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Aos leitores que gostam de questionar a si mesmos e ao mundo, eu gostaria de propor um experimento: durante uma semana, tente dar-se conta de todas as pessoas a sua volta.
Introdução
O Mal é a ausência de empatia.
Quando me perguntam qual é o sentido de ensinar literatura, respondo que não é pra "conhecer os grandes autores da nossa língua" ou qualquer outro motivo nacionalista idiota.
A literatura se justifica pedagogicamente porque ela ensina alteridade. Na adolescência, época formativa e impressionável, fase mais egocêntrica do ser humano, é fundamental a habilidade criativa de ser outras pessoas, de viver outros mundos, de criar outras histórias.
Estamos todos acostumados a exercitar músculos e capacidades. Exercitamos os biceps e exercitamos a memória. Por que não exercitar a empatia?
Os exercícios não vão ser fáceis. Como sabem os malhadores, é preciso primeiro levar o músculo ao colapso, para que ele então se regenere e volte mais forte.
Quem vai encarar?
Instruções
- Tentem se ater aos limites de cada exercício, para não atravessar os seguintes.
- Anunciem nos comentários se pretendem seriamente me acompanhar nisso. Só pra eu saber.
- Utilizem os comentários, ou façam posts em seus sites ou blogs, para relatar seus resultados, impressões, lições.
- Hoje é quinta. Quarta que vem, faço um post com a antologia dos melhores comentários, insights e textos de todos vocês. Na quinta que vem, proponho o próximo exercício.
- Ajudem a divulgar, por favor. Façam links para esse post aqui, que sempre vai ter ao final o índice completo da série: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/12/03/empatia
Primeiro Exercício: Dar-se Conta
Durante uma semana, você vai tentar se dar conta de todo mundo a sua volta. Todo mundo. Isso mesmo. Deixe expandir sua consciência. Saboreie o fato de estar cercado de pessoas. Recupere uma certa sensação de estranheza - que nem lembramos de ter perdido - de que cada uma daquelas sombras que passa por nós no shopping é um ser humano exatamente tão complexo, tão sublime, tão apaixonante, tão mesquinho quanto você. Um por um. Todos eles.
Comece pequeno, em ambiente fechado com todos parados, tipo metrô ou ônibus, e só depois tente ir pra rua. Uma hora no primeiro dia, duas horas do segundo, sempre aumentando. O objetivo é chegar no seu limite, parar, ir mais longe no dia seguinte.
Lembre-se que enxergar seus iguais (gente da sua cor, da sua classe social, do seu bairro, que se veste como você) é relativamente fácil: difícil é enxergar os invisíveis, os humildes, os calados, os feios, os tímidos, aqueles que não recebem nem bom-dia. Veja-os todos.
No começo, o esforço de ver cada pessoa como um ser humano pode te consumir tanto que não vai nem conseguir raciocinar: a verdadeira empatia drena nossas energias. A sensação é mesmo de um esforço físico. Com o tempo, pode ficar mais fácil. Ou não.
Não abaixe a cabeça nem desvie os olhos de ninguém - essas nossas reações tão automáticas. Não deixe nenhum transeunte cruzar rapidamente pelo seu rabo de olho. Faça questão de ter visto essa pessoa, de ter considerado sua humanidade individual por pelo menos alguns segundos antes de seguir adiante: aqui está uma pessoa, aqui está outra pessoa, isso aqui também é uma pessoa. Pessoa, pessoa, pessoa.
Evite interagir. Não desvie o olhar mas também não faça contato visual. Encarar já te coloca dentro da história do outro e pode ocasionar uma reação. Para dar-se conta das pessoas a sua volta, você não precisa se mexer, trocar olhares, ser percebido, nada. É discreto e imperceptível.
Não pense muito sobre cada um, quem é, de onde veio, quais são seus sonhos, nada disso. Nem mesmo interaja. Deixemos isso para as próximas lições. Essa primeira tarefa já é bastante difícil.
Se está achando fácil, é porque ainda não tentou. Além de dificílimo, é potencialmente enlouquecedor - mas também fascinante e instrutivo.
Você pode descobrir, por exemplo, que algumas situações (horário de almoço na Av Paulista, Fla-Flu lotado, etc) simplesmente inviabilizam qualquer tipo de empatia. Talvez, num estalo, você entenda toda a violenta história do século XX, ou o preço alto que pagamos por morar em grandes metrópoles, sem nem precisar ler "Psicologia de Grupo e Análise de Ego", do Freud.
Quero saber quais vão ser as suas experiências e os seus insights. Quero saber como esse exercício vai mexer com a sua cabeça.
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Quando minha ex-esposa veio do interior da Amazônia pro Rio, acompanhei com tristeza o endurecimento no seu coração. Em um primeiro momento, cada mendigo era suficiente pra lhe levar às lágrimas. Em poucas semanas, como mecanismo mesmo de sobrevivência, já estava agindo como qualquer carioca e simplesmente ignorava-os todos. (post completo)
Não fazemos isso só com a miséria. Passamos o dia cercados por dezenas, centenas, às vezes milhares de pessoas. É impossível considerá-las todas individualmente. Não só não as olhamos, como nem mesmo pensamos nelas como se fossem gente. Seria humanamente impossível.
Nossa vida cotidiana seria inviável se parássemos para considerar que cada uma daquelas pessoas comendo porcaria na praça de alimentação tem uma vida interior tão rica quanto a nossa. Ou, pior, que cada uma daquelas pessoas comendo restos de comida no lixão tem a nossa mesma capacidade de distinguir um Merlot de um Shiraz.
Pois bem, aviso logo: o objetivo dessa série de exercícios, se bem-sucedida, é justamente tornar a sua vida cotidiana inviável.
Ao final, quem conseguir andar pela Rio Branco ou pela Augusta sem sem se rasgar de desespero é porque não passou.
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Aula de Empatia em Sete Lições:
1 - Dar-se Conta
a. Dar-se Conta
c. David Foster Wallace e o Experimento de Empatia
f. Reflexões dos Leitores
2 - Ver
3 - Extrapolar
4 - Ouvir
5 - Sentir
6 - Interagir
7 - Ser
Todos os textos da série Empatia. Design do botão por Tony Lopes.
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http://twitter.com/AlexCastroLLL
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