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Arrufos
Óleo sobre tela, 89 X 116 cm, por Belmiro de Almeida (1887)
Reparem na rosa despedaçada no chão, no vaso quebrado na mesa. Mais ainda, reparem na plácida indiferença do homem, calmamente apreciando o cigarro que acabou de enrolar, uma mão enluvada, outra nua, pensando: "Odeio mulher histérica!"
Belmiro de Almeida é meu pintor favorito. Cada um de seus quadros conta uma história com começo, meio e fim.
A nova geração de pintores saudou Arrufos como se fosse uma revolução. Gonzaga Duque, que serviu de modelo para o homem, exclamou que, no Rio, ainda não se havia pintado um quadro importante como esse. Talvez por isso, causou um pequeno escândalo na sociedade carioca, entre patronos do museu e a aristocracia do Império.
Arrufos reside atualmente no Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Só ele já vale a visita.
Os Descobridores
Óleo sobre tela, 260 X 200 cm, por Belmiro de Almeida (1899), atualmente no Palácio do Itamarary. Foi restaurada há menos de dois anos.
Esse quadro, de 1899, foi encomendado pelo governo para celebrar os 400 anos de nosso descobrimento. Mas reparem como o contador de histórias Belmiro de Almeida simplesmente não consegue se render a um ufanismo bobo.
O momento que ele escolhe retratar do nosso descobrimento é patético de tão humano. Dois marujos, em terra, e a frota de Cabral indo embora no mar. Um cai ao chão. Outro observa os navios.
Quem são eles? Degredados, deixados para trás como punição? Marujos fugidos, que não agüentavam mais a vida a bordo? Ou será que foram abandonados por engano? O personagem à esquerda, caído aos pés da árvore, o que ele sente? Total derrota, ao ver que está sozinho naquela tela estranha? Ou total alívio, ao ver-se livre da rotina naval que o oprimia?
De qualquer modo, estão sós.
* * *
Esse quadro atualmente está no segundo andar do Palácio do Itamaraty. Eu estava fazendo um serviço ali perto e decidi aproveitar para conhecê-lo pessoalmente, pois só tínhamos nos visto em livros.
Cheguei no palácio às cinco horas e eles já estavam fechando. O guarda, solícito, me informou os horários das visitas diárias e e eu disse que não, que era um estudante de arte e que precisava dar só uma olhadinha em um quadro que tinha sido informado que estava li. Aliás, minha informação tinha mais de 50 anos. Nesse meio tempo, o quadro poderia ter pego fogo, sido riscado por um adolescente louco ou ter mudado de residência quinze vezes.
Comecei a descrever o quadro: ele é grande, quase três metros de altura por dois de largura, são dois marujos da época do descobrimento no alto de um morro, vendo a frota do Cabral ir embora e-
Ah, disse o guarda, o senhor quer ver o quadro do Belmiro?
Fazíamos parte de uma irmandade. Ele não só soube na hora de que quadro eu estava falando, como ainda se referiu ao pintor com uma intimidade de velho conhecido: ah, o quadro do Belmiro?
Sim, claro, o quadro do Belmiro.
Ele me conduziu pelos belíssimos corredores e salas e antesalas do Palácio, já às escuras, e me levou até o quadro. Acendeu as luzes e ficamos lá, os dois, uns quinze minutos, embasbacados, apreciando o drama daqueles dois marujos.
Infelizmente, o quadro realmente não está em bom estado, as cores apagaram, o navio no canto superior esquerdo sumiu totalmente. Quem não conhecesse o quadro por outras reproduções, acharia que estavam fitando o mar vazio.
Não vale a visita, a não ser para conhecer o Sebastião, o guarda amigo do Belmiro.

Óleo sobre tela, 128 X 83 cm, por Belmiro de Almeida (1893), atualmente no Museu Nacional de Belas-Artes.
Já visitei os melhores museus do mundo. Sei que seria uma temeridade classificar qualquer quadro como o melhor de todos os tempos. Mas vou dizer o seguinte: "A Tagarela" é o meu quadro preferido. Isso é.
Todo ano eu vou visitá-la. Arrasto um banquinho, ou sento no chão mesmo, e fico olhando pra ela. Sei que está louca pra me contar uma fofoca quentíssima, mas não consegue se decidir. Por enquanto, ainda não falou nada. Não importa. Ela me fascina e me domina. Penso nela freqüentemente. Adoro o seu olhar, o seu sorriso, suas mãos apertadas, até a vassoura com a qual ela estava varrendo até um segundo atrás - até parar e decidir que, simplesmente, precisava me contar alguma coisa.
Estou esperando.
* * *
O Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, hospeda essa e muitas outras obras de Belmiro de Almeida.
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