Email que acabei de receber sobre meu conto A Morte do Meu Cachorro:
Mês passado estive em Buenos Aires, daí vejo a placa "Callao" e imediatamente me lembro do diálogo, do conto, a garota corrigindo a pronúncia de "Callao". Fiquei ali imaginando em qual daqueles cafés eles teriam se sentado. Acabei de reler o conto, gosto muito desse conto... ele me dá um certo desconforto, mas ao mesmo tempo é uma coisa boa, bonita.
A Morte do Meu Cachorro faz parte do meu livro de contos Onde Perdemos Tudo.
Uma caminhada pelas ruas de Buenos Aires revela questões sobre amizade homem e mulher, as armadilhas da memória e as dores do começo da idade adulta.
Considero a melhor coisa que já escrevi. Sobre esse conto, eis o que disse o escritor Miguel Sanches Neto:
O conto mais bem realizado ... é o primeiro "A morte de meu cachorro". História de um momento em que um casal se separa, e cada um vai cuidar de sua vida. A velhice e a solidão são atingidas quando o narrador não é reconhecido por uma alma gêmea, obrigando-se a conviver com experiências que não são mais plenamente compartilháveis. Esse esvaziamento se dá num cenário que deveria ser palco de um reencontro. A amiga muda-se para Buenos Aires, o narrador segue para visitá-la, tentando vencer a distância espacial, que cumpre seu papel: "Lendo cada um sua seção do Clarín, Fiona e eu padecíamos de um silêncio ainda mais cancerígeno [sic]: o silêncio de quem tem muito a dizer, mas prefere calar; o silêncio da conveniência. Pra que discutir? Emudecer poupa dores-de-cabeça, explicações, embaraços. Sobra o nada". Esta elevação do silêncio a uma categoria cancerígena revela a forma dramática de representar alguns episódios. O conto não segue um fluxo narrativo contínuo, trabalha com flash-back e janelas, que são abertas para esclare cer coisas ou resumir passagens.
E na opinião do escritor Furio Lonza:
[A Morte do Meu Cachorro] é brilhante. Narração de primeira linha. É um blues na temática (pois todo blues conta a história de uma perda) e abarrocado na sua forma, com as codas lambendo delicadamente cada parágrafo, a espasmos, acrescentando informações e apagando outras, vai pra frente & pra trás com uma desenvoltura de gente grande. São lambidas de gato, portanto. O tema da perda de uma amizade, aliás, se não me engano, é novo na literatura brasileira (não me lembro de outro). O estilo é maduro, adulto, sem que o distanciamento interfira no mergulho. Ele estraçalha o sentimento, vai fundo, tem Machado na parada, no sentido de esmiuçar até a exaustão cada milímetro da situação. (...) Intocável, perfeito.
Sobre o livro, disse a divina Fal
que é uma das coisas mais lindas que eu já li na vida, assim, em todos os tempos.
Agora é a sua vez. Leia esse trecho e me diga:
Só a teimosia ainda me impele: presumir que eu seria capaz de escrever sobre Fiona foi uma temeridade, um desvario de velho carente. Não ando mais pelo Largo da Carioca; da próxima vez, faço um desvio pela Sete de Setembro.
Fiquei sem graça sim, é verdade - talvez a única verdade dita até agora. Houve um quinto sorriso, tão completo e tão sincero quanto o anterior. Sorriso também de corpo inteiro e todo meu. A história então, sob escrutínio, se esfacela:
Fiona me dá um aperto de mão mais caloroso, me fita com seus olhos incandescentes e sorri, fogosa:
- É muito bom mesmo você estar aqui comigo! - Estoura ela.
O sorriso, entretanto, não morre. Não, meus amigos, o sorriso continua lá. Gostaria de poder afirmar que ele permanecia congelado em seu rosto, mas naquele momento não havia nada congelado em Fiona: ela estava em ebulição, faiscando. Sejamos sinceros: seu corpo inteiro sorria pra mim.
Quem não suportou o calor fui eu: fracassei em gerir tamanho sorriso e cedi ante a pressão do seu carinho. Fiona me derrubou com uma erupção de amor.
Percebo agora o quão piedosa era a minha falecida versão conveniente dos fatos: eu não sabia o que fazer, não sabia em que buraco me enfiar. De que maneira poderia me defender daquela salva maciça de paixão sendo arremetida contra mim? O tal sorriso de corpo inteiro - há pouco desejado - era um fardo incômodo do qual eu precisava me livrar. Sem meios de corresponder aos sentimentos que Fiona disparava, eu ia fraquejando sob sua força.
Desse modo, e muito à revelia, preencho a lacuna do café-da-manhã: eu peguei o Clarín, eu comecei a ler, eu puxei o primeiro cigarro. Pobre Fiona, inocente ao menos dessas acusações, só fez tirar o jornal de seu colo e depositá-lo sobre a mesa. Vagarosamente, com mãos de relojoeiro.
O Clarín seria minha salvação, decidi, aliviado, e peguei um caderno qualquer do jornal. E enquanto eu abria as folhas, bloqueando minha visão de Fiona, tive um último relance de seu rosto. Ela sorria. Ainda.
Inexpugnável em meu refúgio de papel, não sei por mais quanto tempo Fiona sorriu. Por fim, deve ter desistido: afirmou um suspiro, acendeu um cigarro e escolheu uma parte do jornal pra ler. As facturas e os cortaditos, quando vieram, foram consumidos em silêncio.
* * *
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