Empregadas Domésticas vs Diaristas

 Denegação e Retorno

Além do racismo, outro tópico que gera desespero e denegação profunda entre os leitores do LLL é a questão das empregadas domésticas. Uma das objeções mais comuns é que eu, como sempre, estou falando só do meu mundinho, e que esse negócio de empregada doméstica já acabou faz tempo, "ninguém que eu conheço tem", todo mundo agora é diarista, etc.

Então, para os interessados lerem e para eu ter aqui no blog (e ser mais fácil de encontrar quando for fazer minha pesquisa), artigo da FSP de hoje, indicando que as diaristas representam somente 25% das empregadas domésticas brasileiras:

 Manual da Empregada Doméstica

Empregada doméstica dá lugar a diarista

Embora ainda minoritária, participação passou de 17% para 25% do total de domésticos em dez anos, aponta estudo. Para pesquisadora, ao optar pela função de diarista, profissional ganha em autonomia, embora perca em proteção social. ANGELA PINHO, DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O perfil do mercado de trabalho doméstico no Brasil mudou, e cada vez mais as diaristas ocupam um espaço em que as chamadas empregadas mensalistas eram absolutas.

A conclusão está em pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) realizada com base em dados do IBGE. De 1998 a 2008, o número de diaristas quase duplicou e, embora continuem minoritárias, elas vêm aumentando regularmente sua participação, passando de 17% para 25% do total de trabalhadores domésticos.

Os pesquisadores consideraram como diarista a profissional que disse trabalhar em mais de um domicílio e como mensalistas as que trabalham em apenas uma residência. É um critério aproximado, já que é possível haver diaristas mesmo entre as que atuam em somente uma residência.

Os dados brutos da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) trazem uma pista para explicar o fenômeno: a renda. As diaristas ganham, em média, 17% a mais do que as outras domésticas, o que dá R$ 57 a mais por mês.

Ganho maior

Foi justamente a questão financeira que fez Helena Nunes, 37, de Campinas, deixar neste ano a casa onde trabalhou por 14 anos para fazer faxina em outros lugares. Ela ganhava R$ 650 trabalhando a semana toda. Agora, cobrando R$ 70 por dia, consegue obter mais em apenas dez dias por mês.

Trata-se de uma renda maior em termos, já que as diaristas que têm carteira assinada são uma minoria -somente 14%, na comparação com 30% das mensalistas.

O reconhecimento de vínculo empregatício tem variado, mas uma decisão de 2004 do Tribunal Superior do Trabalho não o reconheceu no caso de uma profissional que trabalhava três vezes por semana na mesma casa.

Ainda assim, como a renda média do emprego doméstico é menor do que um salário mínimo (R$ 351), o valor dos benefícios acaba muitas vezes ficando em segundo plano para a trabalhadora. A falta de registro em carteira, que já é vantajosa para o patrão, passa a ser opção das próprias profissionais.

Empregadas e Patroas: uma Relação de Amor Meninas Domésticas, Infâncias Destruídas

Autonomia

Além disso, embora percam em proteção social, as domésticas ganham em autonomia, ao optarem pelo trabalho de diarista, afirma a pesquisadora do Ipea Natália de Oliveira Fontoura. "A gente pode pensar em uma mudança para um arranjo de trabalho mais profissionalizado, com caráter de prestação de serviços", diz.

Ilídia Batista, 57, de Brasília, morou 18 anos na casa da antiga empregadora. Saiu quando as crianças cresceram e, em vez de procurar outra residência, escolheu ser diarista para ganhar mais. "No começo, foi até difícil me acostumar a morar na minha casa, mas eu vi que posso andar do jeito que eu quero, fazer o que eu quero", diz. Agora, ela afirma não querer mais morar em outra casa.

A presidente do Sindicato de Empregadas e Trabalhadores Domésticos de São Paulo, Camila Ferrari, também notou que são muito mais raras as profissionais que moram no local de trabalho. "Antes, a empregada vinha do interior e precisava de lugar para morar. Agora, já constituiu família e quer ter a sua casa. Além disso, quem vive com os patrões acaba trabalhando da hora em que acorda até a noite", diz.

De fato, os dados da Pnad mostram uma relativa vantagem das diaristas em relação às demais empregadas no quesito carga horária. São quatro horas a menos por semana, cerca de 33 horas e 30 minutos, ante 37 horas e 30 minutos.
Essa diferença de horário, assim como a diminuição do número de empregadas que dormem na casa dos patrões, é compensada por questões demográficas. "Como as famílias estão ficando menores, há menos exigência de trabalho doméstico e, por isso mesmo, é possível ter empregada doméstica em tempo parcial", diz Simone Wajnman, professora do Departamento de Demografia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

* * *

 Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social FERNANDO BRAGA DA COSTA

Homens Invisíveis: Relatos de Uma Humilhação Social, de Fernando Braga da Costa. (SP: Globo, 2004) Profundo, lindo, fortíssimo. O autor era aluno de pós-graduação de Psicologia e, como parte de um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, teve que exercer algum emprego "humilde" - definido como não exigindo qualquer tipo de treino ou experiência. Tornou-se gari da USP e experimentou na pele a humilhação e a invisibilidade.

* * *

Leia todos os posts sobre Empregadas Domésticas.

   Empregados Domésticos   Espancando a Empregada

 

01.11.09



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Comentários:


Comentário de: Yuri

Hipocrisia feminina no seu melhor.

"Sou resolvida, estudada, doutorada, barbada e INDEPENDENTE (elas gostam mais dessa palavra que D.Pedro!!) conquistei o que tenho e não dependo de marido nenhum... tem uma mulher que faz faxina lá em casa, pois eu não gosto..."

Quer dizer: feminismo sempre, desde que tenha graan, certo??? Feminismo sim, mas ao mesmo tempo contrata uma MULHER para fazer os serviços de casa... é muita hipocrisia!!
Mas mulher pobre pode, né?? Mulher com INDEPENDÊNCIA e estudo não pode rebaixar-se aos velhos paradignmas machistas!!! Mas mulher pobre pode muito bem lavar a roupa suja da "independente", pode lavar a loiça da "independente", pode limpar o vaso sanitário da independente, pois ela é independente e não precisa fazer isso de tão resolvida que é!!

Vou contar-te... é brincadeira...

VIVA A LIBERDADE, VIVA A CONQUISTA FEMININA (desde que com uma lavadeira e passadeira sendo paga por hora, certo?)!!

Parece aquela história da classe-média enjoada, vive a falar mal do Brasil, do Lula, do diaboaquatro, mas no exterior diz que AMA o país. Ama o país, desde que a algumas horas de voo. Igualzinho, sem tirar nem botar.

PermalinkPermalink 01.11.09 @ 20:52



Comentário de: Alex Castro Email

Yuri,

Dá uma olhada no meu texto

As Feministas e as Domésticas
http://www.interney.net/blogs/lll/2009/07/02/as_feministas_e_as_domesticas/

PermalinkPermalink 01.11.09 @ 20:59



Comentário de: Marcio E. Goncalves

Como eu fui um dos que citou o lance das diaristas nos outros post, vamos la:

No meu caso eu lembro de citar o fato que vi uma transicao - quando era crianca as domesticas "quase escravas" eram comuns e minha mae teve varias (mas detalhe que minha mae fui uma tb quando crianca). Mas meu pai (separados desde que sou pequeno) so teve diaristas.

E com o tempo, vi sim uma transicao e hj em dia em bairros como Champagnat/Batel, dois dos bairros nobres de Curitiba, eh raro encontrar alguem que tenha domestica que mora na casa. A regra eh diarista.

Eu particularmente nao conheco ninguem que tenha - nao so no meu circulo de amigos e conhecidos, mas tb de meu pai (pessoas muito mais ricas que nos) e meus irmaos.

Ou seja, meu posicionamento nao eh negacao nenhuma - eh pura analise do meu ambiente.

E veja que tu diz 25% como se fosse pouco -nao eh o ideal mas ja eh um quarto. A tendencia eh isso crescer. Nao so por questoes economicas mas de mudanca de mentalidade.

Meu pai nunca gostou da ideia de empregada morando em casa e eu e meus irmaos muito menos, mesmo tendo o dinheiro para tanto.

Sempre me pareceu uma situacao semelhante demais a servidao, escravidao, que o seja.

Com meus amigos em geral a situacao eh semelhante e acredito que com os filhos deles p/ a frente a nocao de ter uma "semi-escrava" em casa vai parecer ainda mais absurda.

Isso ou eu sou otimista demais.

P.S Yuri, quer dizer que falar mal do Lula eh falar mal do Brasil? Meu Deus, a coisa ta feia por ai, hein?

PermalinkPermalink 01.11.09 @ 21:41



Comentário de: Te

O interessante é que a reportagem mostra a porcentagem como uma mudança signiticativa mas você mostra que não: afinal, 75% dos empregados domésticos ainda são mensalistas.

Dava pra fazer uma queixa ao ombudsman: a diarista não tem proteção social? Ué, ela não pode contribuir como autônoma ao INSS? Uma mensalista que lê isso e não recebe mais informações pode pensar que é melhor continuar como está.

Não vejo mal nenhum em uma mulher pagar à outra para fazer o serviço doméstico, desde que o contrato de trabalho seja justo (horário, pagamento, serviços a fazer). Ser empregada de novela do Manoel Carlos, que pra Helena poder salvar o mundo dorme no emprego, toma conta das crianças e ainda dá expediente na casa da amiga da patroa é que não dá.

PermalinkPermalink 01.11.09 @ 22:23



Comentário de: Arthur

Hoje eu sentei e falei com um morador de rua....

Nada que eu nunca tenha feito, mas esse não era um mendigo bebado como a maioria dos moradores de rua que eu acabo convervando.

Era um cara da minha idade, completamente sobrio, e falou comigo de igual pra igual.

Ele fugiu de casa por que o padastro dele deu uma facada nele.

Ele tinha uma namorada, mas ela tinha se mudado pro interior, ele ainda tava com a aliança....

As vezes eu acho que toda discução é besteira, se você não consegue sentar e conversar com as pessoas, se você não tem nenhuma empatia com os outros seres humanos, você não vale nada, e não tem ideia que te salve.

Fazia tempo que eu não falava com ninguem que morava na rua...Eu tinha esquecido...Vou tentar nunca mais esquecer de novo

PermalinkPermalink 02.11.09 @ 23:13



Comentário de: Adriana Karnal · http://anndixson.blogspot.com

Aos poucos as coisas estão mudando...as empregadas não dormem mais na casa da família, as diaristas estão mais comuns
( antes se chamavam "faxineira").As empregadas agora são chamadas de "secretárias", vc nunca percebeu? Sim, o significante está sendo modificado porque o significado também está.Chamar de empregada é politicamente incorreto.

PermalinkPermalink 03.11.09 @ 00:16



Comentário de: Lucélia

Pra mim essa pesquiseta aí é furada. Afinal de contas, como eles conseguem percentagens tão certeiras em profissões altamente informais? Que tipo de método usaram?

A verdade verdadeira é que tem sim muito mais diaristas que empregadas domésticas. Porque empregada é coisa de classe "mérdia" e "arta". Pobre mais ou menos, do tipo que ganha R$900,00 por mês contrata, vez ou outra, uma diarista pra dar geral.

Gente...o sonho de toda emprega doméstica é ser diarista. A diarista trabalha muito mais, mas em compensação ganha mais que o triplo da doméstica. A diarista vai lá, faz seu serviço, toma banho, sobe no salto e vai pra casa (ou pro samba ou pra onde quiser). A coitada da empregada fica presa à casa, porque tem que dormir no emprego (geralmente) e ficar à disposição dos patrões. Lembrando que é comum o patrão chamar a empregada às 22:00 hs pra esquentar o leitinho. Empregada não tem carga horária definida. E pasmem, isso tá na lei!

PermalinkPermalink 03.11.09 @ 15:09



Comentário de: JCCyC · http://rsnda.blogspot.com

Lucélia, não sei se as pessoas mentem ou não nos formulários. Lá, suponho, está escrito algo do tipo,

"Você paga para alguém fazer faxina? (S/N)"

"Caso afirmativo, quantas vezes por semana essa pessoa vem?"

Não vou pular para denunciar a pesquisa como falsa, porque existem muitos fatos estatísticos sobre a população em geral que parecem anti-intuitivos para quem vive 99,9999999999% do tempo sem contato algum com ninguém fora de um determinado subconjunto.

E realmente, depois de ler esses posts sobre domésticas estou convencido que o esquema de diarista é muito mais decente e humano.

PermalinkPermalink 04.11.09 @ 17:40



Comentário de: Simone Lopes

Gente,

Sempre concordei com as posições aqui. Tive sempre diarista 2 vezes por semana e com registro. Respeitando sempre a legislação e inclusive o que recebia na empresa que trabalhava, aplicava em casa - como ponte de feriado.
Agora com filhos, tudo mudou. Trabalho muito - não posso e nem quero parar a carreira. E agora necessito de alguém que dorme. Caso contrário, não durmo, mas tenho que cumprir mais de 8 horas e viagens a trabalho.
Meu esquema com a pessoa que contratei é ajudar pela manhã com os meus filhos e à tarde pode descansar pois tenho uma babá das 10 às 18hs.
Para as duas, regsitro em carteira, folga com final de semana - exceto a empregada que trabalha sábado, mas em horário menor. Pago salário acima um pouco do mercado, mas com todos os direitos previstos, inclusive FGTS.
Essa minha empregada, ela só quer lugar que possa dormir pois não tem família e não qyer morar só. E nunca a solicito nos seus horários de descanso.
A questão é respeitar a pessoa - didnidade e direitos, respeitar a profissão e remunerar com a maior dignidade possível.
Na europa hj, não se tem muitos domésticos que dormem por conta dos altos salários já que a população foi se instruindo. No Brasil, caminha-se para isso, mas ainda é uma fonte de trabalho para muitas pessoas. O que precisamos tbe é enxergar como um trabalho muito importante e digno que ajuda mtas famílias brasileiras. E pagar bem e respeitar as pessoas.
Abs

PermalinkPermalink 18.04.10 @ 12:45



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