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Não entendo muito bem o conceito de propriedade privada.
Quer dizer, hoje em dia, ele até faz sentido. Mas como surgiu? Naturalmente, é uma coisa que só faz sentido se você tem alguma propriedade, se tem algo a perder, se é rico. Para os pobres é muito mais vantajoso dividir tudo. E fico me perguntando: como os ricos, sempre em minoria, conseguiram convencer os pobres, a enorme maioria, que era do interesse deles um conceito tão absurdamente sem sentido e desvantajoso?
Fico tentando visualizar a cena. Na minha cabeça, seria mais ou menos assim:
Líder do grupo de pobres maltrapilhos:
Hmmm, deixa eu ver se entendi. Usando sua força bruta individual, você atacou cada um de nós separadamente e assim acumulou centenas de peles de animais que seriam para uso da tribo como um todo. Agora que a gente se juntou, estamos em maior número, temos a força bruta do nosso lado e viemos tirar isso tudo de você (como você tirou de nós antes), bem, hmmm, agora não pode mais, porque existe algo chamado "propriedade", o que é seu é seu, o que é nosso é nosso, e, mais ainda, se alguém pegar uma das suas peles ("roubar", como você diz), todos nós teríamos que nós unir e punir essa pessoa por ter violado seu direito, pois é do interesse de toda a sociedade, de cada um de nós, que todos respeitem a "propriedade" um do outro, é isso?
E o rico, sentado numa pilha de peles, cercado por centenas de maltrapilhos famintos, balança a cabeça, sorrindo, satisfeito consigo mesmo:
Exatamente! Você entendeu direitinho! Pode até ser o primeiro filósofo político! Eu já te contei do Contrato Social?
E o outro assobia e faz sinal chamando todo mundo:
Pra cima dele, cambada! E cuidado pra não cair sangue nas peles!
* * *
Naturalmente, também tem a piada dos dois caipiras:
Estavam dois caipiras, pobres de doer, sentados a beira da estrada. Um deles fala:
"Cumpadi, se ocê tivesse seis fazenda, dava uma pra eu?"
"Mais é craro, cumpadi! Ocê vai ser meu vizinho de portera!"
"E se ocê tivesse seis trator, dava um pra eu?"
"Craro que dava! O que que eu ia fazer com seis trator, cumpadi? Dava um procê e ficava cum cinco!"
"E se ocê tivesse seis cavalo, cumpadi, dava um pra eu?"
"Magina, cumpadi! Num ia precisar nem pedir! Um cavalo já é seu!"
"E se ocê tivesse seis camisa, dava uma pra eu?"
Mas aí o outro caipira já se empertigou e respondeu em tom mais sério:
"Ah, isso eu num dava não, cumpadi."
Depois de tanta generosidade, o outro ficou surpreso:
"Mais pruquê, sô? Ocê me dava fazenda, me dava trator, me dava cavalo, mais num me dava uma camisa, uai?!"
"Pruque seis camisa eu tenho!"


À esquerda, um livrinho sensacional e divertidíssimo, uma verdadeira etnografia antropológica dos ricos enquanto tribo, seus hábitos e seus costumes. À direita, um dos melhores romances sobre o dinheiro e seu efeito na vida das pessoas.
* * *
Que os ricos defendam o status quo e queiram manter tudo como está, isso eu entendo bem. Só os brancos podem se enganar achando que vivemos numa democracia racial. Quem é rico e tem o que perder defende sempre a lei e as instituições, quer continuidade e estabilidade, as regras estão aí pra ser seguidas, meu filho, lei é lei, dura lex sed lex, ela é injusta, mas fazer o quê?, vá reclamar com seu deputado, estamos numa democracia!, etc.
O que não entendo é que as pessoas para quem a lei SEMPRE é injusta também defendam essa mesma lei, também acreditem no sistema e nas instituições, também continuem votando nos mesmos deputados inúteis.
* * *
De vez em quando, nas mesas de bar do eixo Morumbi-Leblon, ouço um desabafo mais ou menos assim:
É absurdo isso! Eu sou (executivo de multinacional/gerente de banco/filho de pai rico/advogado/etc) e meu voto vale a mesma coisa que o de um favelado analfabeto que está ocupando um terreno ilegalmente na encosta do morro!
E depois que todos na mesa olham em volta pra garantir que não tem nenhum espião ouvindo, um deles continua, falando mais baixo:
Pois é, antigamente é que era bom! O sujeito só votava se tivesse um imóvel, uma renda fixa, um cargo no governo! Sabe por que? Porque essas pessoas tinham o que perder! Essas pessoas sim votavam com responsabilidade, pensando em suas familias, comprometidas com o destino do país a longo prazo! Mas se o cara é um favelado desdentado ignorante que vai morrer de bala perdida ou tifo antes do quarenta, ele não vai estar nem aí pra nada disso! vai votar no primeiro político corrupto que der camiseta, asfaltar um rua, pagar um bolsa-escola! É por isso que esse país está assim! Um absurdo!
E eu, geralmente calado e horrorizado num canto da mesa, me pego concordando. O pior é que esses putos têm razão: é um absurdo mesmo! Como foi que alguma elite, qualquer elite, de qualquer país do mundo, aceitou passar uma lei que colocou seu voto individual em pé de igualdade com os votos das mulheres, dos negros, dos índios, dos pobres, dos analfabetos? Realmente não faz sentido.
Mas aí eu penso mais um pouco, olho em volta, lembro da História recente do Brasil e do mundo, e me vem um estalo:
Uma elite (cheia de privilégios e propriedades a perder) só dá direito de voto aos pobres e desdentados (que não tem NADA a perder, a não ser a vida) quando já tem certeza absoluta de que a lavagem cerebral foi completa e que, contra toda lógica e auto-interesse, os pobres e desdentados vão sustentar o mesmo sistema que os mantém pobres e desdentados. Melhor ainda, se for preciso matar e morrer pra defender esse sistema, estão dispostos a perder até mesmo a única coisa que tem a perder e nem precisa muita manipulação para que coloquem seus uniformezinhos azuis, marchem um do lado do outro e matem alegremente outros pobres e desdentados de uniforme vermelho.
Sou filho da elite da elite. Quando penso que foi por mim que meus antepassados criaram todo esse sistema, para que eu na infância pudesse só estudar ao invés de trabalhar, para que eu pudesse ir a universidade sem que nunca me faltasse alguém pra lavar minhas cuecas e passar minhas camisas, para caso houvesse uma guerra não ter que ser eu a levar com uma baioneta no bucho, bem, eu fico até emocionado. Não deixa de ser um ato de amor.


Veblen me ensinou quase tudo que eu sei de economia. Além de um pensador brilhante, também era mordaz e engraçadíssimo. Muita gente que discorda de suas teorias ainda o lê como um satirista da sociedade americana. Poucos escreveram sobre os ricos como ele. Fitzgerald também dedicou-se a contar as aventuras e desventuras dos mais ricos: O Grande Gatsby é sua obra-prima e um dos melhores romances de todos os tempos.
* * *
Matéria do The Onion: Marxists' Apartment A Microcosm Of Why Marxism Doesn't Work)
* * *
Há cinco anos, divido uma casa nos Estados Unidos com vários roommates. No começo de cada contrato, é importante estabelecermos os limites de cada um.
Eu, por exemplo, tomei a decisão econômica de não ter carro (em um país onde quase que só mendigos não tem carro), mas, como gosto de cozinhar, gasto um bom dinheiro em apetrechos pra minha cozinha. Já aconteceu de um roommate riscar completamente minha caríssima panela anti-aderente. Outro, chegou ao absurdo de fazer feijão em um pote de metal que eu tinha comprado especialmente pra manter o frescor do café. Outra, chamou as amigas pra beber e, em uma única madrugada, quebraram 3 das 4 taças de vinho que Liloló tinha me mandado de presente.
Então, sempre que chega um novo roommate, eu levo ele pra cozinha, mostro tudo o que é meu e pergunto:
O que acha melhor? Que a gente divida tudo, o que é de um todos podem usar, ou que cada um só use as suas coisas e pronto?
Invariavelmente, o cara olha pro meu grill, pro meu microondas, pra minha torradeira, pro meu wok, e fala
Não tem porque tanta possessividade, não é? Melhor a gente dividir tudo mesmo, como não?
E eu respondo, na lata:
Maravilha! Então, me empresta a chave do seu carro pra eu tirar cópia. Esse semestre estou dando aulas às segundas e quartas ao meio-dia, e geralmente gosto de fazer compras às sextas à tarde. E o que acha de fins-de-semanas alternados? Fim-de-semana que vem estou querendo viajar, os pneus estão calibrados?
Nessa hora, subitamente, todos os americanos universitários proto-comunistas tornam-se defensores ferrenhos da propriedade privada e acabam concluindo que
é melhor mesmo cada um usar as suas coisas, não? Assim é mais justo e dá menos briga...
E eu respondo:
Bem, se você pensa assim, tudo bem, né? O importante é que foi você que escolheu.
É quase como observar o conceito de propriedade privada surgindo espontaneamente, sendo inventado ali mesmo, naquela momento. Do ponto de vista antropológico, econômico, sociológico, chega a ser bonito.
Dava pra escrever um paper.


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