Semana passada, propus aos meus leitores o primeiro de uma série de exercícios em empatia. A tarefa era aparentemente simples: por uma semana, dar-se conta de todas as pessoas que nos cercam. (Mais detalhes no post original.)
Camila não acreditou muito que fosse adiantar e, de fato, teve gente que não entendeu nada, mas no geral achei a resposta bastante positiva.
O Povo do Contra
Alex, dessa vez vc viajou mesmo. Fazer oficina literária no blog? Pra começar, não acho que literatura tenha a ver muito com alteridade, mas isso é opinião. O exercício que vc propôs, acho que todo aspirante a escritor já fez ou vive fazendo. De qualquer forma, confesse que é um peoplewatcher. (Fábio)
Algumas pessoas, ao invés de considerar o exercício, preferiram ficar pensando em mim e me sacaneando.
Alex Castro dando aulas de empatia????? Hilario....!! Deve ter descoberto essa ideia ontem... depois vem aqui mostrar o novo brinquedo pra turma... Alex e empatia.. vinagre e azeite, nao se misturam. ... Alex Castro se poem acima de tudo e todos e se acha O benevolente.. agora dah um "exercicio" de empatia... e o que eh empatia? R:se sentir acima de tudo e todos... Esse "exercicio" de empatia eh um exercicio de arrogancia,no fundo. poruqe eh obvio soh eh possibel imaginar o que uma pessoa sente se ela eh mais "simples" do que voce... nao da para um adolecente entender a cabeca de um fisico nuclear de 60 anos.... nao dah.
Leitores antigos e queridos acharam que eu estava buscando a salvação e que a percepção emotiva não é um bom filtro da realidade.
Pelo que vejo sua busca por salvação continua. Empatia? Bom, sentimentos confortam. Afinal, o próprio conforto é um sentimento. Calor humano, não é isso? O conforto básico. Mas sentimentos também confundem. Eu sei que as pessoas são pessoas, como eu. Mas, por que sentir isso seria importante? Essa empatia, ao invés de criar uma percepção de realidade, não criaria uma falsa idéia de união, de ligação, que sai da realidade? Afinal, em 99% das vezes, o idiota que me corta no trânsito é apenas isso, um idiota. A água é apenas água. Como nossos sentidos não são o filtro perfeito da realidade, nossa percepção emotiva está longe de ser. Todos buscamos essa abstração do conforto, da salvação, da felicidade. O difícil é associar esses sentimentos aos gatilhos certos. Desprendimento e espontaneidade tem tudo a ver com isso. Empatia, até certo ponto é verdadeira. Mas está longe de o ser como é colocada pelo senso comum. (Roger)
Por fim, levantou-se a questão de se é possível saber o que é melhor pros outros - apesar de o exercício nunca passar nem perto dessa questão.
sera que a gente sabe mesmo o q é melhor pros outros? sera q essas proposições(posts em blog, discursos em faculdade, intervençoes artisticas, etc) nao estao caindo na mesma armadilha que aquele cartun do post passado expoe? (Luis)
Uma Objeção Feminina
Mulher, infelizmente, não tem como fazer isso. Pode até ser perigoso.
Houve uma incompreensão comum e de boa-fé: algumas pessoas disseram que não seria possível se dar conta das pessoas a nossa volta sem que elas percebessem e muitas mulheres, por esse motivo, alegaram que o exercício poderia ser perigoso. Eu sou o primeiro a admitir que, infelizmente, no nosso país, uma mulher que faça contato visual com todo mundo vai acabar se metendo em confusão. Entretanto, o exercício não pedia nada disso: simplesmente dar-se conta das pessoas a nossa volta pode e deve ser feito de maneira discreta e imperceptível.
Nao acho dificil reparar as pessoas, raramente elas me encaram de volta. Acho que ao longo dos tempos eu desenvolvi algumas tecnicas... a malandragem é nao usar apenas a visao, mas outros sentidos também. Eu tento escutar o que os outros estao falando... sentir algum cheiro... As vezes pego algo pra comer ou ler, pra instigar as pessoas a minha volta... Bocejo pra saber quem está prestando atençao em mim. Olho para onde a pessoa esta olhando, ao inves de olhar diretamente pra ela... depende da ocasião. (Flávia)
Um Mal-Entendido Interessante: Quem JÁ Faz Isso
Nós, os humanos, naturalmente antropomorfizamos e individualizamos tudo.
Falamos com nossos cachorros como se fossem gente. Nos emocionamos mais com um filme da Sessão da Tarde sobre o drama ficcional de uma judia de Hollywood (que passa por Dachau sem borrar a maquiagem) do que com o frio número de seis milhões de judeus mortos. Filmes-catástrofes sobre o fim do mundo precisam sempre incluir um núcleo concreto de personagens para a platéia se identificar: assistimos a Califórnia ser varrida do mapa entre aplausos, mas nos importamos de verdade com a vida de pessoas que não existem e que nem conhecíamos até o começo do filme, meia hora atrás.
Nossa vida, claro, é assim também.
Um câncer no meu pai é muito pior do que um tsunami que mate cem mil asiáticos que não conheço. O assassinato de uma loira classe média, que viveu uma vida parecida com a minha, mesma universidade, mesmo bairro, mesmos restaurantes, me afeta muito mais do que uma chacina que mate trinta pivetinhos da favela, com uma vida tão diferente da minha que mal consigo visualizá-la, e que, afinal de contas, provavelmente eram bandidos, né? Quando uma empresa americana fecha uma fábrica em Detroit e abre outra no ABC, celebramos a criação de novos empregos no Brasil e nunca paramos pra pensar nos empregos perdidos nos EUA - afinal, somos brasileiros, temos que nos importar com os trabalhadores daqui, certo?
Como dá pra perceber, apesar de inerentemente natural e humana, essa nossa tendência pode facilmente levar à insensibilidade e ao descaso. Um dos objetivos desse exercício é quebrar esse processo: é te fazer ver a Califórnia deslizando pra dentro do Pacífico e sentir a dor de cada uma daquelas pessoas que você nem está vendo - mas que estão lá!
Eu faço isso há anos, involuntariamente. ... Sempre que eu estou de bobeira, num restaurante, numa fila, no ônibus... seilá... eu dou primeiro uma olhada geral até achar algum individuo com algum detalhe bem bizarro que me chame a atençao. Pronto, começa. Eu reparo a postura, a roupa, o estado de espirito, se a pessoa está acompanhada, como ela é a relação dela com o outro, qual é a conversa, como a pessoa fala, do que ela fala... começo a construir a personalidade da pessoa dentro da minha cabeça com as peças que vou encontrando. Isso me dá um prazer incrivel. Ver a humanidade do outro. Reparar tudo de pequeno que a pessoa possa ter. Criar um passado e futuro pra elas na minha cabeça... reparar em cada centimetro da sua empolgaçao ridicula, seus problemas banais, ou trágicos, a importancia que está dando a eles... Ivariavelmente me dou conta de como elas se acham o centro do mundo. Reparo que algumas se envergonham disso. Andam de cabeça baixa, dao sempre passagem... tentam sumir na paisagem. Outras acham que o mundo devem tudo a elas... ridiculas! Eu sou tao superior! QUe prazer! Dai me dou conta, que eu posso ser uma das pessoas observadas, e começo a reparar na roupa que estou vestindo, no que as pessoas podem captar de mim realmente... tudo igual, lembro de algum momento quando eu fui ridicula... No final, fico arrasada porque me lembro que eu nao sou o centro do mundo, que vou morrer um dia, que sou ridicula por me achar melhor qu eos outros, que nao fui escolhida por Deus e etc... ... Por fim, eu concordo com você, reparar nos outros é um inferno! (Flávia)
Pois bem. Alguns leitores disseram que não viam muito sentido no exercício, pois já faziam isso no seu dia-a-dia. Sinceramente, eu duvidei um pouco, pois o exercício que estava propondo era bastante radical. E quando esses leitores descreviam o que é que "já faziam", ficava claro que tinha pouco a ver com o exercício.
nossa, não sei se porque estou sempre me dando conta de uma parcela considerável das pessoas que estão ao meu redor, não vi muita utilidade no exercício... sempre gostei desse 'passa-tempo' qdo estou caminhando, andando de onibus, de metro... por isso não gosto de ouvir música nem de ler... prefiro observar (talvez o fato de ser atriz tenha inclusive transformado o hábito em 'exercício de campo'). Claro que faço isso sempre numa escala do viável e do suportável - o que mostra que eu deveria radicalizar isso para 'cumprir a lição'. Mas de verdade eu não vejo muito sentido nisso... (Débora)
Mas andar pelas ruas reparando em algumas pessoas... isso todo mundo faz! Nem os loucos e mega-egocêntricos conseguem ver apenas a si mesmos. Dentre as dezenas de pessoas nas ruas e no ônibus, escolhemos concentrar nossa olhada no mendigo particularmente remelento, na moça particularmente bonita, no rapaz de cabelo particularmente rosa. Mas isso nada mais é do que o mesmo processo descrito acima: focalizamos nas aventuras de uma família durante o fim de mundo PARA NÃO TERMOS que pensar nas outras seis bilhões de pessoas morrendo.
Quando propus o exercício, eu já presumia que você andava pela rua reparando em algumas pessoas aqui e ali. A tarefa era justamente tentar des-especificar o seu olhar e dar-se conta de TODO MUNDO.
Eu fiz algo parecido com esse exercício a minha vida toda. Sempre que tinha uma oportunidade parava pra prestar bastante atenção as pessoas a minha volta. E eu ia além. Com minha mente imaginativa e começava a "adivinhar" o que os outros estavam pensando de mim quando me olhavam. Isso sim era egocentrismo. Como se todos parassem pra pensar em mim. Mas, como minha mente era pessimista, só os piores cenários possíveis prevaleciam. E geralmente ficava suando e as vezes passava mal. Esse exercício eu não faço. Não quero estragar minha semana. Nem voltar a depressão. Gostei do quadrinho. É exatamente assim que eu penso várias vezes quando estou no ônibus. Egocentrismo é pouco. Mas, como já disse Douglas Adams, num universo vasto como o nosso, uma coisa que não podemos ter é senso de proporção. (Edmilson)
Quem sabe, talvez seja de fato impossível. Mas descobrir isso por conta própria (ou não) faz toda a diferença:
Primeiro dia de exercício: Alex... simplesmente não dá. Moro em Sampa. Quando percebo, automaticamente já descartei meio mundo. Sem perceber (ou, as vezes percebendo), ignoro algumas pessoas para poder olhar outras. Continuarei tentando. (Ulisses)
"Quanto mais vivo, mais percebo que a verdadeira humanidade está não em inteligência, raciocínio e conhecimento, mas sim em consciência, percepção, empatia (...)". Não sei se isso é ruim ou bom, mas senti calafrios ao ler essa passagem. Eu confesso que estou caminhando no sentido oposto, qual seja, o de me desprender o máximo possível das relações humanas, mantendo apenas o estritamente necessário para o meu lado macaco não pirar. Se um avião cheio de crianças órfãs e deficientes físicas caem num vulcão com lava fervendo, eu tento nem piscar o olho. Para mim, as pessoas são apenas um aglomerado de moléculas de cuja complexidade surge um fenômeno elusivo chamado consciência, e ficar se preocupando de mais com elas é atrair dor de cabeça desnecessária. Empatia só é bom na medida necessária para estabelecer uma convivência pacífica entre as pessoas. Ficar se "conectando" a outras seres humanos pode até fazer um bem para algumas pessoas com certas inclinações psicológicas, mas, no geral, me parece ser um "mau negócio". Ou então eu estou redondamente errado e deveria deixar de passar tanto tempo na frente do computador programando... (Adriano)
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Essas foram apenas as objeções e mal-entendidos prévios. Ficou tão longo que paro por aqui. Amanhã, ou sexta, publico e comento os resultados das pessoas que encararam o exercício em toda a sua dificuldade.

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Aula de Empatia em Sete Lições:
1 - Dar-se Conta
a. Dar-se Conta
c. David Foster Wallace e o Experimento de Empatia
f. Reflexões dos Leitores
2 - Ver
3 - Extrapolar
4 - Ouvir
5 - Sentir
6 - Interagir
7 - Ser
Todos os textos da série Empatia. Design do botão por Tony Lopes.
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http://twitter.com/AlexCastroLLL
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