David Foster Wallace e o Experimento de Empatia

Quanto mais vivo, mais percebo que a verdadeira humanidade está não em inteligência, raciocínio e conhecimento, mas sim em consciência, percepção, empatia. Em olhar pra uma pessoa e vê-la como pessoa. Em olhar pra água e dizer, isso é água.

Eu ainda não conhecia David Foster Wallace mas, depois do exercício sobre empatia, muitos leitores recomendaram o texto abaixo, um discurso de formatura que ele proferiu em Kenyon Collge: (versão completa em inglês, tradução pro português)

The thing is that, of course, there are totally different ways to think about these kinds of situations. In this traffic, all these vehicles stopped and idling in my way, it's not impossible that some of these people in SUV's have been in horrible auto accidents in the past, and now find driving so terrifying that their therapist has all but ordered them to get a huge, heavy SUV so they can feel safe enough to drive. Or that the Hummer that just cut me off is maybe being driven by a father whose little child is hurt or sick in the seat next to him, and he's trying to get this kid to the hospital, and he's in a bigger, more legitimate hurry than I am: it is actually I who am in HIS way. Breves Entrevistas com Homens Hediondos: Contos

Or I can choose to force myself to consider the likelihood that everyone else in the supermarket's checkout line is just as bored and frustrated as I am, and that some of these people probably have harder, more tedious and painful lives than I do.

Again, please don't think that I'm giving you moral advice, or that I'm saying you are supposed to think this way, or that anyone expects you to just automatically do it. Because it's hard. It takes will and effort, and if you are like me, some days you won't be able to do it, or you just flat out won't want to.

But most days, if you're aware enough to give yourself a choice, you can choose to look differently at this fat, dead-eyed, over-made-up lady who just screamed at her kid in the checkout line. Maybe she's not usually like this. Maybe she's been up three straight nights holding the hand of a husband who is dying of bone cancer. Or maybe this very lady is the low-wage clerk at the motor vehicle department, who just yesterday helped your spouse resolve a horrific, infuriating, red-tape problem through some small act of bureaucratic kindness. Of course, none of this is likely, but it's also not impossible. It just depends what you what to consider. If you're automatically sure that you know what reality is, and you are operating on your default setting, then you, like me, probably won't consider possibilities that aren't annoying and miserable. But if you really learn how to pay attention, then you will know there are other options. It will actually be within your power to experience a crowded, hot, slow, consumer-hell type situation as not only meaningful, but sacred, on fire with the same force that made the stars: love, fellowship, the mystical oneness of all things deep down. (...)

It is about the real value of a real education, which has almost nothing to do with knowledge, and everything to do with simple awareness; awareness of what is so real and essential, so hidden in plain sight all around us, all the time, that we have to keep reminding ourselves over and over:
"This is water."
"This is water."

It is unimaginably hard to do this, to stay conscious and alive in the adult world day in and day out.

Também recomendo enfaticamente o conto "Good Old Neon", do livro Oblivion (trechos em português, em inglês no GoogleBooks).

* * *

Confira a chamada para o primeiro exercício sobre empatia, Dar-se Conta.

Leia duas das primeiras respostas de leitores que abraçaram o experimento:

Exercício de empatia do LLL, por Alex Luna
Exercitando a Empatia, por Rita

E você? Não vai nem tentar?
 Obras Completas Sigmund Freud: Edição Standard - 24 volumes
Obras completas de Freud, de R$960 por R$299

* * *

Aula de Empatia em Sete Lições:
1 - Dar-se Conta

a. Dar-se Conta

b. Sobre o Primeiro Exercício

c. David Foster Wallace e o Experimento de Empatia

d. Vale a Pena Tentar?

e. Primeiros Resultados

f. Reflexões dos Leitores

2 - Ver
3 - Extrapolar
4 - Ouvir
5 - Sentir
6 - Interagir
7 - Ser

Empatia, por Alex Castro

Todos os textos da série Empatia. Design do botão por Tony Lopes.

* * *

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http://twitter.com/AlexCastroLLL

 

07.12.09


Categorias: Comportamento, Livros, Empatia


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Comentários:


Comentário de: Breno Kümmel

Esse conto, Good Old Neon, é de dar arrepios. Pena que o resto do livro seja despirocado e desengonçado demais para o meu gosto.

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 16:47



Comentário de: Roger Moreira

Pelo que vejo sua busca por salvação continua. Empatia? Bom, sentimentos confortam. Afinal, o próprio conforto é um sentimento. Calor humano, não é isso? O conforto básico.

Mas sentimentos também confundem. Eu sei que as pessoas são pessoas, como eu. Mas, por que sentir isso seria importante? Essa empatia, ao invés de criar uma percepção de realidade, não criaria uma falsa idéia de união, de ligação, que sai da realidade?

Afinal, em 99% das vezes, o idiota que me corta no trânsito é apenas isso, um idiota. A água é apenas água.

Como nossos sentidos não são o filtro perfeito da realidade, nossa percepção emotiva está longe de ser.

Todos buscamos essa abstração do conforto, da salvação, da felicidade. O difícil é associar esses sentimentos aos gatilhos certos. Desprendimento e espontaneidade tem tudo a ver com isso. Empatia, até certo ponto é verdadeira. Mas está longe de o ser como é colocada pelo senso comum.

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 20:11



Comentário de: Alex Castro Email

roger,

acho q vc está me confundindo com outra pessoa.

eu nao estou buscando salvacao, nao acho q salvacao seja possivel ou desejavel, nem sei o que quer dizer isso, na verdade, num contexto secular, e nem tenho nada do que ser salvo....

falei alguma vez q a humanidade é ou deve ser unida? o que cria esse sentimento imaginario de uniao, via de regra, é o patriotismo, q acho bastante negativo... tem um livro otimo sobre isso, comunidades imaginadas, do anderson, sobre como se cria essa falsa impressao...

a percepcao emotiva e os sentimentos sao pessimos filtros da realide. eu alguma vez disse q nao eram?? mas, alias, o que é entao? existe filtro adequado ou a prova de erro pra realidade?

vc acha q estou buscando por conforto ou salvacao?? eu?? olha, o exercicio q propus é extremamente desconfortavel... se vc nao acredita, pode tentar... :)

serio. eu nao entendi nada do seu comentario. parece q vc discorda de mim, mas nao sei quanto a q, pois todas as coisas q vc mencionou passam longe, muito longe do que eu falei....

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 20:32



Comentário de: Luis

Alex, voce ja leu um texto do polzonoff sobre saber o que é melhor para os outros? É esse aqui: http://www.polzonoff.com.br/page/4/

eu concordo com muito do que esta sendo dito nesses posts aqui. mas sera que a gente sabe mesmo o q é melhor pros outros? sera q essas proposições(posts em blog, discursos em faculdade, intervençoes artisticas, etc) nao estao caindo na mesma armadilha que aquele cartun do post passado expoe?

sei lá..

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 01:54



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

E por falar em DFW, a New Yorker (de 14 de Dezembro de 2009) acaba de publicar um conto inédito dele...

http://www.newyorker.com/fiction/features/2009/12/14/091214fi_fiction_wallace?currentPage=all

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 02:18



Comentário de: Alex Castro Email

mas sera que a gente sabe mesmo o q é melhor pros outros? sera q essas proposições(posts em blog, discursos em faculdade, intervençoes artisticas, etc) nao estao caindo na mesma armadilha que aquele cartun do post passado expoe?

desculpa soar q nem o comentario anterior, mas eu realmente acho q vcs nao devem ler o q escrevo. quando foi, em que momento, onde, meu deus, q eu disse q eu, por um segundo q seja, sei o que é melhor pros outros?? ou que acho q ALGUEM, qualquer pessoa, em qualquer lugar, sabe o que é melhor por outros? o que tem essa questao, de saber o que é melhor para os outros, minimamente a ver com um post propondo um exercio de empatia para perceber o outro??

serio. juro q nao entendi nada. nem qual foi a conexao. tem certeza q vc comentou no post certo?

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 04:48



Comentário de: Victor Kottke

Leia o livro Infinite Jest do DFW. Lembro de você escrevendo que Senhor dos anéis era rejeitada pelos academicos, mas justamente feito PARA eles. Infinite Jest é na mesma categoria, só que foi amplamente festejado no meio, digamos assim.

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 09:32



Comentário de: Breno Kümmel

O infinite jest entrou na moda quando foi lançado, e depois virou moda não gostar do livro. Quando o DFW morreu, estava voltando a virar moda gostar do livro.

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 11:11



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Infinite Jest é o Grande sertão: veredas dos americanos.

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 12:08



Comentário de: Adriano Araújo · http://adrianodsa.wordpress.com

"Quanto mais vivo, mais percebo que a verdadeira humanidade está não em inteligência, raciocínio e conhecimento, mas sim em consciência, percepção, empatia (...)".

Não sei se isso é ruim ou bom, mas senti calafrios ao ler essa passagem.

Eu confesso que estou caminhando no sentido oposto, qual seja, o de me desprender o máximo possível das relações humanas, mantendo apenas o estritamente necessário para o meu lado macaco não pirar. Se um avião cheio de crianças órfãs e deficientes físicas caem num vulcão com lava fervendo, eu tento nem piscar o olho.

Para mim, as pessoas são apenas um aglomerado de moléculas de cuja complexidade surge um fenômeno elusivo chamado consciência, e ficar se preocupando de mais com elas é atrair dor de cabeça desnecessária.

Empatia só é bom na medida necessária para estabelecer uma convivência pacífica entre as pessoas. Ficar se "conectando" a outras seres humanos pode até fazer um bem para algumas pessoas com certas inclinações psicológicas, mas, no geral, me parece ser um "mau negócio".

Ou então eu estou redondamente errado e deveria deixar de passar tanto tempo na frente do computador programando...

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 15:04



Comentário de: Carlos Tapajós

"Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Infinite Jest é o Grande sertão: veredas dos americanos."

Meu deus, que bobagem!

Você tentou comparar um livrão de uma literatura com o livrão de outra para tentar mostrar alguma erudição. Os dois são ótimos, mas compará-los é triste. a) Infinite Jest não tem o conceito que Grande Sertão tem por aqui; b) estruturalmente são completamente diferentes; c) o tema é totalmente diferente. Então onde está a semelhança?

Credo, às vezes as pessoas tentam mostrar conhecimento e só mostram ignorância.

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 17:30



Comentário de: aiaiai

Bom, de minha parte continuo fazendo o exercício da forma que entendi que deveria ser.
Além das caminhadas na praia, essa semana tive que resolver questões burocráticas - fui até num cartório. Nosssssaaaaaa! Tentar me dar conta de todo mundo que tava naquele lugar foi dose, mas até que ajudou a passar o tempo.
No transito também estou tentando, mas não com muito afinco já que não quero causar nenhum acidente. Mas até que dá para reparar em muita gente durante uma parada no sinal, né?
Hoje de manhã foi interessante quando fui comprar frutas num caminhão que para aqui perto de casa. Eu sempre vou lá correndo e volto. Mas hoje fiquei reparando em todo mundo que estava lá, percebi até que tem um menino que trabalha para o cara e eu nunca tinha percebido. os clientes também são muitos e alguns do tipo que passam invisiveis normalmente: velhas, velhos, empregadas (gosto de ir lá bem cedo, assim que ele chega do sítio, e o público desse horário é esse). Eu vi todo mundo, demorei o dobro do tempo que normalmente demoro para comprar minhas frutinhas. mas foi legal.
Acho que devo estar fazendo tudo errado porque não estou me sentindo mal de forma alguma. É até legal. Tem horas que cansa, mas não é desesperador. Daqui a pouco tem caminhada na praia de novo.
depois eu conto.
Mesmo imaginando que estou fazendo tudo errado, posso ajudar no exercício. O alex pode me usar para dizer o que não fazer.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 17:43



Comentário de: Roger Moreira

Não creio que empatia seja dissociável de uma percepção emotiva da realidade. Afastar a emoção é justamente enxergar o outro como objeto, afastar a empatia. A empatia traz uma falsa noção de igualdade que acarreta em sentimento de unidade.

Não que a igualdade não exista, mas a empatia dá a ela uma dimensão falsa fundada no sentimento. Sentimento de estar diante do espelho. O que cria uma errônea percepção de unidade entre eu e minha imagem.

As consequências desse mecanismo vão longe.

*************

Quando falo de salvação é no sentido soterológico mesmo. Todos buscam salvação, sentido para a vida, adequação entre desejo e realidade, conformidade entre o eu e o mundo, etc.

Alguns buscam na religião, outros na arte, na política, no amor, no trabalho, nas grandes causas, nos prazeres, etc, etc.

Posso estar bastante enganado. Se estiver, você melhor do que ninguém saberá. Mas, não estaria você buscando salvação também? Criando seu tipo de humanismo, com teoria, ética, soterologia e tudo o mais? Não tem esse estudo da empatia a ver?

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 21:02



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Carlos Tapajós, não tentei mostrar nada - você que viu muito.

Acima do meu comentário, o Breno disse que o Infinite Jest foi amado, odiado e depois amado novamente.

Daí comentei o comentário dele, que está logo acima do meu, ou seja, não tem erro: está claro que estou comentando o comentário dele, para dizer que o Grande Sertão: veredas também é tratado assim no Brasil.

Quando lançado, grande parte da crítica desceu o pau. (A crítica do Ferreira Gullar é a mais famosa - conhece?) Depois foi moda amá-lo novamente. Depois novamente odiado, e assim sucessivamente.

Foi um comentário simples - você que quis mergulhar numa comparação estrutural, temática, ou sei lá o quê - e talvez ao me acusar de tentar querer mostrar alguma erudição, esteja falando mais sobre si próprio do que de mim.


PermalinkPermalink 08.12.09 @ 21:39



Comentário de: Breno Kümmel

No caso do Infinite Jest o livro foi elogiado no lançamento e vendeu bastante (para os parâmetros de Literatura de verdade), foi só depois que as pessoas começaram a achar que o livro era só as pirotecnias verbais/narrativas da superfície, quando na verdade tem muita coisa por trás.

Mas acho que tem algo de GSV no IJ, especialmente no que diz respeito a quase-impossibilidade de traduzi-lo. o David Foster Wallace não tem nenhum medo da liberdade morfológica do inglês na hora de prefixar e sufixar as palavras de forma original. "Leglessly drunk", por exemplo... o leitor encontra um desse por página, praticamente.

PermalinkPermalink 09.12.09 @ 09:25



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Atualizando o link...

http://manuelcarreiro.com/2009/12/bom-e-velho-neonio-por-david-foster-wallace/

PermalinkPermalink 23.01.10 @ 02:37




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