Propus aos meus leitores o primeiro de uma série de exercícios em empatia. A tarefa era aparentemente simples: por uma semana, dar-se conta de todas as pessoas que nos cercam. Semana passada, relatei as primeiras experiências dos leitores - basicamente, as negativas. Agora, abaixo, depoimentos dos leitores que se jogaram na empreitada e abriram suas cabeças para a experiência:
Isis: Apenas sai do security point do aeroporto, me lembrei do exercicio de empatia e tentei comecar a practica-lo. Quando comecei a olhar a TODAS essas pessoas sentadas na zona de comidas, achei dificil demais empatizar com cada uma, olhar nelas e tentar adivinhar seus pensamentos e suas emoçoes (parte da empatia, nao é?). Achei dificil mas vou continuar tentanto em Washington DC tambem no aeroporto, lotado de familias, viajantes mais velhos, vai ser interessante. Acho que na empatia tem tambem algum aspeto de vicariedade. Tambem é dificil fazer isto num aeroporto, talvez deve-se a situacao de expectativa dos viajantes --além do que sempre tem algum viajante que nao conseguiu chegar a destinaçao antes do perder a alguma pessoa queridissima. Impressoes avulsas: E dificil olhar em pessoas e conseguir que elas nao te olham direito nos olhos, finalizando assim o exercicio de empatia. Eu sou de olhar muito nas pessoas, tentando empatizar e adivinhar parte da sua intimidades (ou inventar alguma intimidade para elas) mas sempre escolho um ponto focal, jamais tento empatizar com todas as pessoas. Obrigada pelo desafio, entao. A atitude de olhar constantemente, como deslumbrada pelo mundo ao meu redor me faz lembrar o que fazia quando era menina e olhava muito a uma pessoa, depois a outra, etc. e meus companheiros de aula diziam "Do you have a staring problem?" como se nao fosse socialmente aceitavel olhar demais (a fato de olhar assim supoe uma inversao emotiva grande demais o uma lentidao da mente?) (Isis)

Alfredo: O Efeito colateral desse exercicio foi primeiro mudar a forma de pensar. Eu normalmente penso como do lado esquerdo da imagem (acima), o exercício me fez pensar como do lado direito. Como você disse é impossível fazer o tempo todo. Mas não ir ao extremo, de perceber todos, ajudou a perceber o ambiente, ajudou a me sentir parte do ambiente. (Alfredo)
Ieda: Bem difícil! Procurei ser discreta, afinal mulher em Sampa PRECISA mesmo ser, ne. Mas percebo q não quero saber da humanidade mesmo. Fiquei irritada com as conversas alheias, com os assuntos, com as opiniões, com o vazio, com as posturas corporais, com os odores, com os corpos q vi, uns muito lindos e outros horrorosos. Fiquei realmente incomodada com a raça. Não sei se por ser novidade, afinal to sempre com o fone no ouvido, mas perceber algo além do meu próprio umbigo, deu-me a entender q o mundão tem muitos mundões, e o q mais me agrada é o meu mesmo (até aqui). Vou continuar tentando (evitando nojo, afinal são figuras mais ou menos como eu, ne). (Ieda)
Adam: Narro minhas primeiras experiências. Destaco que moro e trabalho no Plano Piloto de Brasília, para dar contexto. Comecei o experimento quinta-feira passada. Fui ao trabalho observando as pessoas. A cidade é vazia, era fácil notar cada um da minha casa ao ônibus. Alguns podem ter passado desapercebido, mas consegui notar praticamente todos. No ônibus, vi bastante pessoas, mas era um conjunto "estável": demorava algum tempo para entrar alguém. Olhei então para as ruas: garis, ambulantes, vendedores em suas lojas etc. Confesso que o resultado foi justamente o contrário do que esperava: fiquei feliz de ver tantas pessoas à minha volta. Passear pela cidade não iria ajudar muito: todos eram semelhantes a mim. Resolvi ir para a Rodoviária do Plano Piloto, o hub do DF. No dia seguinte, saí do trabalho para lá, e resolvi ficar uma hora observando as pessoas. Foi uma experiência diferente: havia pessoas em filas para ir para o Entorno (uma viagem longuíssima em ônibus lotados), pedintes, vendedores de doces e uma variedade maior de classes sociais. Era muito difícil prestar atenção em todos: havia muita gente; esforcei-me, entretanto. Senti muita empatia também: na verdade, muitas das pessoas pegavam ônibus que eu mesmo tomava há alguns anos, para lugares onde morei. Como o ambiente não era novidade para mim, não posso dizer que fiquei chocado. Tive uma sensação, como uma arritmia cardíaca não física, e devo ter parecido um perdido para a maioria das pessoas... Mas não fiquei "insano" ou achei a situaçao insuportável. O desconforto foi me concentrar em observar todos: era muita gente, o esforço muito grande. A maior parte das pessoas na Rodoviária não pareciam tão diferentes de mim. Há, porém, um canto onde ficam sem-tetos e drogados; fui lá vê-los. De fato, foi bem mais impactante. Por mais que sempre me doesse vê-los, nunca tinha pensado em suas habilidades e potenciais. Foi ainda pior ver as mães com seus bebês, os adolescentes cheirando solvente. Entretanto, não fiquei tão abalado quanto esperava. O choque maior foi por um erro que cometi. Fiquei tão curioso por essas pessoas que resolvi passar entre algumas delas, para observá-las melhor. Isso fugia totalmente do exercício: é óbvio que eles não estão acostumados com traseuntes, eu iria influenciar o cenário. Como era inevitável, um dos adolescentes fez contato visual comigo, e acabou fazendo sinal de "legal" para mim. Bem, o que eu ia fazer? Retribui com o mesmo sinal. Olha, não tive nenhuma dessas sensações dramáticas que você valou... Será que estou fazendo algo de errado? Alguma sugestão? (Adam)
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Paradoxo Identificação vs Individualidade
Alaide: fiquei na dúvida se faria ou não o exercício, mas hoje me deu na telha de fazer. Eu sempre achei que eu era observadora, mas percebi que era uma observadora de araque depois de fazer o seu exercício. rs O que aconteceu comigo é que conforme eu ia caminhando e observando as pessoas, algumas sensações engraçadas passaram por mim. Passei a sentir uma identificação maior, coisa que nunca sou de ter, sempre me acho meio ET quando "olho pro mundo", percebi que observar não é a mesma coisa que realmente se dar conta, saber que algo dentro da pessoa existe assim como em mim. Às vezes me concentrava tanto em analizar todo mundo que me esquecia de que eu estava lá também, e que também poderia estar sendo observada por alguém, me senti meio invisível. Passei também pela sensação de me sentir única por enxergar tanta coisa diferente. Rolou um paradoxo, pois senti identificação e ao mesmo tempo individualidade. Pensei em encarar as pessoas, ir mais além, mas acho que não era esse o propósito. Passei por lugares não muito movimentados ou apertados, mas achei gostoso até onde fui. Bom, vou tentar continuar com a propósta, mas não vou ficar neurótica com ela! (Alaide)
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Eu Sou a Regra, Você É o Rótulo
Artur: Estou vivendo um paradoxo: com 30 anos de idade, estou vivendo a fase mais egocêntrica e talvez egoísta da minha vida até agora e adorando! Ao mesmo tempo, dia após dia estou, com alguma dificuldade, me desprendendo de (quase) tudo e (quase) todos. Isso é angustiante algumas vezes e libertador a maior parte do tempo. Hoje tentei praticar uns 20 minutos, meia hora do primeiro exercício, algo que eu já fazia um pouco mas não com tanta atenção. Não fui tão bem. Estou agora com uma leve dor de cabeça talvez pq fiquei um tanto chocado por me dar conta do garoto de rua deitado em frente a uma agência bancária enquanto pessoas entravam e saiam apressadas da agência. Num breve instante pensei em oferecer a ele algo para comer. Mas não o fiz. Próximo de casa havia um homem caído ao lado de sua carroça e ele apertava com desespero sua cabeça e tentava ao mesmo tempo se levantar e não conseguia. O olhei nos olhos e parecia gritar por socorro, mas continuei em frente, já bastante abalado. Queria esquecer e não consegui. Bom, essas foram duas cenas de 3 ou 4 segundos que pareceram filmes inteiros rodando na minha mente. Espero conseguir dormir bem hoje. (Artur)
No dia seguinte, Artur deixou um novo depoimento:
Artur: Não dei a devida atenção a cada um que observei ontem e acabei me concentrando em, sei lá, meia dúzia de pessoas vivendo um instante breve de suas vidas e que ainda continuam como um filme na minha mente. Hoje vindo para o trabalho, dentro do ônibus acho que consegui observar, sem me aprofundar, um número bem maior de pessoas. Observei dentro e fora do ônibus. Esse exercício é estranho (ninguém disse que não é), pois hoje me pareceu uma manhã tão comum quanto qualquer outra do meu dia a dia. Vi policiais expulsando alguns mendigos que dormiam/consumiam drogas encostados a um muro, sob uma fina garoa que cai sobre o centro de São Paulo. Procurei não analisar a situação, mas uma certa curiosidade me manteve olhando uns segundos além do "planejado". Enquanto isso, várias pessoas no ônibus olhavam a cena, sei lá, com curiosidade. Notei pessoas evitando encostarem em outras, mesmo dentro de um ônibus "meio lotado" (não encontrei termo melhor). Isso eu noto sempre, em todo lugar. Até eu faço isso muitas vezes. Nem sempre consigo. Não é fácil notar nos outros um mundo tão complexo quanto o meu. A impressão que me passa é que os outros estão em algum extremo: ou maravilhosamente bem ou terrivelmente mal. Apenas eu oscilo. (Artur)
E não somos todos assim? Eu sou a regra, o default, o ser humano complexo, profundo e multifacetado. Já os outros? Aquele é o gordo, esse é o preto, a nariguda, o engenheiro, a amiga deprimida. Ponto. Todos rotulados e classificados. Menos eu.
Em uma mesma linha, comentou o Doutor Plausível:
Doutor Plausível: Peguei o bonde andando, mas acho q sempre tive experiências assim – uma coisa parecida com ficar de pé num lugar qqer e perceber a Redondeza da Terra. Essa percepção do todo e de todos à volta ao mesmo tempo, tive qdo saí à rua depois de ver Koyaanisqatsi, e várias vezes ao sair à rua depois de ficar horas jogando Simcity. Tive centenas de vezes ao me sentar em bares ou ônibus lotados, olhando as caras das pessoas em seu estoicismo perante a humilhação do dia-a-dia. Tem uma cena muito legal logo no comecinho de My Fair Lady q mostra a individualidade de todos os anônimos indo de cá pra lá em seus afazeres numa praça. Acho q faltou vc dar o passo seguinte, q é o perceptor perceber a parte dele mesmo no todo, perceber-se a si mesmo como apenas mais um ali. Só espero q não vire mais um missionarismo teu. E, claro, o exercício é divertido mas o peixe-voador sempre tem q voltar pra baixo da superfície. Aqueles q insistem q "não, não pode ser apenas um exercício, tem q ser uma prática de TODOS no dia-a-dia" são os chatos de plantão. O povo olha e diz, "tá bom, já ouvi; ¿posso voltar prà rotina agora?" (Doutor Plausível)
Cada um tira do exercício o que quer e o que pode, cada um será influenciado de maneira diferente, cada um vai incorporar ou não à sua vida um novo método de ver o mundo, mas, no final, de um modo ou de outro, todos voltamos para o chão.
Se alguém levar desse exercício somente essa difícil percepção de que somos iguais a todo mundo, que não somos os únicos multifacetados ou os únicos rotuláveis, já será bem positivo. Sim, todos sabemos disso, mas quantos sentimos isso?
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O Que Eu Quero
Tathiana: Tentei fazer ontem. Estava no ônibus, indo para o curso e comecei a tentar olhar todas as pessoas. Quando parou em frente a uma padaria e eu comecei a olhar, tive um certo tempinho, foi me dando uma angústia tremenda, imaginando aquelas pessoas lá dentro com tanta coisa dentro delas, tanta história para contar, tanto que nem que sentasse e só ouvisse por dias ia absorver tudo. Não consegui chegar de novo nesse ponto, mas era isso que vc queria? (Tathiana)
Juro que não queria nada. Quero abrir a mente de vocês e que vocês mesmos descubram o que tem lá dentro.
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Será Possível Viver Assim?
Aiaiai: Fiz o prometido. Fui caminhar com o olhar atento a todos. Não achei muita diferença em relação às minhas caminhadas rotineiras. Como disse no outro post, já sou normalmente assim: tendo a olhar para todo mundo na rua. Só que dessa vez estava fazendo isso com mais atenção, tentando ver algo que ainda não havia visto e deu um certo trabalho, porque não foi uma coisa natural, eu me forcei a tentar olhar para todo mundo, geralmente reparo apenas em quem está mais perto. Foi isso. Não vi nada de extraordinário: algumas pessoas sorridentes, outras tristes, uma mulher que pede esmola na porta da padaria com o olhar de miséria (mas ela sempre tem esse olhar), um casal jovem brigando (a mulher puta da vida com o cara), o cara do carrinho de picolé parado olhando para o mar, um monte de gente andando como eu, outros correndo. Não interagi com ninguém, deixei a coisa rolar. Mais para o final, já cansada, parei de tentar olhar todo mundo e, é claro, fiquei mais leve. é isso. (aiaiai)
O leitor Juan comentou:
Juan: "Mais para o final, já cansada, parei de tentar olhar todo mundo e, é claro, fiquei mais leve."Será que tudo não passa de uma "Terapia do Bode na Sala"??? (cue intro X-Files) (Juan)
Talvez a conclusão do exercício seja que é mesmo impossível viver assim. Mas eu concluí faz tempo que também é impossível viver como a gente vive.
(Juan também faz referência à "terapia do bode na sala", que considero uma das melhores piadas-parábolas do mundo, com um enorme poder explicativo. Estou falando sério. Já escrevi sobre isso. Dêem uma olhada.)
Três dias depois, novo depoimento da Aiaiai:
Aiaiai: Bom, de minha parte continuo fazendo o exercício da forma que entendi que deveria ser. Além das caminhadas na praia, essa semana tive que resolver questões burocráticas - fui até num cartório. Nosssssaaaaaa! Tentar me dar conta de todo mundo que tava naquele lugar foi dose, mas até que ajudou a passar o tempo. No transito também estou tentando, mas não com muito afinco já que não quero causar nenhum acidente. Mas até que dá para reparar em muita gente durante uma parada no sinal, né? Hoje de manhã foi interessante quando fui comprar frutas num caminhão que para aqui perto de casa. Eu sempre vou lá correndo e volto. Mas hoje fiquei reparando em todo mundo que estava lá, percebi até que tem um menino que trabalha para o cara e eu nunca tinha percebido. os clientes também são muitos e alguns do tipo que passam invisiveis normalmente: velhas, velhos, empregadas (gosto de ir lá bem cedo, assim que ele chega do sítio, e o público desse horário é esse). Eu vi todo mundo, demorei o dobro do tempo que normalmente demoro para comprar minhas frutinhas. mas foi legal. Acho que devo estar fazendo tudo errado porque não estou me sentindo mal de forma alguma. É até legal. Tem horas que cansa, mas não é desesperador. Daqui a pouco tem caminhada na praia de novo. depois eu conto. Mesmo imaginando que estou fazendo tudo errado, posso ajudar no exercício. O alex pode me usar para dizer o que não fazer. (aiaiai)
Em tempo: os comentários do LLL são abertos a todos e entendo que a anonimidade é uma das bases da liberdade de expressão, mas me dou ao direito de não dialogar com gente que não se identifica. Quando vocês me vêem fazendo isso com leitores do blog de nomes esdrúxulos (Aiaiai, Doutor Plausível, etc) é sempre porque eu os conheço pessoalmente, sei nome, endereço e telefone.
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O Eterno Retorno de Bill Murray
Manuel Carreiro escreveu um interessante texto sobre esse exercício, juntando empatia e alteridade, Nietszche e o filme O Feitiço do Tempo (Groundhog Day):
Manuel: Demora, mas Bill Murray aos poucos vai descobrindo a empatia e desenvolvendo a alteridade: antes, ele se valia do conhecimento sobre os fatos do dia 2 para tirar vantagem das pessoas ao seu redor – posteriormente, ele começa a se colocar no lugar do outro, a compreender suas angústias e medos. Só que como ele tem o poder de saber que os eventos irão se repetir identicamente ao dia anterior, ele passa a usar o que sabe para ajudar as pessoas que antes ele não via, ou se recusava a ver. (...) Bill Murray, após passar pelas etapas todas no filme, (empatia, alteridade, simpatia, entusiasmo) passa a querer extrair o máximo da vida: aprende a tocar piano, salva vidas, se declara pra mulher que ama, alimenta um mendigo. Mas ele sabe tudo que vai acontecer, ele é prisioneiro do dia 2 de Fevereiro.(Manuel Carreiro)
Leia o texto completo: Simpatia, entusiasmo, empatia e alteridade
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Ninguém Olha Nada
Alex Luna, direto de Barcelona, também escreveu sobre sua experiência com o exercício:
Alex Luna: No primeiro dia, fui ao supermercado comprar areia pro gato, e quase sento na praça e fico lá feito besta. O frio não deixou, ainda bem. É muita gente no caminho dos 300 metros daqui pro super. De verdade, nunca tinha notado (ou prestado atenção, mas eu sou o distraído que vai com iPod ouvindo música e conversando no gtalk, ou vendo TEDs ou twittando ou tudo ao mesmo tempo). A grande constatação é que eu sou o único leitor do Alex em Barcelona. Ninguém mais presta atenção em nada, todas as outras pessoas também andam ensimesmadas (usei, usei!!!), ou pelo menos aparentam isso. (Alex Luna)
Leia o texto completo: Exercício de Empatia do LLL
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A Percepção do Expatriado
Rogerio: é realmente algo difícil. Deixar de pensar na moça do café como uma máquina de expresso, ou em um mendigo como uma caixinha de natal requer foco. Acho que a melhor maneira de fazer algo parecido, e algo que muitos acabam percebendo involuntariamente, é ir morar uns 6 meses em algum país estrangeiro, e depois voltar. Qualquer um que faz isso acaba por perceber as pessoas que nós costumamos ignorar de forma involuntária. Nos acostumamos a ver o resto como máquinas, meros estereótipos andantes. Eu já passei pela experiência de voltar do exterior algumas vezes, e mesmo tendo esse choque toda vez que volto ao rio, depois de alguns meses, é impossível não ignorar o mundo a minha volta. (Rogério)
Estudo fora do Brasil há cinco anos. Nada do que aprendi formalmente na universidade tem um décimo da importância desse conhecimento mencionado pelo Rogério, dessa nova olhada sobre aquilo que nos era familiar.
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Empatia por Conhecidos e Desconhecidos
Raquel: Acho fácil exercitar empatia pelas pessoas desconhecidas. A gente imagina a vida e se compadece dos problemas e dificuldades. Dificilimo é ter empatia por quem está próximo. Com o funcionário que não cumpre com as obrigações, com a tia que sempre pede dinheiro emprestado, com o vizinho que fala demais, com o zelador analfabeto que entrega as cartas sempre errado, com o marido e seus problemas. Essa para mim é a grande e definitiva dificuldade. (Raquel)
Interessante. Eu acho justamente o contrário. O que vocês acham? É mais fácil ter empatia por quem conhecemos ou por quem não conhecemos?
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Extrapolando o Lado Pessoal
A Rita, do blog Estrada Anil, escreveu talvez o melhor, mais sensível, mais perceptivo texto sobre o exercício. Recomendo fortemente que confiram. Abaixo, um trecho:
Rita: A tal gravura (acima) mostra algumas pessoas em um vagão de metrô, todas com o mesmo pensamento, cada uma julgando-se o único ser com consciência do pedaço e enxergando todos os outros como autômatos desalmados. É, acho que foi isso que me pegou. Porque não é raro eu ter essa mesmíssima sensação de que as pessoas ao meu lado não estão nem aí para os que cruzam seus caminhos, enquanto, como vocês já viram, sigo julgando-me uma pessoa consciente do valor daqueles que me cercam. E a figurinha do post do Alex me fez pensar na impressão que cada uma dessas pessoas teria de mim, a esse respeito. Porque o fato é: eu até penso nelas, mas será que elas sabem disso? Será que alguém que passa por mim consegue se dar conta de que eu o/a percebo como alguém de igual valor? E que diferença isso faz? E aí é que está: pode fazer toda a diferença.
Daí que agora estou me questionando sobre quão consciente realmente sou em relação às pessoas que me cercam. Não vou tão longe como propõe o Alex - bastou uma ida ao shopping center pela manhã para perceber que é mesmo uma tarefa, para mim, inviável e, honestamente, meio descabida. Mas refletir sobre meu relacionamento diário com as pessoas em meu trabalho ou na escola do meu filho, por exemplo, parece ser algo bem válido. Porque por mais que eu tente não coisificar os que me cercam, não é raro passar dias com a atenção totalmente voltada para mim mesma. Talvez com a intenção de manter-me reservada - odeio buchichos e fofocas - acabe caindo na cilada do egocentrismo e deixando de lançar aquele segundo olhar ao colega da mesa ao lado. O fato é que acho que, a partir da próxima segunda-feira, vou ter a forte impressão de que aquele colega certamente me acha uma pessoa indiferente e não a consciente que julgo ser.
Então a parte que me cabe da primeira fase do exercício proposto pelo Alex é refletir sobre essa tal consciência que acredito ter e sobre como posso torná-la evidente. E não acho que isso invalide o jogo (viu, Alex?) já que nosso mundo é mesmo construído a partir das microrrelações. Não é o olhar que lanço à multidão que me define, mas sim a forma como modulo minhas relações com aqueles com quem de fato interajo. E para os políticos o exercício também seria válido, já que acredito que aquele que não é arrogante em um nível pessoal dificilmente o será no nível social.
E é justamente essa outra camada da proposta do Alex que pode otimizar os efeitos da brincadeira: aquela que extrapola o lado pessoal e alcança o social. Talvez seja uma boa parar para pensar que a falta de empatia está na base de muitas atitudes antissociais com as quais nos tornamos estranhamente acostumados. A falta de identificação com o outro, o não enxergar cada um como um ser que detém o mesmo valor pessoal que a gente, pode ser o que nos transforma em pessoas individualistas, egocêntricas, automáticas, arrogantes. Em um nível mais patológico, estaria na raiz de atitudes antissociais, como desviar dinheiro público (um excelente exemplo de falta de empatia com o outro que está lá na ponta da corrente e que não vai receber atendimento médico no hospital que não vai ser construído) ou sonegar contribuições previdenciárias de empregados (falta de empatia levada às raias da arrogância - sou melhor - e do egoísmo - é tudo meu).
Leia o texto completo: Exercitando a Empatia
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Muito obrigado a todos que participaram. É um prazer poder agir como catalizador de reflexões tão interessantes. Daqui a pouco, proponho o segundo exercício de empatia, "Ver".

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Aula de Empatia em Sete Lições:
1 - Dar-se Conta
a. Dar-se Conta
c. David Foster Wallace e o Experimento de Empatia
f. Reflexões dos Leitores
2 - Ver
3 - Extrapolar
4 - Ouvir
5 - Sentir
6 - Interagir
7 - Ser
Todos os textos da série Empatia. Design do botão por Tony Lopes.
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http://twitter.com/AlexCastroLLL
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Sobre o Primeiro Exercício de Empatia
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