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A prostituição ainda está entalada na garganta de grande parte da classe mérdia pensante brasileira.
Que moças pobres e sem instrução tenham outra opção de atividade profissional que não seja limpar as latrinas e lavar as cuecas dos bem-nascidos, que essa opção inclua tomar posse plena de seus corpos para poder, como diz minha amiga Paula Lee, alugá-los aos seus clientes; que, ainda por cima, essa atividade seja perfeitamente legal apesar de ir contra toda a moral cristã, uau, deve ser mesmo difícil de engolir. Posso imaginar os carolas hipócritas rolando na cama, sem conseguir fechar o olho.
Melhor ainda, a prostituição foi uma das profissões de fato revolucionadas pela internet, ao permitir que as meninas criem seus próprios sites e escolham livremente seus clientes, sem a necessidade de cafetinas, bordéis ou intermediários, tornando-se assim verdadeiras profissionais liberais.
(O texto continua abaixo da imagem.)
Não estou celebrando a prostituição como carreira. Me parece uma profissão desagradável - mas não mais desagradável do que tantas outras carreiras que também me parecem desagradáveis, humildes como carvoeiro e faxineira, e não-humildes como advogado de divórcio e relações públicas. Mais uma vez, o que importa não é minha opinião ou que tipo de carreira eu desejaria para minha hipotética filha.
Ao manter essas carreiras legalizadas, o governo pode ter uma medida de controle sobre sua prática e dar treino, auxílio e suporte específico aos seus profissionais. Além disso, nos países onde a prostituição é proibida, acaba-se gastando precioso tempo e dinheiro, da polícia e dos tribunais, para perseguir e prender as próprias profissionais da prostituição - que seriam, de acordo com o espírito da lei, as vítimas da prostituição mas tornam-se na prática as vítimas da lei, sendo assim duplamente vitimizadas.
Recentemente, compararam a prostituição ao uso de drogas - uma atividade viciante, da qual geralmente não se pode sair sem intervenção médica e internação prolongada, que destrói o corpo e mata o usuário em pouco tempo! Seria até ofensivo, se as pobres prostitutas já não tivessem ouvido muito pior. E olha que esses são os seus bem-intencionados defensores!
Esse ano, na Praia da Barra, bem em frente ao prédio onde morei vinte anos, funcionários da prefeitura tocaiavam as prostitutas, tirando fotos delas e dos homens que as abordavam. Sem poder proibir as meninas de exercer legalmente sua atividade, a equipe do prefeito Eduardo Paes decidiu persegui-las e afugentar seus clientes. Não sei quanto tempo durou a operação, nem o que aconteceu. Conheço Eduardo Paes há 15 anos, sei que muitas das suas operações duram apenas o tempo no qual as câmeras estão rodando - depois, poof! Mas, em um país um pouco mais civilizado, as prostitutas teriam entrado com uma ação contra a prefeitura.
De qualquer modo, o importante era tirar as prostitutas dali. Elas são uma ameaça a todo um estilo de vida.
Não podemos expor os pobres pais e filhos de família, que naturalmente não tem auto-controle algum, a tamanha apetitosa e pecaminosa tentação.
Não podemos lembrar às donas-de-casa de meia-idade, mal-comidas e mal-amadas, que a prostituição só existe e só está ali porque homens como o seu marido, que já não comem mais as próprias esposas, ainda vão atrás de putas e são os principais responsáveis por manter essa profissão viva e florescente.
Não podemos lembrar às jovens da classe mérdia escorchada de impostos, bem alimentadas mas falidas, que elas podem ganhar numa trepada o mesmo salário que o estágio paga em um mês, ainda mais se forem universitárias, falarem inglês e tiverem todos os dentes.
Não podemos lembrar às domésticas que pode valer a pena (e ser mais digno e libertador) transar com um ou dois caras em uma tarde pra ganhar o mesmo valor pelo qual hoje trabalham o mês inteiro, dezoito horas por dia, com folgas em domingos alternados, sem nem poder trazer o namorado evangélico pro seu quartinho sem janela.
A prostituição é de fato um perigo para toda a família. Ela ameaça expor todas as pequenas hipocrisias que nos mantém juntos apesar de tudo. Não é a toa que são todos contra ela. Resta saber como conseguiu ficar legalizada tanto tempo.
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Alguns links:
Why Is Prostitution Illegal? http://www.slate.com/id/2186243
Porn vs. Prostitution: Why is it legal to pay someone for sex on camera? http://www.slate.com/id/2186552/
Hookers.com: How e-commerce is transforming the oldest profession. http://www.slate.com/id/73797/
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Outros textos meus sobre o mesmo assunto:
A Questão do Turismo Sexual
A Questão da Prostituição
A Questão das Prostitutas Brasileiras no Exterior
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Excelente livro da minha amiga Paula Lee, prostituta brasileira em Portugal.
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/37719 Posts similares:
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