A voz de mulher e a mulher sem voz
... O principal registro do livro, o tom mais óbvio e destacado, é a dicotomia eu-outra, falante-calada, voz-mudez. Júlia é sempre por Carla. Sua história inteira só nos chega através de sua maior inimiga, da esposa (quase) traída, da mulher enciumada e ressentida mas, principalmente, da vencedora. Sem tempo para filosofia barata ou babaquices politicamente corretas, Alex dá a voz ao establishment, dá ao historiador romano a liberdade de contar como quiser a história dos povos bárbaros vencidos, escreve a guerra do Iraque a partir do Kansas (ou mais propriamente, de New Orleans), deixa Ali Kamel mostrar como não existe racismo no Brasil.
E a voz de Carla, como toda aquelas vozes da história oficial, parece sempre sensata, sempre justificada. A loucura está lá longe, na outra, na pseudo-artista, na amante inconstante, na puta barata, na alcoólatra ocasional. A outra que existe para ser usada quando necessário, para cuidar da filha pequena ou aumentar as comissões de vendedora de Carla mas cujos desejos, opiniões, sonhos e paixões são sempre menores, errados, desimportantes, incômodos. A outra que não fala minha língua, então não deve ter voz.
Não passa uma página sem que Carla critique algum aspecto da vida de Júlia, desde seu modo de vestir até sua relação com a mãe, de sua incapacidade de manter um relacionamento às suas bebedeiras, de sua irresponsabilidade a sua futilidade.
We have met the enemy and he is us
O leitor pode simplesmente ler a história da esposa preocupada (mas lembrando sempre que, em psicanálise de boteco, preocupação é raiva, muita raiva) com a louca da amiga do marido. Como assim, “amiga do marido”?, perguntaria o outro leitor com um sorriso nos lábios. Desde quando maridos tem esta liberdade, a liberdade de amigas?
Então é preciso voltar e ler o livro ao contrário – quem diabos é esta Júlia? Da onde vem a força desta loucura, da onde parte o estranhamento? Por que a mulher livre precisa ser humilhada, pela narradora, pela sociedade, pela vida? Quanto ela tem que aguentar para se manter livre?
As mulheres de família sabem que o espelho não mente – a puta, a poeta, a artista, a viajante, a atriz, todas elas estão ali, no fundo, adormecidas ou mortas a facadas de realidade. Todas as curvas a esquerda que deviam ter sido à direita, todas as escolhas erradas, todos os homens que não as comeram ou para quem elas não deram, todas as sobremesas, todas as calorias, todos os porres que elas não tomaram, estes fantasmas da memória ainda olham do espelho e perguntam sempre, valeu à pena? Elas não precisam de uma desvairada que ameace todo dia mostrar que outro mundo é possível.
A última coisa que uma sociedade precisa é de uma minoria oprimida a esfregar na cara da raça/do sexo/da religião dominante a magnitude de seus crimes passados e presentes. A última coisa que Carla precisa de da amiga de infância do marido rondando seu casamento, esfregando na cara de Murilo todo o glamour do “poderia ter sido”, mostrando todo dia a diferença entre a artista incandescente e apaixonada que ele deixou passar para se casar com a vendedora/dentista/mãe.
O homem só
Mas claro que eu não estaria aqui falando de Mulher se fosse só isso. Eu talvez não tivesse nem terminado de ler se o livro se resumisse às lamúrias auto-piedosas da esposa exemplar. Há dezenas de outros níveis de leitura. Há por exemplo a terceira voz, muito fraca, o pobre Páris perdido nesta guerra de deusas.
Murilo, sempre estranhamente fraco, estranhamente ausente, quase sempre definido pelo negativo. Que não comeu Júlia (que Carla acredita que não comeu Júlia). Que perdeu a virgindade “em um puteiro de segunda categoria” (que contou esta historinha para boi dormir para Carla – quem naquele tempo, naquela classe social, naquela cidade, precisava ainda ir a um puteiro perder a virgindade? Ainda mais tendo Júlia ao lado louca para dar?). Que sempre fazia as vontade de todas as suas mulheres. Que seguia milimetricamente os passos do pai. Murilo que, como Páris no fim, talvez só quisesse um pouco de paz. Para ler a história de Murilo não bastam as entrelinhas e o espelho, é preciso ir buscar lá no título o homem que, arrastado à guerra de duas mulheres tão grandes, tão altas, tão terríveis, está só. ...
Mulher é um livro impressionante, a narrativa sempre inteira, o domínio da língua sempre presente mas nunca intrusivo, uma prosa que flui tão fácil que o leitor nem percebe o labirinto em que está se enredando até ser tarde demais. Inesperado, em meio ao eterno marasmo literário brasileiro. Um tapa na cara de cada editora que recusou-se a publicá-lo, uma prova da incompetência de cada assistente editorial que leu e não se arriscou a sugerir a seus chefes que ali estava um autor que merecia toda a atenção.
Um livro que me deu um prazer que quase só a poesia me dá. Que podia ser lido como um longo poema dramático, cada palavra pedindo a próxima. Ou como um épico moderno, cada parágrafo uma batalha, cada capítulo uma guerra. Tudo isto está lá, esperando para ser lido. Desliga a televisão, fecha o browser, sai do twitter, e vai lá ler. Agora.
Resenha de Paulo Cândido, originalmente publicada no blog "Todos os Assuntos do Mundo", 31 de agosto de 2009. Texto completo aqui.

E aí? Vai querer ser a última pessoa a ler?
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