Vai Ter que se Contentar em Ser General...

Daqui a pouco, quem sabe, me formo doutor. Em Português e Espanhol. Com concentração em literatura brasileira e caribenha do século XIX.

De vez em quando, me aparecem amigos perguntando o que vou fazer, quais são meus planos, minhas possibilidades, e já começam fazendo um muxoxo:

Pôxa, Alex, o pior é que, com um doutorado em Português, você está restrito a dar aulas, né? Não tem outro jeito?

Hã? Restrito? Como assim restrito? Quais são as expectativas que ele pensa que eu tenho? Que iria pegar meu diploma e procurar emprego no mercado financeiro? Bater na porta da Shell, da Coca-Cola, da Toshiba?

Oras, escolhi essa carreira justamente porque quero dar aulas. Por qual outro motivo alguém faria um doutorado em literatura, me explica?!

* * *

Imagino esses mesmos amigos (são vários e vários) comparecendo à formatura de um sobrinho na Escola de Oficiais de Exército:

Parabéns, Julinho, mas... Pôxa, o pior é que você agora está restrito a ser um militar de carreira, né? Vai ter que se contentar em ser, no máximo, assim, um general, e olhe lá!

E Julinho responderia:

Pois é, tio. Que bosta. E eu que entrei pra Escola de Oficiais do Exército sonhando em gerente do Banco do Brasil! Me fudi!

 promoção submarino  Promoção Submarino  Promoção Submarino

* * *

Pré-Faq dos Comentários:

Pô, Alex, vc precisa entender que nem td mundo gosta de dar aula!!

Eu entendo bem. Quem não entende que tem quem gosta são eles. Eu não gostaria de ser oficial da Marinha, mas sei que é isso que querem os alunos-cadetes da Escola Naval!

Não têm alteridade suficiente nem pra perceber o duplo insulto: primeiro, em dizer que a carreira que escolhi é uma merda da qual se deve ter pena, e, em segundo lugar, ao me chamar de burro por teoricamente ter tomado esse caminho profissional sem perceber que, deus me livre, minha única opção lá na frente seria *brrr que medo!* dar aulas!

E, não, não me ofendo, não me chateio, já passei dessa fase, não preciso que outros validem minhas decisões, mas o post é mesmo só pra registrar meu espanto com essa falta de noção do outro, com essa completa incapacidade de ver que existem outras pessoas, que elas não são eu, que têm outros gostos e outras prioridades, e que fizeram outras escolhas para suas vidas.

Ou seja, falta de alteridade e de empatia.

 promoção submarino  Promoção Submarino  Promoção Submarino

 Promoção Submarino

* * *

http://twitter.com/AlexCastroLLL

 

15.12.09


Categorias: Comportamento


Posts similares:
¡¡¡QUIZ DO EXÉRCITO!!!
ALGUNS DIÁLOGOS DO MEU DIA DE HOJE
CONHECEM OS MICROBIQUÍNIS?

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: aiaiai

Um ponto que vc não ressaltou é que essa reação dos seus amigos revela a desvalorização da profissão de professor.

Essas mesmas pessoas, aposto, se arvoram em desrespeitar pessoas que não tem formação superior.

Ou seja, valorizam demais a educação e desvalorizam quem deveria dar a educação. Vai entender!


PermalinkPermalink 15.12.09 @ 07:12



Comentário de: Lucélia

Pois é, Alex...meu namorado é professor e sofre o mesmo preconceito. Aqui no Brasil, ser professor é carreira de quem não deu certo na vida. Tipo,"ah, aposto que ele tentou ser advogado e como não conseguiu foi ser professor". Quando ele diz que é professor as pessoas sempre respondem com um "ah, bom" e mudam logo de assunto. Preconceito pior sofrem as mulheres que decidiram ser pedagogas, são classificadas como "espera marido". É o tipo de profissão que se tem, enquanto se espera um bom casamento. Aff! É deplorável.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 08:21



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Mesmo aqui cara. Quando conto (especialmente pros mais jovens) que vou começar um PhD em Setembro, todo mundo me olha com espanto, arregala os olhos e diz: "e o que vai fazer depois?????"

Quando digo que vou fazer o mesmo que venho fazendo a minha vida inteira (ler, escrever, trocar idéias, "dar aula") a coisa fica ainda pior: a cara de pena que eles fazem é inevitável.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 09:01



Comentário de: Bel · http://deixoler.blogspot.com

Sorte a sua! Eu estou na posição incômoda de estar fazendo um mestrado (Cultura e Turismo, na área de Fotografia e Representações Sociais) e descobri que o que eu quero mesmo é fotografar, e não ensinar fotografia. Mas se isso me der uma grana... eu até encaro. (GRANA???? Ensinando??? No Brasil???? Piada, claro!)

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 09:58



Comentário de: Roger Moreira

não é questão de não entender, é que na crítica geralmente há uma auto-afirmação. há o prazer de, sob uma suposta consternação, te dar uma alfinetada dizendo que minhas escolhas foram melhores, que me dei bem e vc não. enfim, que eu sou melhor que vc.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 11:31



Comentário de: Roger Moreira

só pra constar, tenho um primo fazendo doutorado em engenharia mecânica na alemanha. precisa ver como a família toda morre de pena do pobre. afinal, vai ter que se contentar em ser empregado de fábrica o resto da vida ou coisa do tipo.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 11:34



Comentário de: Iara · http://foifeitopraisso.blogspot.com

Ei! Literatura Brasileira e Caribenha do século XIX? Parece muito legal.

Eu sou formada em Letras, habilitação em Português e Espanhol. Adorei o curso com todas as minhas forças. Como sempre fui meio nerdizinha, quando tava prestando vestibular, os amigos dos meus pais diziam: "Letras? Professora? Mas uma menina tão inteligente!". Durante a faculdade eu trabalhei em multinacionais, mas em dado momento larguei um pacote de benefícios excelente, um plano de carreira e um salário razoáveis para dar aulas. Uma amiga desempregada e inconformada com minha escolha me perguntou se o meu emprego "era tão ruim assim". Não era, mas, mas eu queria dar aulas. Caramba, custa respeitar a escolha alheia?

Não curti muito e acabei voltando pra vida corporativa. Nada a ver com grana, perfil mesmo. Mas não me arrependo por ter tentado (seria frustradíssima se não tivesse tentado), e tenho a maior admiração pela galera que segue a carreira acadêmica.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 11:39



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Pôxa, Alex, o pior é que, com alteridade e empatia, você está restrito a ser gente, né? Não tem outro jeito?

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 12:00



Comentário de: FlaviaQ

Alex,

Você pode dizer que não ficará restrito a dar aulas, você ainda poderá dar o cu, e que assim, pelo menos de fome você não morre. Com certeza isso vai calar a boca dos idiotas.

Beijos

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 14:09



Comentário de: Fabio Robbe

Alex, calma. Pra começar, você não vai só dar aulas. Pode publicar artigos e eventualmente livros, incluindo estudos que, espera-se, contribuam para o debate acadêmico de questões relevantes para a matéria. Em segundo lugar, conheço muita gente que entrou em carreiras que, digamos, "não abrem mil horizontes", como "gerente de marketing", e que, após conhecer a carreira, as instituições e "mercado", decepcionaram-se enormemente e lamentaram as opções. Não que dissessem: "devia ter feito isso ou aquilo", mas ficaram meio frustrados. Isso acontece em carreiras militares e em várias outras, até no Itamaraty. Portanto, não sei se os alunos-cadetes da Escola Naval querem mesmo o que acham que querem. É muito fácil, depois de meia vida num meio específico, chegar e dizer "por que fui fazer essa merda". Feliz de quem tem consciência das escolhas que faz, ou, como dizem algures, "who's clever". Agora, você tem razão. Quem faz esse tipo de comentário é porque, em algum momento da vida se conformou com o fato de que faria essa merda mesmo pro resto da vida" e se voltou para a única fonte de possíveis compensações para a vida de merda que leva, a vida corporativa. Não que sejam grandes merdas, mas a mentalidade dessas instituições inclui a sensação de que se está sempre a um passo de uma grande promoção ou algo assim. Ou seja, não suportam ver alguem bem em uma carreira determinada que não dê muita grana.
Ah, é claro. Não sei o que você ai fazer da vida, mas uma coisa é dar aula nos States, outra é sobreviver disso no Brasil.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 14:47



Comentário de: marcus · http://grandeabobora.com/

Nem sei o que significa alteridade, mas gostei do post. Me identifico.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 15:36



Comentário de: Guilherme

E olha que Literatura é uma área normalmente associada à academia / docência.
E quem, em áreas coomo direito, "abre mão" de ganhar rios de dinheiro com Direito Tributário ou Empresarial pra se dedicar à academia e à docência, estudando Filosofia do Direito? E não querendo estudar pra concurso público, a não ser de professor?
Os muxoxos são constantes, afinal se escolhe "não trabalhar", "apenas dar aula".
Que é profissão de fé, é.
Salário INICIAL de muito técnico (ensino médio) em concursos como de tribunais é > 7 mil. O de professor titular, dedicação exclusiva, topo da carreira universitária, não chega a 8 mil. Triste... mas uma escolha que muitos, como eu, ainda consideram válida. Mas haja muxoxo.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 17:12



Comentário de: Carol

Acho q todo mundo que faz licenciatura tem que conviver com a cara de piedade das pessoas quando diz que quer dar aula... Mas isso se vê principalmente em burocratas, que não entendem como a gente pode ESCOLHER trabalhar com algo que não dê muito dinheiro. Pra eles isso não faz sentido, simplesmente.
Abraço, Alex! Gosto muito do que leio por aqui, sempre.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 17:19



Comentário de: Thiago

"Puxa, você fez concurso público, que pena..."

Vou dizer que sou preconceituoso sim, sorry, achei os profs de português entre os mais lamentáveis do colégio. Talvez toda a questão de querer mandar nos outros com as regras gramaticais, etc. E a impressão é que estão lá por falta de opção, não por escolha. Ah sim, e mais os deliciosos livros 'obrigatórios' como Graciliano Ramos, "O Ateneu", etc.

Esse preconceito é 500% menor com quem saiu da zona de conforto e foi fazer letras com uma língua estrangeira.

Nem vou falar do curso de pedagogia...

Talvez por isso eu prefira principalmente a lit. Inglesa.

Pode ser que na Academia seja menos ruim estudar literatura, etc. afinal gostar do assunto é meio caminho andado, e professores multidisciplinares, e uma turma interessada e aberta a novas experiÊncias e idéias, etc.


Enfim, depois do desabafo, boa sorte!








PermalinkPermalink 15.12.09 @ 18:12



Comentário de: Carol · http://logica-inversa.blogspot.com/

Uma amiga minha, professora universitária, escutou a seguinte pergunta de um aluno: "mas você trabalha também, ou só dá aulas?"

Cada coisa...

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 20:59



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Carol, eu escutei isso lecionando Introdução à Filosofia numa das maiores universidades do Brasil...

Minha saída foi dizer que em sala, na verdade, eu estava me divertindo - porque o trabalho mesmo era fora de sala, escrevendo artigos, lendo relendo e treslendo, preparando aulas (fui professor à moda antiga, no sentido de que eu preparava as aulas tintim por tintim), grupos de pesquisa, etc.

E isso tudo sem gabinete ou sequer uma salinha - professor assistente não tem gabinete, mas tem que publicar como se tivesse um "tenure"...

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 22:05



Comentário de: Carol · http://logica-inversa.blogspot.com/

Manuel

Pois é. Professor tem um trabalhão fora da sala de aula. Eu venho de família de professores e acabei de entrar no mestrado (ou seja, vou para o mesmo caminho) e sempre vi o esforço de todos para manter um bom conteúdo para os alunos.

Mas a pergunta não deixa de ser elucidativa: no fim, muita gente vê a profissão de professor universitário (especialmente fora das universidades públicas e dos regimes em tempo integral) como um "bico", o que é, na minha opinião, muito triste.

Abs.

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 22:29



Comentário de: Ângela F. · http://www.twitter.com/fatorell

nossa, eu adoro dar aulas. nessa semana estou no pior momento, corrigir provas. mas sabem o que vem depois? dois meses de férias.
eu tenho finais de semana. eu enforco feriados, eu tenho um dia de semana off. eu ralei em grandes empresas, e não vi nem meu filho dos 2 aos 7 anos. Olha, não quero outra vida do que a de professora. Ah, milionária sou não. Mas para padrões brasileiros não posso chiar do meu estilo de vida. mas enfim. o que acho engraçado é ainda ler até hj que quem está em sala de aula não foi "bom o bastante" para o mercado. Oi? e naonde o "mercado" é seletivo? hahahahaha. e quem disse q paga muito? Outro dia li um advogado de porta de cadeia criticar um colega doutor com esse argumento. ah, o sorriso do psicanalista nessa hora :-)))
by the way, eu pedi demissão da empresa vocesa q trabalhava, e exoneração do governo. mas nem precisava dar essa satisfação. But. só p dizer q tô aí na alteridade e empatia.
e vai, empatia é quase amooor

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 22:36



Comentário de: Cinthia

Já ouvi: "- Você vai trabalhar? - Já trabalho, eu dou aula. - Mas e trabalhar?"

Também me perguntam muito: "Você só dá aula aqui?" Nunca ouvi ninguém perguntar pra funcionário do Banco do Brasil se ele trabalha em outro lugar também.

E o melhor, que está relacionado mais a vida acadêmica que a docência: "- Vai fazer o que hoje? - Vou estudar. - Ah, então você podia fazer um favor pra mim!".

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 22:41



Comentário de: Cláudio

Tenho dito sempre por aí, nessa vida de mascate de idéias: depois do sexo propriamente dito, o que me dá mais tesão na vida é dar aulas!

PermalinkPermalink 15.12.09 @ 22:50



Comentário de: Thiago

Sem contar que professor de faculdade trabalha certos dias no horário integral "completo" porque tem uma turma as 7h30 da manhã e outra lá as 22h30

"E você entra na firma as 9h e sai as 18h?! mas que moleza!!"

Vou dizer gente, prefiro o mundo acadêmico ao empresarial mas mesmo assim fiquei com nojinho da universidade. Culpa do meu mestrado fracassado!


PermalinkPermalink 16.12.09 @ 13:50



Comentário de: Ivan

Bom, é fato que alguns cursos tem opções mais amplas mesmo. Direito por exemplo, com a advocacia/promotoria/defensoria pública/magistratura. Jornalismo e todas as suas áreas. Se vc um dia se encher de dar aula ou algo te impedir de fazê-lo, talvez seja obrigado a mudar completamente de área e ter de iniciar outro curso pra obter a qualificação necessária. Já esses cursos te dariam outras opções, caso a inicial não dê certo. São mais seguros. Não é a toa que mamães de todo o Brasil pedem pro seu filhote fazer Direito.

PermalinkPermalink 18.12.09 @ 19:59



Comentário de: Carolina

Acho que estou fora da realidade, de acordo com a maioria dos comentários. Conheço professores, inclusiva bastante jovens, com bons salários. (????)
Claro que não são astronômicos quanto os de grandes executivos de grandes corporações, mas também eles não precisam se submeter a um cargo executivo em uma grande corporação. Isso sim me faz fazer brrrrrr.

PermalinkPermalink 19.01.10 @ 02:20



Comentário de: Ganhar dinheiro na internet · http://www.dinheiroganhar.net

Bom, se você já deu aulas e realmente gosta, é ótimo pra você... O duro é o cara que se forma pensando que uma certa profissão é uma maravilha e depois se decepciona completamente.

PermalinkPermalink 01.02.10 @ 15:21



Comentário de: pit-36 · http://www.budujsie.urodablog.eu/?p=45693

How do I copyright the content on my web site?

PermalinkPermalink 14.11.11 @ 03:31



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: Façam suas Perguntas sobre o Kindle

Próximo post: Reflexões dos Leitores sobre Exercício de Empatia "Dar-se Conta"

um blog sobre literatura, empatia e desapego

sobre mim

contato, bio, fotos, livros, compre

Busca

    Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site