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Minha amiga Selma está revoltada com "esse costume tão brasileiro de homens mais velhos casarem com mulheres mais novas". E eu, num primeiro momento, disse que ela estava exagerando, que não era pra tanto, etc.
Mas então passei em revista mental todos os amigos dos meu pai que estão mais ou menos na mesma faixa etário - ele tem 63 anos. Sem nenhuma exceção que pude lembrar, nenhum ainda está casado com a primeira esposa e todos casaram de novo com mulheres 15, 20, 30 anos mais novas. (A esposa do único casal que seria a exceção se matou ano passado.)
Não acho que cabe censurar nenhum deles individualmente. Na maioria dos casos, a começar pelo meu pai, os maridos respeitaram estritamente as leis e deixaram suas ex-esposas muito bem de vida. Todas as pessoas têm direito de se divorciar. Se todos cumprem a lei e agem eticamente, não cabe crítica individual.
Entretanto, quando olhamos para a situação como um todo, a situação mostra-se praticamente uma calamidade de saúde pública e uma indicação da estrutura inerentemente machista da sociedade brasileira. O divórcio, que a princípio foi uma bandeira e uma conquista feminina e feminista (favor não confundir), acabou saindo pela culatra e se tornando um meio legal e limpo para se trocar velhas esposas por jovens gatinhas.
Não estou falando somente de dinheiro. Sim, quase todos os homens do círculo do meu pai deixaram suas mulheres muito bem de vida - financeiramente.
Mas hoje, quando encontro com eles, esses homens estão invariavelmente felizes, com aspecto jovem, bronzeados, ricos, casados com mulheres lindas, no auge de suas carreiras ou recém-aposentados.
Já as mulheres estão quase todas sozinhas, ressentidas, magoadas, muitas gordas e alcoolatras, reclamando das vidas vazias e sem sentido, pois dedicaram boa parte da vida aos maridos (que foram embora) e aos filhos (que cresceram), quase nenhuma tinha carreira, e ou continuam ociosas e sem trabalhar até hoje, ou começaram uma carreira depois dos 40 e estão subempregadas.
Nós, como sociedade, falhamos miseravelmente com nossas mulheres.
* * *
Tive essa conversa com vários amigos e quase todos me disseram que eu estava delirando, que a experiência deles não era assim, que minha amostra era muito limitada.
E, de fato, pensei: o círculo de amigos do meu pai é bem restrito. Estou falando de homens brancos de classe média nascidos no eixo RJ-SP na década de 40, que enriqueceram/prosperaram nos anos 70 e 80, se separaram na década seguinte, e agora começam a se aposentar. Foram ou são empresários, banqueiros, altos executivos. Moram na Barra e em Higienópolis, em Ipanema e no Pacaembu, e têm casas em Búzios e Guarujá, Itaipava e Campos do Jordão. Não há dúvidas que se trata de um grupo totalmente a parte da sociedade brasileira.
Vai ver, pensei, não é o Brasil que é assim: só a República Leblon-Morumbi.
* * *
Então, mês passado, leio a matéria abaixo, do Diário de SP, e percebo que sim, estamos diante de uma tendência algo generalizada:
Viúva Jovem: Pensão do INSS é paga por 35 anos
SÃO PAULO - Até pouco tempo atrás, o tempo médio que uma mulher viúva recebia a pensão por morte do marido era de 17 anos. Agora, já são 35 anos. É que o mostra um estudo do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Paulo Tafner. Ele explica esse aumento pelo fato de dois terços dos homens separados acima de 50 anos se casarem de novo com mulheres mais novas.
Na faixa etária entre 60 e 64 anos, o percentual de homens que se casam com mulheres mais novas pula para 69%. A diferença chega a ultrapassar 30 anos. Além disso, dois terços das viúvas brasileiras têm atualmente outra fonte de renda.
- O Brasil não leva em conta se a viúva tem um emprego, diferentemente de outros países. Aqui, esse direito é vitalício e equivale a 100% da aposentadoria. O benefício também não depende da idade da mulher, do prazo decorrido da união ou se ela tem filhos menores - diz Tafner.
O país gastou R$ 25,9 milhões a mais em agosto passado com o pagamento de pensões por morte. Segundo a Previdência, o valor médio é de R$ 746. O número de pedidos de pensão por morte vem crescendo mês a mês. Só em agosto, foram incluídos 34.789 benefícios, 2,61% a mais do que o mês anterior, quando foram solicitadas 33.905 novas inclusões. Em junho passado, por sua vez, esse número era de 31.404.
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E, quando esse post já estava escrito faz tempo e esperando pra ser publicado, uma nova matéria da Revista Época (da minha querida Martha Mendonça, do saudoso Elas por Elas) apoiou outra percepção minha: de que as mulheres, depois de certa idade, tornam-se mesmo cada vez mais tristes.
Por que as mulheres são tão tristes?
Um estudo americano de 37 anos ilumina um terrível paradoxo: objetivamente, a vida das mulheres jamais foi tão boa. Subjetivamente, nunca foi pior.
Tema de reportagem do New York Times no dia 20 do mês passado, o paradoxo da infelicidade feminina ficou semanas entre as mais lidas e comentadas da versão on-line do jornal americano. “Será que a emancipação feminina beneficiou mais os homens que as mulheres?”, escreveu a colunista Maureen Dowd, conhecida por suas posições antifeministas. Indo mais longe, se poderia perguntar: será que os conservadores, que sempre denegriram o feminismo como antinatural, teriam razão? Será que as mulheres seriam mais felizes se retornassem ao papel tradicional de mãe e esposa? O assunto dividiu opiniões no blog de ÉPOCA Mulher 7x7. “Estou cansada? Culpada pela pouca atenção aos filhos? Sim. Sempre querendo ser a melhor no trabalho e também cuidar da beleza? Sim. Mas ainda assim prefiro a liberdade”, escreveu a leitora Carolina. Outra leitora, Andréa, pensa diferente: “Ao mesmo tempo que nossos direitos se multiplicaram, como acesso à educação, voto, mercado de trabalho, nossas responsabilidades cresceram exponencialmente. Temos de gerenciar casa, carreira, filhos, marido e ainda ser magras, cultas e sexy. Isso é irreal”. (leia matéria completa)
* * *
E vocês? O que vocês acham? Como é a situação no círculo social de vocês? E você, Jorge Nobre, o que acha da política de cotas nas universidades públicas?
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Meu romance, entre outras coisas, é sobre a complexa condição feminina no Brasil de hoje:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/38092 Posts similares:
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Atalho pra o formulário
O fracasso teria sido apenas para uma geracao de mulheres. Afinal, as hoje novas serao viuvas cedo e ainda terao a pensao do finado
-Cada mulher mais velha que eh trocada por uma nova gera um homem novo disponivel para a aquela mulher mais velha.
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