Quanto mais tarde se aprende, pior. Júlia usou as mesmas palavras. O que seria preferível? Imaginar o cretino discutindo com Júlia a educação de Raquel em sigilo? Chama Carla não, isso aqui a gente resolve entre nós, pra que ela precisa saber?, besteira!, mas fala baixo! Ou será que a segunda hipótese não é pior: ambos pensam tão bem cerzido que falam assim as palavras um do outro sem nem precisar combinar antes, como foi com a Libeca? Gostaria de não acreditar nessa última, mas acredito. E isso me incita, tenho vontade de arrostar e estapear o insuportável: por que você me faz padecer esse suplício? Se são tão iguais, tão amigos, tão almas-gêmeas, tão inhénhénhém, por que não casou com ela? Por que flagelar a mim no pau-de-arara dessa amizade?!
Não queria mais Júlia despachando tanto tempo com minha filha. Encerrei o expediente, pode sair, queridinha, deixa seu paletó aí na cadeira, se quiser, mas rua pra você. Murilo ainda tentou me convencer, mas seus argumentos começavam derrotados: ele não falava nem de Raquel e nem de mim, só de Júlia. Que Júlia precisava de Raquel, que Júlia estava torcida e luxada, que Raquel era essencial para ela se rearticular. Perdoem-me por ter dado uma impressão errada, mas não tive filha só para remediar a maluquete. Se é desequilibrada, que se equilibre sozinha.
Na semana seguinte, aconteceu a terceira e última vernissage de Júlia.

E aí? Vai querer ser a última pessoa a ler?
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Um Leitor
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