Nas minhas aulas de humanas, seja como aluno ou como professor, depois de uma discussão particularmente quente sobre qualquer problema atual, sempre tem algum aluno que levanta o braço e pergunta:
"Tá, professor. Entendemos o problema. Priorizar as raças é ruim porque fortalece o racismo mas promover a mestiçagem é ruim porque estigmatiza quem quer assumir suas raízes. Mas qual é a solução então? Qual é a resposta? O que fazemos?"
Imagino que muitos leitores aqui devem ter sentido a mesma frustração. Em um primeiro momento, parecem pessoas práticas e de bom-senso, de saco cheia de tanta punhetação intelectual acadêmica, e que querem simplesmente sair na rua e resolver o problema, oras. Vivas pra eles!
Mas, se você pára e pensa, pode concluir que o que falta a essas pessoas é justamente parar e pensar. Então, um comentário que parece inócuo e positivo acaba se revelando perigoso, ao sugerir:
- Incompreensão sobre como funciona uma aula ou sobre qual é a função de uma universidade;
- Incapacidade ou indisposição para discussão, reflexão ou diálogo, ou seja, para buscar suas próprias conclusões;
- Ansiedade por respostas prontas e simples, e por ações concretas e fáceis de realizar.
Pra mim, parecem ser os candidatos ideais para compor uma multidão ensandecida, um partido fascista, um exército invasor, uma igreja evangélica.
Vai chegando o final da aula, e estão todos ali me olhando ansiosos, de lápis em punho, esperando pela resposta certa, querendo saber "afinal o que devem fazer!", e a impressão que tenho é que aceitariam qualquer besteira que eu falasse, desde que coubesse em uma frase e fosse fácil de decorar. Que bastaria dizer
Enfim, a culpa é toda dos brancos malvados e a solução é dar porrada neles. Agora!
e pelo menos a metade mais ingênua e influenciável da classe começaria imediatamente a dar porrada na outra.
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Então, depois de uma longa e frutífera discussão sobre um tema profundo e complexo, algum aluno sempre pede pela solução, pela resposta certa, pra saber o que fazer. E, assustadoramente, metade da sala balança a cabeça, em silenciosa concordância.
Quando respondo que não existe solução, que não sei a resposta certa e que não vou lhes dizer o que fazer, outro alguém sempre retruca:
Então, de que adiantou? Pra que ficamos duas horas aqui perdendo nosso tempo? Isso [querendo dizer essa aula, minha matéria, a disciplina, a própria universidade, a vida, sei lá] não serve pra nada!
E eu:
Mas se eu lhes dissesse o que fazer, então serviria pra alguma coisa? Eu acho que, pior do que não servir pra nada, seria extremamente perigoso. É pra isso que vocês vêm à universidade? Pra que qualquer um, só porque tem um doutorado e passou num concurso, lhes diga o que fazer? Vocês não querem chegar às suas próprias conclusões? Aliás, não acham que, sendo parte da mínima elite com educação universitária na Brasil, que têm obrigação de chegar às suas próprias conclusões?
E, vocês vão achar que é punch-line, ou licença poética, mas depois desse discurso sempre tem alguém de cara sonolenta que levanta o braço lá detrás e pergunta, de verdade, na lata:
Tá, professor, mas afinal, o que é que é pra colocar no teste?
E eu respondo, exausto:
Se eu perguntar "qual é a solução para o problema do racismo no Brasil?" vocês podem responder que eu mesmo disse que não sei qual é a solução. Mas acho que vou fazer uma pergunta um pouquinho mais difícil que essa... Talvez relacionada, hmm, com as leituras, quem sabe...?
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Muita gente considera esse ambiente estimulante. Outros, desagradável. O fundamental é que ninguém é obrigado a ler e, menos ainda, comentar e se expor. Depois não reclamem.
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Leia também:
- Vendemos Problemas, Não Soluções
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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Abaixo, recomendação máxima, um dos livros mais lindos, humanos, abertos, libertários, grandes!, que eu já tive o privilégio de ler:
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