a morte do meu cachorro, conto

Email que acabei de receber sobre meu conto A Morte do Meu Cachorro:

Mês passado estive em Buenos Aires, daí vejo a placa "Callao" e imediatamente me lembro do diálogo, do conto, a garota corrigindo a pronúncia de "Callao". Fiquei ali imaginando em qual daqueles cafés eles teriam se sentado. Acabei de reler o conto, gosto muito desse conto... ele me dá um certo desconforto, mas ao mesmo tempo é uma coisa boa, bonita.

Onde Perdemos Tudo - Contos, por Alex CastroA Morte do Meu Cachorro faz parte do meu livro de contos Onde Perdemos Tudo.

Uma caminhada pelas ruas de Buenos Aires revela questões sobre amizade homem e mulher, as armadilhas da memória e as dores do começo da idade adulta.

Considero a melhor coisa que já escrevi. Sobre esse conto, eis o que disse o escritor Miguel Sanches Neto:

O conto mais bem realizado ... é o primeiro "A morte de meu cachorro". História de um momento em que um casal se separa, e cada um vai cuidar de sua vida. A velhice e a solidão são atingidas quando o narrador não é reconhecido por uma alma gêmea, obrigando-se a conviver com experiências que não são mais plenamente compartilháveis. Esse esvaziamento se dá num cenário que deveria ser palco de um reencontro. A amiga muda-se para Buenos Aires, o narrador segue para visitá-la, tentando vencer a distância espacial, que cumpre seu papel: "Lendo cada um sua seção do Clarín, Fiona e eu padecíamos de um silêncio ainda mais cancerígeno [sic]: o silêncio de quem tem muito a dizer, mas prefere calar; o silêncio da conveniência. Pra que discutir? Emudecer poupa dores-de-cabeça, explicações, embaraços. Sobra o nada". Esta elevação do silêncio a uma categoria cancerígena revela a forma dramática de representar alguns episódios. O conto não segue um fluxo narrativo contínuo, trabalha com flash-back e janelas, que são abertas para esclare cer coisas ou resumir passagens.

E na opinião do escritor Furio Lonza:

[A Morte do Meu Cachorro] é brilhante. Narração de primeira linha. É um blues na temática (pois todo blues conta a história de uma perda) e abarrocado na sua forma, com as codas lambendo delicadamente cada parágrafo, a espasmos, acrescentando informações e apagando outras, vai pra frente & pra trás com uma desenvoltura de gente grande. São lambidas de gato, portanto. O tema da perda de uma amizade, aliás, se não me engano, é novo na literatura brasileira (não me lembro de outro). O estilo é maduro, adulto, sem que o distanciamento interfira no mergulho. Ele estraçalha o sentimento, vai fundo, tem Machado na parada, no sentido de esmiuçar até a exaustão cada milímetro da situação. (...) Intocável, perfeito.

Sobre o livro, disse a divina Fal

que é uma das coisas mais lindas que eu já li na vida, assim, em todos os tempos.

Agora é a sua vez. Leia esse trecho e me diga:

Só a teimosia ainda me impele: presumir que eu seria capaz de escrever sobre Fiona foi uma temeridade, um desvario de velho carente. Não ando mais pelo Largo da Carioca; da próxima vez, faço um desvio pela Sete de Setembro.

Fiquei sem graça sim, é verdade - talvez a única verdade dita até agora. Houve um quinto sorriso, tão completo e tão sincero quanto o anterior. Sorriso também de corpo inteiro e todo meu. A história então, sob escrutínio, se esfacela:

Fiona me dá um aperto de mão mais caloroso, me fita com seus olhos incandescentes e sorri, fogosa:

- É muito bom mesmo você estar aqui comigo! - Estoura ela.

O sorriso, entretanto, não morre. Não, meus amigos, o sorriso continua lá. Gostaria de poder afirmar que ele permanecia congelado em seu rosto, mas naquele momento não havia nada congelado em Fiona: ela estava em ebulição, faiscando. Sejamos sinceros: seu corpo inteiro sorria pra mim.

Quem não suportou o calor fui eu: fracassei em gerir tamanho sorriso e cedi ante a pressão do seu carinho. Fiona me derrubou com uma erupção de amor.

Percebo agora o quão piedosa era a minha falecida versão conveniente dos fatos: eu não sabia o que fazer, não sabia em que buraco me enfiar. De que maneira poderia me defender daquela salva maciça de paixão sendo arremetida contra mim? O tal sorriso de corpo inteiro - há pouco desejado - era um fardo incômodo do qual eu precisava me livrar. Sem meios de corresponder aos sentimentos que Fiona disparava, eu ia fraquejando sob sua força.

Desse modo, e muito à revelia, preencho a lacuna do café-da-manhã: eu peguei o Clarín, eu comecei a ler, eu puxei o primeiro cigarro. Pobre Fiona, inocente ao menos dessas acusações, só fez tirar o jornal de seu colo e depositá-lo sobre a mesa. Vagarosamente, com mãos de relojoeiro.

O Clarín seria minha salvação, decidi, aliviado, e peguei um caderno qualquer do jornal. E enquanto eu abria as folhas, bloqueando minha visão de Fiona, tive um último relance de seu rosto. Ela sorria. Ainda.

Inexpugnável em meu refúgio de papel, não sei por mais quanto tempo Fiona sorriu. Por fim, deve ter desistido: afirmou um suspiro, acendeu um cigarro e escolheu uma parte do jornal pra ler. As facturas e os cortaditos, quando vieram, foram consumidos em silêncio.

* * *

 

10.02.12


Categorias: Livros, Onde Perdemos Tudo


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Comentários:


Comentário de: aiaiai

É verdade...pelo menos para mim também...esse conto fica na cabeça da gente e volta com qq referência. Quando fui a BsAs este ano, me peguei pensando "em que café eles se sentaram" várias vezes.

PermalinkPermalink 18.11.09 @ 06:13



Comentário de: JCCyC · http://rsnda.blogspot.com

Vou comprar. Quando sair em papel.

PermalinkPermalink 19.11.09 @ 13:23



Comentário de: rodrigot

existe esse livro em versão assassina de árvores?

PermalinkPermalink 19.11.09 @ 17:03



Comentário de: Vanessa · http://www.vanprates.blogspot.com

Alex,

Eu queria entender como você dá conta das suas atividades e ainda consegue arrumar tempo pra escrever...

Putz, eu gasto uma hora no banheiro, logo quando acordo; já à noite, antes de deitar, é a mesma coisa.
Meus banhos, no mínimo, vão bem uns 15 minutos; fora vagabundear pela net, ler jornais, livros, etc.

Tenho inveja de pessoas que conseguem administrar os ponteiros do relógio.

:(

PermalinkPermalink 22.11.09 @ 00:35



Comentário de: marcos nunes · http://harumoresdevidaemmarte.blogspot.com/

Se não me engano, é o conto que abre o livro. Há uma relação interessante que se refere a perdas/ganhos emocionais. Eu só empombei um pouquinho porque achei, talvez em razão do dia em que li, dor de cabeça ou revolta, sabe-se lá, o tom um tanto quanto frívolo, se comparado às presentes preocupações ao autor. Isso, ratifico, pode ser só implicância momentânea, por causa dum momento pessoal do qual agora não me recordo bem. Que bom.

PermalinkPermalink 10.02.12 @ 15:49



Comentário de: Marcos

É o melhor conto do livro.

PermalinkPermalink 10.02.12 @ 18:00



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