Carola talvez.
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Em meados de 2009, ao escrever sobre teatro, percebi que tinha incorrido no mesmo erro que evitei em 2003. Estava metendo o malho em uma série de peças como se elas tivessem sido encenadas em um vácuo, como se os membros da equipe não fossem aparecer aqui, ler minhas palavras e se magoar de verdade.
No meu post sobre a peça Apocalipse, de Domingos de Oliveira, um ator da peça comentou:
"O problema da internet é que qualquer pessoa escreve qualquer barbaridade e publica."
E fui obrigado a responder:
"Puxa, e eu que achei que essa era justamente a grande vantagem da internet!"
Sim, é uma crítica meio primária, mas a moral da história é que não quero essa energia negativa em cima de mim.
Em 2008 e 2009, abri conscientemente duas exceções em minha promessa, para participar como jurado da Copa de Literatura Brasileira, tanto porque apóio o projeto quanto porque gosto do organizador, Lucas Murtinho - que ainda vai ser um dos grandes editores e agitadores da nossa literatura. Ganhar quatro livros de graça também pesou.
Mas, de fato, como tantos disseram nos comentários das minhas pessimamente-recebidas resenhas, não sou crítico nem quero ser. Quero escrever romances, não escrever sobre romances.
Ser detonado pela minha ficção, tudo bem. Ser detonado pelas minhas opiniões políticas, faz parte de ser um cidadão ativo em uma arena democrática - embora vou tentar suprimi-las publicamente, para não causar interferência na minha literatura.
(Massacraram meu livro sobre Cuba no Orkut - sem ler, só pelos trechos no blog - por eu ser um reacionário fazendo o jogo da CIA. Desprezaram meu romance por eu ser um esquerdinha racialista. Houve até quem se decepcionasse com Mulher de Um Homem Só, escrito muitos anos antes de eu ter blog, pois não encontrou neles temas importantes do LLL como liberdade individual e casamento aberto.)
Estou acostumado a ser regularmente linhchado aqui no LLL, mas a virulência dos comentaristas da Copa espantou até a mim: em 2008, por exemplo, o ponto mais comentado da minha resenha foi eu ter mencionado que terminei de ler o livro em um Starbucks. Não estou, em momento algum, tirando a validade ou o mérito das pedradas, mas ser detonado por uma resenha que eu não queria nem mesmo escrever e na qual não tenho investimento emocional algum (ao contrário da minha ficção e das minhas opiniões políticas) me parece vão demais. A vida é curta, precisamos saber escolher nossas batalhas.
Estou finalmente sentindo na pele e introjetando algo que muitos escritores sempre falaram, de Milan Kundera à minha amiga Ana Paula Maia: escritor tem mais é que ficar calado, não ser pessoa pública, não se envolver em política, sumir atrás dos seus livros e deixá-los falar sem interferência.
Obrigado ao Lucas e a todos os participantes da Copa de Literatura. Ano que vem, quem sabe, participo da Copa como concorrente, com meu romance Mulher de Um Homem Só, lançado esse ano.
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Estou velho. Sim, tenho o direito de opinar sobre qualquer coisa, mas não tenho a obrigação. Para que vou falar algo, que não ganho nada falando, que não tenho obrigação alguma de falar, se sei que podem magoar de verdade outras pessoas?
(Essa mesma distinção entre direito e obrigação é um dos pontos mais incompreendidos do pacto do casamento aberto: ter o direito de sair com outras pessoas não significa ter obrigação de ficar galinhando por aí, até que porque cada terceiro traz consigo sentimentos e expectativas, sempre gera alguma crise na relação, e nada disso deve ser feito levianamente. Durante meus três anos de casamento aberto, por exemplo, eu saí com UMA outra mulher, durante oito meses.)
De agora em diante, sem exceções, está em vigor a velha política: elogio quem eu gosto, não comento quem não gosto.
Não sou crítico, sou escritor. Não sou pedra, sou vidraça.
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Pré-FAQ dos Comentários
huahahahuaa vc se acha famosao ne falando de pessoa publica e de nego se magoar com o que tu escreve. tu acha mesmo que alguem vai se magoar com suas criticas?! se enxerga ae mane
Hoje em dia, pra ser pessoa pública, não é necessário ser famoso, basta escrever qualquer coisa na internet. Artistas, esses bichos vaidosos, eu incluído, vivem googlando seus próprios nomes. Quase tudo que escrevi sobre arte contemporânea brasileira no blog me gerou algum contato ou feedback por parte do artista, do Jorge Furtado ao Diogo Mainardi, do Moacyr Scliar à Tracy Segall.
Para que escrever por vontade própria algo que eu sei que vai causar algum desconforto que seja a um artista que está ali honestamente (às vezes, inabilmente) dando o melhor de si?
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E um comentário verdadeiro que já ouvi algumas vezes:
Mas Alex, quer dizer então que você vai se auto-censurar? Cadê aquele Alex libertário que eu conhecia e gostava? E você não acha que tem uma obrigação com o seu público? Como vamos saber quais são os livros bons e ruins se pessoas como você não manifestarem suas opiniões?
Sempre me auto-censurei. Eu e todo mundo que vive em sociedade. O blog nunca falou de quantas eu dei sem sair de cima, dos barracos da minha família, do que comi no almoço, da música eu estava ouvindo, dos problemas que levaram ao meu divórcio, dos meus clientes corporativos em usabilidade. Sempre existiu uma clivagem clara entre o Alexandre privado e o Alex Castro público. Se você acha que não, então provavelmente acredita que Capitu traiu mesmo Bentinho e já está preparando a transferência bancária praquele seu amigo na Nigéria.
E, não, sinceramente, não acho que tenha obrigação com meu público - o que quer que isso seja. Não acho que eu tenha obrigação de potencialmente machucar os sentimentos ou criar inimizades com meus colegas escritores para que uma multidão anônima e abstrata saiba quais livros são legais e quais não - como se minhas opiniões valessem alguma coisa, aliás. Não valem.
Sinceramente? Além de uma lealdade primordial e tribal aos meus amigos, não me acho obrigado a nada, nem mesmo a falar a verdade, ser ético, cumprir a lei, ser um bom cidadão, essas divindades seculares que até os mais ateus idolatram. Mas isso é assunto pra um post que estou pra escrever há anos e sempre auto-censuro, porque não é coisa que meus alunos possam ler.
Quer saber minha opinião sobre qualquer coisa? Me paga um jantar. Eu sou facinho, facinho. No segundo chope, já estou liberando tudo. Difícil é me fazer beber o primeiro.
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Liberdade É Escolher os Seus Limites
Meus textos nunca vão ao ar assim que os escrevo: sempre circulam antes pelos amigos, que opinam, aconselham, criticam. Disse o Fserb:
a coisa bacana disso que voce escreveu é a questão do posicionamento... você tem uma idéia do que voce quer ser e de que papel voce quer ter na sua relação artistica/social/cultural/blogueira/etc... Ser livre não é não ter limitações. É entender elas e manipula-las de um jeito que atenda as suas vontades. A discussão bacana pra mim é a do posicionamento em si. Porque não atacar escritores faz sentido hoje? O que te levou a essa conclusão? O que faria você mudar de opinião? Não acho que seja só o "não quero essa energia negativa pra cima de mim". Tem uma questão da situação também, não?
Em nenhuma profissão é socialmente aceito falar mal dos colegas. De fato, você não vê escritores se manifestando publicamente pra dizer que outro escritor é ruim, fraco, idiota. Nem os grandes, nem os pequenos que não são ninguém - como eu. É uma questao de simples convivência. Você pode fugir de tudo, menos dos seus contemporâneos.

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http://twitter.com/AlexCastroLLL
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