Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%.
Em Busca do Povo Brasileiro. Artistas da Revolução, do CPC à Era da TV (2000), de Marcelo Ridenti, traça um quadro dos movimentos culturais e políticos de esquerda das décadas de 60 e 70, e de suas tentativas de resolver o problema da identidade nacional e política do povo brasileiro (Ridenti, 11).
Ao ler uma narrativa tão apaixonada da efervescência cultural em torno desses engajados movimentos, dos CPCs à UNE Volante, do Teatro de Arena ao Cinema Novo, o leitor pode ser levado a pensar que essas tendências, escolas e grupos estavam tomando a nação de assalto, repercutindo profundamente tanto no povo quanto na classe média, ditando os rumos da cultura brasileira.
Entretanto, embora seja esse o tom do livro - de praticamente confundir cultura intelectual engajada de esquerda com a cultura brasileira de modo geral, como se não houvesse cultura independente, cultura popular ou mesmo cultura de direita - aqui e ali o autor deixa entrever que talvez esses artistas intelectuais de esquerda que ele vê com tanta simpatia não estivessem tão sintonizados assim com o resto da nação:
"O fim do sonho revolucionário brasileiro, com a vitória dos golpistas, sem encontrar resistência, causou surpresa, devido à mobilização popular em busca das reformas estruturais no pré-1964, com a presença cultural e política marcante das esquerdas." (Ridenti, 38)
Ora, a falta de resistência ao golpe só é surpreendente pra quem se deixa levar pelo tom do livro e presume que essas aparentemente tão importantes manifestações culturais produzidas por artistas e intelectuais de esquerda da classe média realmente tinham qualquer impacto sobre a sociedade em geral, sobre o povo, sobre as elites, até mesmo sobre a própria classe média que as produziu.
Muito pelo contrário, pregando radicalismo político, ideológico e revolucionário e produzindo arte cada vez mais vanguardista, esotérica e hermética, esses artistas quase que garantiam que sua arte praticamente só poderia ser consumida e compreendida dentro do próprio grupo que a produziu, por pessoas que tinham os mesmos referenciais sóciopolíticos e o mesmo instrumental teórico-ideológico. Quem, além de um poeta concretista de vanguarda, consegue entender poesia concreta de vanguarda? Com certeza, não um cansado lavrador depois de ser explorado o dia todo na lavoura.
Enquanto pensavam estar fazendo a "mobilização popular em busca das reformas estruturais" e tendo "presença cultural e política marcante", esses movimentos intelectuais vanguardistas de esquerda estavam, na verdade, falando sozinhos. Não conseguiram atingir o povo. Não tinham o apoio das elites. Mal dialogavam com a classe média. E, pior, nem tinham noção do seu isolamento político e cultural: só uma total falta de comunicação com o resto da sociedade e uma enorme incapacidade de auto-crítica pode explicar sua surpresa diante da falta de resistência ao golpe.
Ferreira Gullar foi um dos maiores críticos da poesia de vanguarda e um dos mentores do projeto Violão de Rua, que buscou levar a poesia ao povo. Em relação a questão do alcance da arte, Gullar admitiu:
"Nós nem fizemos boa literatura durante o CPC, nem bom teatro, nem atingimos as massas. Então, nós sacrificamos os valores estéticos em nome de uma tarefa política que não se realizou porque era uma coisa inviável." (Citado em Ridenti, 111)
Mais tarde, alguns desses artistas, por falta de opção, acabaram indo trabalhar para os grandes grupos de mídia, Folha de São Paulo, Rede Globo, e descobriram, finalmente, que poderiam utilizar a própria infraestrutura do capitalismo pra veicular sua mensagem anti-capitalista. Entre eles, o comunista histórico, Dias Gomes, que muitos criticaram por escrever para a Rede Globo, mas que afirmou não ter visto opção, pois se não fosse a Globo seria algum outro veículo de esquerda, comandado por um patrão que direita que não compartilhava de suas idéias:
Desde que a Globo não me obrigue a escrever o que não quero escrever, que nunca me obrigou. Sempre foi escrito aquilo que eu propus: se eles aceitaram, bem - muitas vezes não aceitaram e não foi feito. A minha liberdade de pensamento não foi de modo nenhum castrada, desvirtuada. É um problema de você se inserir dentro de um organismo que você sabe que é o inimigo, mas dá um espaço e você pode atingir com ele uma massa imensa de espectadores. Então, não vale a pena? Acho que vale. (Citado em Ridenti, 327)
Dias Gomes comete, diríamos, somente uma imprecisão. Sim, seu pensamento foi castrado e limitado, no sentido de não ter podido ir até onde quis, mas sim, não foi distorcido ou desvirtuado, no sentido de obrigado a fazer algo contra sua vontade. Em um sistema imperfeito, uma novela como O Bem Amado tem um impacto cultural e social que duzentas peças engajadas e herméticas jamais teriam.
Renato Tapajós, cineasta também mencionado por Ridenti, percebeu isso ao comparar a audiência de um documentário sobre as greves do ABC, extremamente engajado e muito bem-sucedido, contra a audiência de um programa banal do Globo Repórter, também dirigido por ele, sobre animais peçonhentos: "a gente tá fazendo filme pra 250 mil pessoas e os caras aqui tem 35 milhões numa noite." (Citado em Ridenti, 326)
Por fim, Ferreira Gullar tenta mostrar que, apesar de mediado pela Rede Globo, quem acaba mandando na programação é o povo: "A TV Globo só pensa em ganhar dinheiro. (...) Quem manda indiretamente é o povo. A novela está no ar, caiu a audiência, muda o rumo da novela. Quem manda é o espectador." (Citado em Ridenti, 332)
De certo modo, através do inimigo (nesse caso, a Rede Globo), encenou-se uma alternativa a um dos grandes problemas da arte engajada de esquerda nas décadas de 60 e 70. Uma novela como O Bem-Amado ou um filme não-hermético como O Pagador de Promesas tem uma possibilidade de impacto social, de mudança efetiva das estruturas, de aumento da conscientização política do espectador, infinitamente maior, por exemplo, do que um filme engajado e político como Terra em Transe, assistido por poucos, entendido por pouquíssimos, e todos esses, quase que sem exceção, intelectuais de esquerda classe média que já chegavam convertidos aos cinema.
* * *
Lá no meu twitter, tem mais: http://twitter.com/AlexCastroLLL
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/37575 Posts similares:
Ruim para quem, cara pálida?
A CLASSE MÉDIA CULTURAL
Quem É de Direita?
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Obras completas de Freud, de R$960, por R$399
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%
8129 Panola St, New Orleans, LA, 70118, msn, tel, email
Ao me enviar email ou comentar no LLL, você está automaticamente permitindo que eu publique sua mensagem no blog, inclusive com seu nome e endereço. Pense bem.