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Dar-se Conta (Aula de Empatia em Sete Lições, 1)

Aos leitores que gostam de questionar a si mesmos e ao mundo, eu gostaria de propor um experimento: durante uma semana, tente dar-se conta de todas as pessoas a sua volta. Poder da Empatia

Introdução

O Mal é a ausência de empatia.

Quando me perguntam qual é o sentido de ensinar literatura, respondo que não é pra "conhecer os grandes autores da nossa língua" ou qualquer outro motivo nacionalista idiota.

A literatura se justifica pedagogicamente porque ela ensina alteridade. Na adolescência, época formativa e impressionável, fase mais egocêntrica do ser humano, é fundamental a habilidade criativa de ser outras pessoas, de viver outros mundos, de criar outras histórias.

Estamos todos acostumados a exercitar músculos e capacidades. Exercitamos os biceps e exercitamos a memória. Por que não exercitar a empatia?

Os exercícios não vão ser fáceis. Como sabem os malhadores, é preciso primeiro levar o músculo ao colapso, para que ele então se regenere e volte mais forte.

Quem vai encarar?

Instruções

- Tentem se ater aos limites de cada exercício, para não atravessar os seguintes.

- Anunciem nos comentários se pretendem seriamente me acompanhar nisso. Só pra eu saber.

- Utilizem os comentários, ou façam posts em seus sites ou blogs, para relatar seus resultados, impressões, lições.

- Hoje é quinta. Quarta que vem, faço um post com a antologia dos melhores comentários, insights e textos de todos vocês. Na quinta que vem, proponho o próximo exercício.

- Ajudem a divulgar, por favor. Façam links para esse post aqui, que sempre vai ter ao final o índice completo da série: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/12/03/empatia

Xkcd

Primeiro Exercício: Dar-se Conta

Durante uma semana, você vai tentar se dar conta de todo mundo a sua volta. Todo mundo. Isso mesmo. Deixe expandir sua consciência. Saboreie o fato de estar cercado de pessoas. Recupere uma certa sensação de estranheza - que nem lembramos de ter perdido - de que cada uma daquelas sombras que passa por nós no shopping é um ser humano exatamente tão complexo, tão sublime, tão apaixonante, tão mesquinho quanto você. Um por um. Todos eles.

Comece pequeno, em ambiente fechado com todos parados, tipo metrô ou ônibus, e só depois tente ir pra rua. Uma hora no primeiro dia, duas horas do segundo, sempre aumentando. O objetivo é chegar no seu limite, parar, ir mais longe no dia seguinte.

Lembre-se que enxergar seus iguais (gente da sua cor, da sua classe social, do seu bairro, que se veste como você) é relativamente fácil: difícil é enxergar os invisíveis, os humildes, os calados, os feios, os tímidos, aqueles que não recebem nem bom-dia. Veja-os todos.

No começo, o esforço de ver cada pessoa como um ser humano pode te consumir tanto que não vai nem conseguir raciocinar: a verdadeira empatia drena nossas energias. A sensação é mesmo de um esforço físico. Com o tempo, pode ficar mais fácil. Ou não.

Não abaixe a cabeça nem desvie os olhos de ninguém - essas nossas reações tão automáticas. Não deixe nenhum transeunte cruzar rapidamente pelo seu rabo de olho. Faça questão de ter visto essa pessoa, de ter considerado sua humanidade individual por pelo menos alguns segundos antes de seguir adiante: aqui está uma pessoa, aqui está outra pessoa, isso aqui também é uma pessoa. Pessoa, pessoa, pessoa.

Evite interagir. Não desvie o olhar mas também não faça contato visual. Encarar já te coloca dentro da história do outro e pode ocasionar uma reação. Para dar-se conta das pessoas a sua volta, você não precisa se mexer, trocar olhares, ser percebido, nada. É discreto e imperceptível.

Não pense muito sobre cada um, quem é, de onde veio, quais são seus sonhos, nada disso. Nem mesmo interaja. Deixemos isso para as próximas lições. Essa primeira tarefa já é bastante difícil.

Se está achando fácil, é porque ainda não tentou. Além de dificílimo, é potencialmente enlouquecedor - mas também fascinante e instrutivo.

Você pode descobrir, por exemplo, que algumas situações (horário de almoço na Av Paulista, Fla-Flu lotado, etc) simplesmente inviabilizam qualquer tipo de empatia. Talvez, num estalo, você entenda toda a violenta história do século XX, ou o preço alto que pagamos por morar em grandes metrópoles, sem nem precisar ler "Psicologia de Grupo e Análise de Ego", do Freud.

Quero saber quais vão ser as suas experiências e os seus insights. Quero saber como esse exercício vai mexer com a sua cabeça.

* * *

Xkcd

Quando minha ex-esposa veio do interior da Amazônia pro Rio, acompanhei com tristeza o endurecimento no seu coração. Em um primeiro momento, cada mendigo era suficiente pra lhe levar às lágrimas. Em poucas semanas, como mecanismo mesmo de sobrevivência, já estava agindo como qualquer carioca e simplesmente ignorava-os todos. (post completo)

Não fazemos isso só com a miséria. Passamos o dia cercados por dezenas, centenas, às vezes milhares de pessoas. É impossível considerá-las todas individualmente. Não só não as olhamos, como nem mesmo pensamos nelas como se fossem gente. Seria humanamente impossível.

Nossa vida cotidiana seria inviável se parássemos para considerar que cada uma daquelas pessoas comendo porcaria na praça de alimentação tem uma vida interior tão rica quanto a nossa. Ou, pior, que cada uma daquelas pessoas comendo restos de comida no lixão tem a nossa mesma capacidade de distinguir um Merlot de um Shiraz.

Pois bem, aviso logo: o objetivo dessa série de exercícios, se bem-sucedida, é justamente tornar a sua vida cotidiana inviável.

Ao final, quem conseguir andar pela Rio Branco ou pela Augusta sem sem se rasgar de desespero é porque não passou.
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* * *

Aula de Empatia em Sete Lições:
1 - Dar-se Conta

a. Dar-se Conta

b. Sobre o Primeiro Exercício

c. David Foster Wallace e o Experimento de Empatia

d. Vale a Pena Tentar?

e. Primeiros Resultados

f. Reflexões dos Leitores

2 - Ver
3 - Extrapolar
4 - Ouvir
5 - Sentir
6 - Interagir
7 - Ser

Empatia, por Alex Castro

Todos os textos da série Empatia. Design do botão por Tony Lopes.

* * *

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* * *

http://twitter.com/AlexCastroLLL

 

03.12.09


Categorias: Comportamento, Empatia


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(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

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Comentários:


Comentário de: Alex Luna · http://www.tarrask.com/blog

Tá, topei.

Mas só porque estou em fase de escrever, tenho o dia livre e enlouquecer no meio das Ramblas vendo milhares de pessoas fazendo compras de natal pode ser uma experiência bizarra. Já blogarei sobre isso.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 07:28



Comentário de: Mário Marinato · http://www.osarcofago.blogspot.com

Cacete, Alex, eu estou há duas semanas cozinhando um texto sobre o mesmo assunto. Tenho parado muito para pensar sobre isso, e cada vez mais me convenço de que é preciso estourar a bolha que criamos em torno de nós quando saímos de casa.

Eu pego um ônibus com mais 70 pessoas e não olho pra ninguém (talvez para as pernas de uma ou outra mulher), depois encaro a barca com mais 1200 pessoas, sem novamente olhar pra ninguém. À tarde faço o trajeto de volta.

E então me pergunto: será que dói muito estourar a bolha? O que os outros vão pensar? Devo arriscar e estourar a maldita bolha? Cada dia que passa, a resposta para a última pergunta vai ganhando um "sim" ainda mais enfático.

E agora você me aparece com essa.

Só é pena que nas últimas aulas eu estarei de férias e não vou poder acompanhar.

Obrigado pelo empurrãozinho.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 07:33



Comentário de: Amora.

Eu tentei fazer isso uma vez, Alex. Começou por diversão... mas acabou sendo nada divertido. Desistí no primeiro dia.

É mais ou menos assim: quando você passa na rua e olha diretamente nos olhos das pessoas, toda a energia delas te consome. Alguns homens acharam que estavam sendo paquerados, pasme, por causa de 03 segundos de um olho no olho. Houve uma senhora que até tocou no meu braço e disse "obrigado minha filha". As vezes, só de olhar no olho de alguém, ainda que por um tempo ínfimo, eu era capaz de "captar" o momento de vida da pessoa: tristeza, alegria, decepção, medo. É como se uma parte secreta das pessoas fosse revelada à você, sem que vc ou a outra pessoa quisessem. Veja, não há nada de espiritual ou místico nisso. É apenas uma interação natural e muito desconfortável.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 08:23



Comentário de: Robson Rogerio · http://bordadomundo.blogspot.com/

Bom já tenho uma certa tendência a reparar nessas pessoas menos favorecidas, hoje de mannhã notei uma mãe com um bebê no colo e uma outra criança um pouco maior caminhando sem rumo no canteiro central de uma grande avenida aqui de SP, em outro ponto vi um garoto de rua dormindo dentro de meia caixa de isopor. Vamos aperfeiçoar então.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 08:33



Comentário de: Breno Kümmel

Sobre empatia: http://tocurryfavor.blogspot.com/2008/09/this-is-water-dfws-2005-kenyon.html

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 09:39



Comentário de: Rachel

Tentarei, começando hoje (apesar de não me achar das menos empáticas, sou carioca e ignoro mendigo. Se reparo, fico deprimida), mas será que dá pra conciliar com as várias mini obrigaçõeas do dia?

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 11:00



Comentário de: Alexandra · http://guerson.wordpress.com

O meu marido anda pela rua assim. Ele faz questão de olhar todo mundo e dar bom dia pra todo mundo. O pessoal aqui em Toronto até se assusta. E desde que ele leu em algum lugar que uma das coisas mais difíceis para os mendigos é o fato de serem ignorados, de serem "invisíveis", ele faz questão de olhar todos nos olhos, sorrir, e explicar que não tem nada pra eles mas que espera que eles tenham mais sorte. A reação é sempre surpreendente - por mais desesperado que seja o mendigo ele fica super feliz em ser reconhecido como ser humano...

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 11:25



Comentário de: JCCyC · http://rsnda.blogspot.com

Alexandra, eu bem que aceitaria o desafio do Alex se eu vivesse em Toronto. Mas aqui no Rio não é um miserável aqui e outro ali, é um tsunami de miséria... e o assustador é que existem lugares no mundo muito piores.

Tenho medo pela minha sanidade. Não encaro não. Só de pensar, com as informações que tenho disponíveis, já dá vontade de bater com a cabeça na parede.

No calor é pior. Quanta gente é obrigada a viver dentro de fornalhas 24 horas por dia? Fico doente só de imaginar.

Agora dá licença que preciso me recolher por algumas horas em posição fetal e chupando o dedo.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 12:06



Comentário de: Alexandra · http://guerson.wordpress.com

JCCyC,

Eu sei. É difícil mesmo. Eu sempre me sinto muito mal quando vou ao Brasil e olha que faz tempo que não vou ao Rio. Mais assustador ainda era no nordeste...

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 12:29



Comentário de: Alex Castro Email

Alguns esclarecimentos:

"quando você passa na rua e olha diretamente nos olhos das pessoas, toda a energia delas te consome."

não olhem ninguém no olho. isso já é uma forma de interação.

"hoje de mannhã notei uma mãe com um bebê no colo e uma outra criança um pouco maior"

uma pessoa ou outra a gente sempre nota. o exercício é tentar notar TODO MUNDO.

"mas será que dá pra conciliar com as várias mini obrigaçõeas do dia?"

com certeza, não. por isso acho mais importante fazer por pouco tempo por dia, e ir aumentando.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 13:15



Comentário de: Haline · http://www.halinices.blogspot.com

Poxa, mas logo no natal??? Tenho medo de odiar as pessoas!! rs

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 13:22



Comentário de: Vanessa · http://www.vanprates.blogspot.com

enlouquecedor é pouco.

eu ainda me entrego demais a cada olhar que passa por mim; talvez seja por essa razão que acabei virando uma menina má...

uma proteção?

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 13:47



Comentário de: EU

Alex,

Sem querer ser piegas...
Jà lhe disse que, além de culto e inteligente, vc parece ter um super coraçao?
Tudo de bom e bonito pra vc, colega.

Um grande abraço, e minha admiraçao.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 14:59



Comentário de: Alex Castro Email

"Jà lhe disse que, além de culto e inteligente, vc parece ter um super coraçao?"

Tenho não, juro. Sou egoísta, egocêntrico, auto-centrado, vaidosa. Aliás, é por isso que preciso de exercicios como esses.

Mas obrigado.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 15:04



Comentário de: Alex Goblin

Ok, eu topo.
O final do semestre está aí com todas as suas provas, por que não mais um motivo pra enlouquecer?!

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 15:12



Comentário de: dra_lulu

repetindo twitter
vc garante a vaga de internação num manicomio depois??? \

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 15:50



Comentário de: Adam · http://suspensaodejuizo.wordpress.com

Já que pediu para avisar, vou tentar a sério também, e comento qualquer coisa interessante que ocorrer.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 16:14



Comentário de: Júlia · http://innuendoblues.blogspot.com/

http://innuendoblues.blogspot.com/2009/10/toda-vez-que-eu-vejo-palavra-cravado-no.html

http://innuendoblues.blogspot.com/2009/11/all-kings-horses.html

http://innuendoblues.blogspot.com/2009/09/carry-light-to-distant-unknown.html

http://innuendoblues.blogspot.com/2009/05/pollyana-17-anos-e-levemente-menos.html (um dos meus favoritos)


(Alguns são ficcionais, mas só até ali, como aliás boa parte das ficções, que saem inteiramente da cabeça do autor só até ali.
Esse é, claramente, o meu jeito de "me dar conta" dos outros. E tem coisa escondida no meu pc que não tive coragem de publicar.)

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 17:40



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Seu exercício me lembrou um texto do David Foster Wallace:

Original, THIS IS WATER, em inglês:

http://www.moreintelligentlife.com/story/david-foster-wallace-in-his-own-words

Uma transcriação, em português, com o título A LIBERDADE DE VER OS OUTROS:

http://thahy.com/personalidades/foster/

Vou aproveitar pra deixar o endereço de outro texto dele sobre o mesmo tema - desta vez, trescriado por mim, no meu blog:

http://manuelcarreiro.com/2009/06/bom-e-velho-neonio-por-david-foster-wallace/




PermalinkPermalink 03.12.09 @ 18:01



Comentário de: Alex Castro Email

valeu jasao!

eu ia fazer um post com esse discurso em breve, mas nao tinha a traducao :)

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 18:05



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Li isso no seu twitter:

"Qt + vivo, + percebo q verdadeira humanidade está ñ em inteligência, raciocínio e conhecimento, mas sim em consciência, percepção, empatia"

e queria dizer que esse é um aprendizado pra lá de difícil, viu... como todos os aprendizados essenciais.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 18:08



Comentário de: no woman no cry

Mulher, infelizmente, não tem como fazer isso. Pode até ser perigoso.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 19:31



Comentário de: Alex Castro Email

" Mulher, infelizmente, não tem como fazer isso. Pode até ser perigoso. "

se dar conta das pessoas a sua volta é totalmente imperceptivel. vc nao precisa se mexer, nem fazer contato visual, nem ninguem precisa saber.

e sim, eu sei, q pra uma mulher, realmente, fazer contato visual com todo mundo seria perigoso. mas o exercicio nao tem nada a ver com isso.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 19:40



Comentário de: Amanda

Irei tentar. Mas estou em uma fase egocêntrica.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 20:23



Comentário de: Vanessa · http://www.vanprates.blogspot.com

Amanda,

Ainda assim dá. O egocêntrico, ao meu ver, só não consegue exercitar a compaixão kunderiana...

O Alex, por exemplo, é egocêntrico, egoísta e vaidosíssimo, mas ele consegue...

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 20:57



Comentário de: Alex Castro Email

a vanessa parece q já me conhece direitinho...

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 20:59



Comentário de: Artur

Estou vivendo um paradoxo: com 30 anos de idade, estou vivendo a fase mais egocêntrica e talvez egoísta da minha vida até agora e adorando! Ao mesmo tempo, dia após dia estou, com alguma dificuldade, me desprendendo de (quase) tudo e (quase) todos. Isso é angustiante algumas vezes e libertador a maior parte do tempo.
Hoje tentei praticar uns 20 minutos, meia hora do primeiro exercício, algo que eu já fazia um pouco mas não com tanta atenção. Não fui tão bem.
Estou agora com uma leve dor de cabeça talvez pq fiquei um tanto chocado por me dar conta do garoto de rua deitado em frente a uma agência bancária enquanto pessoas entravam e saiam apressadas da agência. Num breve instante pensei em oferecer a ele algo para comer. Mas não o fiz.
Próximo de casa havia um homem caído ao lado de sua carroça e ele apertava com desespero sua cabeça e tentava ao mesmo tempo se levantar e não conseguia. O olhei nos olhos e parecia gritar por socorro, mas continuei em frente, já bastante abalado. Queria esquecer e não consegui.
Bom, essas foram duas cenas de 3 ou 4 segundos que pareceram filmes inteiros rodando na minha mente. Espero conseguir dormir bem hoje.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 21:59



Comentário de: Fabio Robbe

Alex, dessa vez vc viajou mesmo. Fazer oficina literária no blog? Pra começar, não acho que literatura tenha a ver muito com alteridade, mas isso é opinião. O exercício que vc propôs, acho que todo aspirante a escritor já fez ou vive fazendo. De qualquer forma, confesse que é um peoplewatcher.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 23:24



Comentário de: Aurelio Ibayo

Alex Castro dando aulas de empatia????? Hilario....!! Deve ter descoberto essa ideia ontem...

depois vem aqui mostrar o novo brinquedo pra turma...

Alex e empatia.. vinagre e azeite, nao se misturam.

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 23:26



Comentário de: julio · http://umamentecheia.blogspot.com/

vou tentar
pode ate ser legal.
os resultados e pra escrever no meu blog?

PermalinkPermalink 03.12.09 @ 23:35



Comentário de: Ulisses Adirt · http://incautosdoontem.opsblog.org/

Vamos lá, amigo. Pode bagunçar meu cotidiano. :-)

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 00:46



Comentário de: Ana

Eu passei praticamente pelo sentido oposto desse exercicio. Primeiro aprender a conscientemente fingir que não via as pessoas na rua, nos lugares isso pela minha sanidade e proteção. Depois, por motivos tanto pessoais quanto profissionais aprendi a diferenciar empatia de saber o que o outro sente, entender e "relate to it" e sentir junto. Preciso saber não sentir o sofrimento junto ou não poderia ajudar, ele me paralizaria, ficaria apenas sofrendo com o outro e tanto quanto se tivesse um corte profundo não poderia fazer o que preciso fazer.

As vezes me sinto insensivel por isso, mais fria, especialmente quando vejo os outros descobrindo o sofrimento das outras pessoas e sofrendo tanto junto, eu já sabia, eu sei, mas não sofro junto. Mas talvez seja apenas que não é novidade pra mim. Eu vi o moço no posto de gasolina, a menina atravessando a rua, a moça limpando o chão, a senhora catando latinhas, a menina na caixa do supermercado, o homem de terno na rua, as pessoas no ponto de onibus.

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 01:59



Comentário de: Alex Castro Email

O egocêntrico, ao meu ver, só não consegue exercitar a compaixão kunderiana...

o que é a compaixão kunderiana, meu deus?

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 05:00



Comentário de: Alex Castro Email

Aurelio,

pq ao invés de ficar pensando em quem eu sou ou como eu sou, vc simplesmente não pensa no exercicio? se achar que é uma boa ideia, tente fazer. se achar má idéia, não faça...

quem eu sou ou deixo de ser é totalmente irrelevante...

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 05:01



Comentário de: Alex Castro Email

Alex, dessa vez vc viajou mesmo. Fazer oficina literária no blog? Pra começar, não acho que literatura tenha a ver muito com alteridade, mas isso é opinião. O exercício que vc propôs, acho que todo aspirante a escritor já fez ou vive fazendo. De qualquer forma, confesse que é um peoplewatcher.

Hmm, o q estou propondo não tem nada a ver com oficina literária... como disse pro outro moço, se achar boa idéia, tente. se não, não tente....

mas nao tem nada a ver com literatura ou com ser escritor...

e, sim, sou peoplewatcher. e isso lá é pecado pra ter q ser confessado?

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 05:03



Comentário de: Artur

Não dei a devida atenção a cada um que observei ontem e acabei me concentrando em, sei lá, meia dúzia de pessoas vivendo um instante breve de suas vidas e que ainda continuam como um filme na minha mente.
Hoje vindo para o trabalho, dentro do ônibus acho que consegui observar, sem me aprofundar, um número bem maior de pessoas. Observei dentro e fora do ônibus.
Esse exercício é estranho (ninguém disse que não é;), pois hoje me pareceu uma manhã tão comum quanto qualquer outra do meu dia a dia.
Vi policiais expulsando alguns mendigos que dormiam/consumiam drogas encostados a um muro, sob uma fina garoa que cai sobre o centro de São Paulo. Procurei não analisar a situação, mas uma certa curiosidade me manteve olhando uns segundos além do "planejado". Enquanto isso, várias pessoas no ônibus olhavam a cena, sei lá, com curiosidade.
Notei pessoas evitando encostarem em outras, mesmo dentro de um ônibus "meio lotado" (não encontrei termo melhor). Isso eu noto sempre, em todo lugar. Até eu faço isso muitas vezes. Nem sempre consigo.

Não é fácil notar nos outros um mundo tão complexo quanto o meu. A impressão que me passa é que os outros estão em algum extremo: ou maravilhosamente bem ou terrivelmente mal. Apenas eu oscilo.

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 09:14



Comentário de: ana

Bom, eu não me considero em uma bolha, quando viajo a essas grandes metropoles me sinto triste e perdida, devido ao grande numero de pessoas em extrema necessida que encontro. Mas acredito que eu poderia melhor esse meu lado ainda mais... Talvez tentando perceber isso na minha cidade. Que é uma cidade pequena de 25 mil habitante , onde grande maioria é da zona rural. Aqui não se vê tanta pobreza como nas grandes cidades! MAs eu vou fazer exercicio!

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 09:46



Comentário de: paty · http://patfraga.blogspot.com/

Alex,
Acabo de conhecer seu blogo e achei muito legal. Acredito na idéia da empatia como forma de se ter uma vida mais suave e feliz.
Vou tentar o exercício, embora concorde com os que disseram acima que é difícil e demanda tempo. Mas vamos ver...
Abs

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 10:02



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Ah ...Eh.... Não!

Obrigado eu passo essa,na proxima talvez!

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 13:33



Comentário de: JCCyC · http://rsnda.blogspot.com

Aurélio Ibayo:

Por que você sente a necessidade de escrever posts como esse? O que te leva a isso? O que você espera conseguir com isso?

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 14:15



Comentário de: Isis

Alex, voce tem interesse em pessoas que estao no Canada e nos EUA (imagino que sim mas prefiro conferir). Gostaria fazer parte da aula --vou para Canada hoje, do jeito que terei um bom lugar para tentar empatizar (com bondes, centros, multitudes), melhor do que a vazia Columbia!

Obrigada, gostei muito da ideia. Acho sempre estoy empatizando mas nao como CADA UMA das pessoas que vejo num dia.

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 14:21



Comentário de: Isis

Isto:

voce tem interesse em pessoas que estao no Canada e nos EUA?
era uma pergunta mas nao saiu assim!

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 14:21



Comentário de: Alex Castro Email

isis,

qq um, em qq lugar! ainda mais vc, claro!

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 14:44



Comentário de: Isis

Alex,
apenas sai do security point do aeroporto, me lembrei do exercicio de empatia e tentei comecar a practica-lo. Quando comecei a olhar a TODAS essas pessoas sentadas na zona de comidas, achei dificil demais empatizar com cada uma, olhar nelas e tentar adivinhar seus pensamentos e suas emoçoes (parte da empatia, nao é?). Achei dificil mas vou continuar tentanto em Washington DC tambem no aeroporto, lotado de familias, viajantes mais velhos, vai ser interessante. Acho que na empatia tem tambem algum aspeto de vicariedade. Tambem é dificil fazer isto num aeroporto, talvez deve-se a situacao de expectativa dos viajantes --além do que sempre tem algum viajante que nao conseguiu chegar a destinaçao antes do perder a alguma pessoa queridissima.

Impressoes avulsas:
E dificil olhar em pessoas e conseguir que elas nao te olham direito nos olhos, finalizando assim o exercicio de empatia.
Eu sou de olhar muito nas pessoas, tentando empatizar e adivinhar parte da sua intimidades (ou inventar alguma intimidade para elas) mas sempre escolho um ponto focal, jamais tento empatizar com todas as pessoas. Obrigada pelo desafio, entao.
A atitude de olhar constantemente, como deslumbrada pelo mundo ao meu redor me faz lembrar o que fazia quando era menina e olhava muito a uma pessoa, depois a outra, etc. e meus companheiros de aula diziam "Do you have a staring problem?" como se nao fosse socialmente aceitavel olhar demais (a fato de olhar assim supoe uma inversao emotiva grande demais o uma lentidao da mente?)

Mando noticias mais tarde :)

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 17:11



Comentário de: aiaiai

Eu já acho que empatizo (existe essa palavra?) demais. Mas não conscientemente. Vou começar já. To saindo para ir caminhar na praia. Depois conto procês.

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 17:19



Comentário de: Ulisses Adirt · http://incautosdoontem.opsblog.org/

Primeiro dia de exercício: Alex... simplesmente não dá. Moro em Sampa. Quando percebo, automaticamente já descartei meio mundo. Sem perceber (ou, as vezes percebendo), ignoro algumas pessoas para poder olhar outras.

Continuarei tentando.

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 19:45



Comentário de: Tathiana

tentei fazer ontem. Estava no ônibus, indo para o curso e comecei a tentar olhar todas as pessoas. Quando parou em frente a uma padaria e eu comecei a olhar, tive um certo tempinho, foi me dando uma angústia tremenda, imaginando aquelas pessoas lá dentro com tanta coisa dentro delas, tanta história para contar, tanto que nem que sentasse e só ouvisse por dias ia absorver tudo. Não consegui chegar de novo nesse ponto, mas era isso que vc queria?

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 20:55



Comentário de: Draupadi · http://didascaliae.blogspot.com

nossa, não sei se porque sempre estou sempre me dando conta de uma parcela considerável das pessoas que estão ao meu redor, não vi muita utilidade no exercício...
sempre gostei desse 'passa-tempo' qdo estou caminhando, andando de onibus, de metro... por isso não gosto de ouvir música nem de ler... prefiro observar (talvez o fato de ser atriz tenha inclusive transformado o hábito em 'exercício de campo').
Claro que faço isso sempre numa escala do viável e do suportável - o que mostra que eu deveria radicalizar isso para 'cumprir a lição'.
Mas de verdade eu não vejo muito sentido nisso...




PermalinkPermalink 04.12.09 @ 21:01



Comentário de: Draupadi · http://didascaliae.blogspot.com

ah, detalhe.. em épocas em que eu estou com algum problema que mexe muito comigo [sobretudo qdo eu tinha uns rompantes de angústica, imcompreensão, crises epistemológicas e etc...], isso do 'dar-me conta' chegava ao limite do insuportável.. eu andava nas ruas a ponto de explodir no choro a qualquer instante e sempre pensava: meu deus do céu, como essas pessoas todas conseguiram sobreviver a todos os problemas que já enfrentaram? E todos que ainda vão enfrentar??? aaaaaaahhhhhhhhhhhhhh

"Me vejo no que vejo, como entrar por meus olhos em um olho mais limpido / Me olha o que eu olho, é minha criação isto que vejo / Perceber é conceber águas de pensamentos. Sou a criatura do que vejo."

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 21:04



Comentário de: Rita · http://www.estradaanil.com

Olá, Alex

Vou tentar. Você saberá se continuo na "brincadeira" se eu publicar um post sobre o assunto até terça-feira. Se o fizer, passo por aqui e aviso.

Abçs,
Rita

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 22:09



Comentário de: Edmilson

Eu fiz algo parecido com esse exercício a minha vida toda. Sempre que tinha uma oportunidade parava pra prestar bastante atenção as pessoas a minha volta.

E eu ia além. Com minha mente imaginativa e começava a "adivinhar" o que os outros estavam pensando de mim quando me olhavam. Isso sim era egocentrismo. Como se todos parassem pra pensar em mim.

Mas, como minha mente era pessimista, só os piores cenários possíveis prevaleciam. E geralmente ficava suando e as vezes passava mal.

Esse exercício eu não faço. Não quero estragar minha semana. Nem voltar a depressão.

Gostei do quadrinho. É exatamente assim que eu penso várias vezes quando estou no ônibus. Egocentrismo é pouco.

Mas, como já disse Douglas Adams, num universo vasto como o nosso, uma coisa que não podemos ter é senso de proporção.

PermalinkPermalink 04.12.09 @ 22:49



Comentário de: Rita · http://www.estradaanil.com

Olá, Alex.
Publiquei um post no Estrada Anil com minhas impressões sobre sua proposta. Espero você por lá para trocarmos uma ideia.

Abçs,
Rita

PermalinkPermalink 06.12.09 @ 01:55



Comentário de: Renata

Oii

Não sei se eu entendi certo... mas pelo que eu li, entendi que esse primeiro exercicio é para apenas perceber a presença, dar se conta que há alguem ali, passar ao lado de alguem e perceber a vida ao seu lado, seja essa pessoa qual for, ver apenas isso, uma presença, uma pessoa como nós, enxergar a vida que nos cerca, notei nos comentarios as pessoas contando que vêem pessoas e observam tentando desvendar seus sentimentos, sonhos enfim, tentando mostrar a impressão que tiverão das pessoas... Ai então fiquei confusa, o que tenho que fazer é olhar cada pessoa e tentar abstrair o que ela parece estar sentindo? Ou apenas olhar-la sentido a presença humana que há em cada ser, sem tentar explicar o que cada pessoa me imprimi, apenas sentir que estou passando perto de vidas como a minha e não apenas perto de postes. Alguem pode me dar uma explicadinha?
Obrigada!!!

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 01:26



Comentário de: alex castro

renata,

vc entendeu td bem e estah se deixando confundir pelos q nao entenderam :)

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 01:39



Comentário de: Luciana

Que coincidência encontrar esse post justo agora. Voltando do metrô agora de manhã notei, numa mesma esquina, à esquerda, um cachorro de rua magro e visivelmente abandonado. À direita, um morador de rua, igualmente magro e abandonado.

O que me deixou balançada foi notar que eu me solidarizei com o cachorro em primeiro lugar.

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 12:24



Comentário de: Sordello

Imagino que mesmo por auto defesa seja natural reparar as pessoas, ainda mais quando se vive em uma grande cidade; bem ou mal, vc acaba ficando atento a potenciais riscos e, logo, às pessoas também.

Indo mais a fundo, acho que em São Paulo as pessoas também vivem assim - pelo menos na Av. Paulista, que deve ser o lugar preferido de todo estrangeiro, para ver a cidade acontecer...

Enquanto no Rio não, as pessoas em São Paulo vivem assustadas, a maioria das meninas segura tão firme a alça da bolsa que se faz um triângulo - e por uma conclusão óbvia tendo a achar que essas pessoas, embora tenham alguma vida interior, orientam-se por uma fome cega pelo trabalho, é um medo muito latente. Ou entregam-se ao oposto disso, como se essa vida toda não lhes fizesse o menor sentido - são mais os jovens que vivem pelos bares da Augusta e da Roosevelt.

No Rio não. E não é só nas praias que as pessoas sentem mais desejo (em todos os sentidos, do sexual ao sentimento mais singelo de uma mera alegria). Mesmo sabendo dos perigos da cidade, andam com suas bolsas frouxas, o iPod à vista, o corpo como um símbolo delicioso de si mesmas. Escondem-se menos, preocupam-se menos, comunicam-se mais (e durante um tempo eu achei isso muito estranho).

Na Bahia, há uma separação racial/social muito gritante. Os mais pobres a gente só vê da janela do carro, porque até mesmo a Fonte Nova está fechada! rs A Classe Média foge descaradamente para praias distantes do Centro ou esconde-se dentro de shoppings (tanto que lá há o maior shopping da América Latina). Mas mesmo pelas janelas do carro (lembrando a música "Esquadros" da Adriana Calcanhotto), há uma coisa totalmente diferente de tudo quanto é lugar. Não sei se é porque sou de lá, embora pouco tenha vivido, mas nos baianos que vivem pelas ruas, trabalhando ou mendigando, há uma certa força, certa alegria... que não se encontram em nenhum canto. É o corpo também à mostra, mas com um gingado que esconde sei lá o quê.

Mas essa experiência, obviamente, deve ser mais frutífera em cidades interioranas - ou até mesmo dos EUA, porque no último caso o ato "estrangeiro", tanto de ser de outro país quanto de buscar diferenciar-se do outro, é bem mais fácil, não há os riscos, tanta miséria...

Enfim, vou acompanhar os próximos capítulos, mas não sei não hein...

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 13:56



Comentário de: Alex Castro Email

sordello, realmente, não sei onde vc mora, mas não poderia discordar mais. em cidades grandes e cheias de miséria, como o rio e sp, acaba-se tendo que literalmente não ver e bloquear a miséria da visão para podermos levar a vida. em cidades pequenas, é muito mais fácil de as pessoas de fato se verem.

mas vc devia entao tentar fazer o experimento em ambos lugares...

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 14:02



Comentário de: Sordello

Alex,

Vivo em São Paulo, sou baiano, morei em Minas e ultimamente estou apaixonado pelo Rio... Você talvez me conheça, mas deixa pra lá.

Embora me esforce em ignorar a miséria/violência, uma parte do que é proposto eu sempre o fiz ainda que inconscientemente, sem pensar que o estivesse fazendo com o objetivo de fazê-lo. rs

De qualquer modo, me parece uma experiência interessante. Vamos ver no que é que dá.

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 16:32



Comentário de: Adam · http://suspensaodejuizo.wordpress.com

Narro minhas primeiras experiências. Destaco que moro e trabalho no Plano Piloto de Brasília, para dar contexto.

Comecei o experimento quinta-feira passada. Fui ao trabalho observando as pessoas. A cidade é vazia, era fácil notar cada um da minha casa ao ônibus. Alguns podem ter passado desapercebido, mas consegui notar praticamente todos.

No ônibus, vi bastante pessoas, mas era um conjunto "estável": demorava algum tempo para entrar alguém. Olhei então para as ruas: garis, ambulantes, vendedores em suas lojas etc.

Confesso que o resultado foi justamente o contrário do que esperava: fiquei feliz de ver tantas pessoas à minha volta.

Passear pela cidade não iria ajudar muito: todos eram semelhantes a mim. Resolvi ir para a Rodoviária do Plano Piloto, o hub do DF. No dia seguinte, saí do trabalho para lá, e resolvi ficar uma hora observando as pessoas.

Foi uma experiência diferente: havia pessoas em filas para ir para o Entorno (uma viagem longuíssima em ônibus lotados), pedintes, vendedores de doces e uma variedade maior de classes sociais. Era muito difícil prestar atenção em todos: havia muita gente; esforcei-me, entretanto. Senti muita empatia também: na verdade, muitas das pessoas pegavam ônibus que eu mesmo tomava há alguns anos, para lugares onde morei.

Como o ambiente não era novidade para mim, não posso dizer que fiquei chocado. Tive uma sensação, como uma arritmia cardíaca não física, e devo ter parecido um perdido para a maioria das pessoas... Mas não fiquei "insano" ou achei a situaç]ap insuportável. O desconforto foi me concentrar em observar todos: era muita gente, o esforço muito grande.

A maior parte das pessoas na Rodoviária não pareciam tão diferentes de mim. Há, porém, um canto onde ficam sem-tetos e drogados; fui lá vê-los.

De fato, foi bem mais impactante. Por mais que sempre me doesse vê-los, nunca tinha pensado em suas habilidades e potenciais. Foi ainda pior ver as mães com seus bebês, os adolescentes cheirando solvente. Entretanto, não fiquei tão abalado quanto esperava.

O choque maior foi por um erro que cometi. Fiquei tão curioso por essas pessoas que resolvi passar entre algumas delas, para observá-las melhor. Isso fugia totalmente do exercício: é óbvio que eles não estão acostumados com traseuntes, eu iria influenciar o cenário. Como era inevitável, um dos adolescentes fez contato visual comigo, e acabou fazendo sinal de "legal" para mim. Bem, o que eu ia fazer? Retribui com o mesmo sinal.

Olha, não tive nenhuma dessas sensações dramáticas que você valou... Será que estou fazendo algo de errado? Alguma sugestão?

Amanhã, devo tentar de novo. Até!

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 00:43



Comentário de: FlaviaQ

Alex,

Eu faço isso há anos, involuntariamente, nao sei nem porque. Vou contar o que faço e depois eu vou ver se é a mesma coisa que você está propondo.

Sempre que eu estou de bobeira, num restaurante, numa fila, no ônibus... seilá... eu dou primeiro uma olhada geral até achar algum individuo com algum detalhe bem bizarro que me chame a atençao. Pronto, começa. Eu reparo a postura, a roupa, o estado de espirito, se a pessoa está acompanhada, como ela é a relação dela com o outro, qual é a conversa, como a pessoa fala, do que ela fala... começo a construir a personalidade da pessoa dentro da minha cabeça com as peças que vou encontrando. Isso me dá um prazer incrivel. Ver a humanidade do outro. Reparar tudo de pequeno que a pessoa possa ter. Criar um passado e futuro pra elas na minha cabeça... reparar em cada centimetro da sua empolgaçao ridicula, seus problemas banais, ou trágicos, a importancia que está dando a eles... Ivariavelmente me dou conta de como elas se acham o centro do mundo. Reparo que algumas se envergonham disso. Andam de cabeça baixa, dao sempre passagem... tentam sumir na paisagem. Outras acham que o mundo devem tudo a elas... ridiculas! Eu sou tao superior! QUe prazer! Dai me dou conta, que eu posso ser uma das pessoas observadas, e começo a reparar na roupa que estou vestindo, no que as pessoas podem captar de mim realmente... tudo igual, lembro de algum momento quando eu fui ridicula... No final, fico arrasada porque me lembro que eu nao sou o centro do mundo, que vou morrer um dia, que sou ridicula por me achar melhor qu eos outros, que nao fui escolhida por Deus e etc...

E o pior é que eu faço muito esse tipo de analise na minha vida normal também, com as pessoas com as quais eu me relaciono.

E isso, de certa forma, acabou me trazendo um problema emocional muito grande. EMbora eu seja muito querida por todos ao meu redor, seja considerada uma pessoa boa, genrosa, prestativa e indispensavel (todo mundo me fala de como eu sou importante na vida deles), eu sinto que eu acabo valorizando mais as coisas dos outros do que as minhas próprias. POr empatia, eu sempre falo, coitado, vou ajudar ou olha, que irado, vamos comemorar! Enquanto as minhas dificuldades ficam de lado pois eu penso que posso cuidar delas sozinha depois ou que elas nao são tao importantes assim.

Sei lá, nao sei se é sobre isso que voce tá pensando em escrever, mas tai o meu exemplo.

Por fim, eu concordo com você, reparar nos outros é um inferno!

Beijos

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 01:17



Comentário de: FlaviaQ

Reli o que escrevi e percebi que falei muito pouco sobre o primeiro exercicio. Nao acho dificil reparar as pessoas, raramente elas me encaram de volta. Acho que ao longo dos tempos eu desenvolvi algumas tecnicas... a malandragem é nao usar apenas a visao, mas outros sentidos também. Eu tento escutar o que os outros estao falando... sentir algum cheiro... As vezes pego algo pra comer ou ler, pra instigar as pessoas a minha volta... Bocejo pra saber quem está prestando atençao em mim. Olho para onde a pessoa esta olhando, ao inves de olhar diretamente pra ela... depende da ocasião.
Meu marido odeia andar de onibus, metro e se recusa a ir a restaurante pequeno comigo, quando é pra sentar naquelas mesas coletivas entao, coitado, ele sabe que vai ser uma refeiçao sem conversa se ele nao estiver afim de especular sobre os outros...

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 01:43



Comentário de: Anny(Anna)( · http://anny-linhaozzy.blogspot.com/

Alex:
"Empatia:sm. Tendência psra sentir o que sentiria se estivesse em situação vivida por outra pessoa."
Sabe que teve um tempo em que não pude ver nem ler qualquer tipo de violência, por ter uma empatia exagerada. E só posso considerar assim. Sabe aquela coisa ruim que vc sente quando alguém machuca? Pois é, esta é um dos motivos que detesto no programa do Faustão. Mostrando aquelas pessoas tomando quedas e se machucando. Não curto isto. Tem gente que adora ver estas coisas. Não consigo.
Talvez seu exercicio não sirva para mim. Mas vou experimentar. Quem sabe?...

PermalinkPermalink 09.12.09 @ 08:21



Comentário de: Aurelio Ibayo

Hilario assim mesmo... Alex Castro se poem acima de tudo e todos e se acha O benevolente..

agora dah um "exercicio" de empatia... e o que eh empatia? R:se sentir acima de tudo e todos... Esse "exercicio" de empatia eh um exercicio de arrogancia,no fundo. poruqe eh obvio soh eh possibel imaginar o que uma pessoa sente se ela eh mais "simples" do que voce... nao da para um adolecente entender a cabeca de um fisico nuclear de 60 anos.... nao dah.

PermalinkPermalink 09.12.09 @ 11:08



Comentário de: FlaviaQ

Aurélio, pelo que entendi, o Alex falou pra você reparar no lado humano das pessoas. Um fisico nuclear de 60 anos é tão humano quanto um adolescente de 15.

E também é obvio que cada um vai imaginar o que a própria cabeça permite e é ai que está a beleza do exercicio. Através de como você está percebendo o outro, você pode acabar percebendo você mesmo.

PermalinkPermalink 09.12.09 @ 13:27



Comentário de: Raquel · http://twitter.com/raquelmarques

Acho fácil exercitar empatia pelas pessoas desconhecidas. A gente imagina a vida e se compadece dos problemas e dificuldades.

Dificilimo é ter empatia por quem está próximo. Com o funcionário que não cumpre com as obrigações, com a tia que sempre pede dinheiro emprestado, com o vizinho que fala demais, com o zelador analfabeto que entrega as cartas sempre errado, com o marido e seus problemas.

Essa para mim é a grande e definitiva dificuldade.

PermalinkPermalink 09.12.09 @ 17:57



Comentário de: Alaide

Oi Alex! Bom, eu fiquei na dúvida se faria ou não o exercício, mas hoje me deu na telha de fazer. Eu sempre achei que eu era observadora, mas percebi que era uma observadora de araque depois de fazer o seu exercício. rs O que aconteceu comigo é que conforme eu ia caminhando e observando as pessoas, algumas sensações engraçadas passaram por mim. Passei a sentir uma identificação maior, coisa que nunca sou de ter, sempre me acho meio ET quando "olho pro mundo", percebi que observar não é a mesma coisa que realmente se dar conta, saber que algo dentro da pessoa existe assim como em mim. Às vezes me concentrava tanto em analizar todo mundo que me esquecia de que eu estava lá também, e que também poderia estar sendo observada por alguém, me senti meio invisível. Passei também pela sensação de me sentir única por enxergar tanta coisa diferente. Rolou um paradoxo, pois senti identificação e ao mesmo tempo individualidade. Pensei em encarar as pessoas, ir mais além, mas acho que não era esse o propósito. Passei por lugares não muito movimentados ou apertados, mas achei gostoso até onde fui. Bom, vou tentar continuar com a propósta, mas não vou ficar neurótica com ela! rsrsrs Beijos!

PermalinkPermalink 09.12.09 @ 19:49



Comentário de: Alaide

Sorry pelo analiZar. Minha dislexia por DDA é um problema. =P

PermalinkPermalink 09.12.09 @ 19:58



Comentário de: Alfredo

O Efeito colateral desse exercicio foi primeiro mudar a forma de pensar.

http://img686.imageshack.us/img686/9498/ideia.png

Eu normalmente penso como do lado esquerdo da imagem, o exercício me fez pensar como do lado direito.

Como você disse é impossível fazer o tempo todo. Mas não ir ao extremo, de perceber todos, ajudou a perceber o ambiente, ajudou a me sentir parte do ambiente.

PermalinkPermalink 11.12.09 @ 01:06



Comentário de: Fabiano Franz · http://pribi.com.br

Vou tentar com bastante força. Mas acho bem difícil conseguir. Por isso.

PermalinkPermalink 14.12.09 @ 00:58



Comentário de: Anny(Anna)( · http://anny-linhaozzy.blogspot.com/

Alex:
O último exercício é melhor para fazer, já que gosto de observar as pessoas.
Usar óculos escuros é uma boa opção se não queremos que as pessoas vejam que as observamos. Certo? Isto se for dia, Se noite, preciamos outra esrátégia...

PermalinkPermalink 21.12.09 @ 15:44



Comentário de: Fran

Alex, algumas sugestões:
1- pq vc não coloca pro pessoal um exercício preliminar a esse, como praticar empatia com um animal? animal é mais fácil, não tem tanto como tecer comentarios mentais infindáveis sobre a vida do bicho. Se possível, esquecer a raça, o nome e coisas assim. Empatia é algo universal.
2- uma postura meditativa durante o exercício pode ajudar. Ficar consciente da respiração, por ex, limpa um pouco a mente dos pensamentos. Sobra mais espaço.

PermalinkPermalink 23.12.09 @ 09:18



Comentário de: Karina

Li esse texto e lembrei do seu exercídcio:
http://blogs.estadao.com.br/antonio-prata/os-outros/

PermalinkPermalink 18.03.10 @ 12:18



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