Quando digo que o Brasil não é um país meritocrático, sempre surge na conversa o proverbial negro-favelado-trabalhador, que venceu todos os desafios da vida com muito esforço e muito estudo, e hoje é presidente de multinacional e tem duas loiras na garagem. E é mentira? Não, claro que não. Existem muitos casos assim. Mas e daí? É um em um milhão.
Sabem por que o Brasil não é um país meritocrático? Porque ninguém faz o caminho inverso. Sim, é possível que um favelado brilhante se torne presidente de empresa. Mas e as antas bem-nascidas?
Estudei na Escola Americana do Rio, na época a mais cara do Brasil. Um bom terço da minha turma era composto de gente inapelavelmente burra. Incompetentes, pouco articulados, preguiçosos, mal acostumados. Quantos deles vocês acham que hoje estão varrendo o chão? Nenhum. Mesmo o mais imbecil conseguiu passar no vestibular das Faculdades Integradas Tico e Teco, formou-se mal e mal advogado, e então, dependendo do nível de riqueza, ou o pai montou escritório e contratou gente competente pra dar suporte, ou o tio arranjou um emprego low-profile na empresa onde trabalha, ou um ex-colega de sala agora vereador chamou pra ser aspone. De qualquer modo, nem o mais inepto filho privilegiado da classe média vai parar ali onde seria o destino comum dos negros favelados - menos a excepcional exceção que vira presidente da Bic, claro.
Se você não se sente um privilegiado, pense nisso. Se conseguiu o seu primeiro emprego porque seu tio era dono da padaria, ou porque seu melhor amigo era concursado da Petrobrás e soube de uma vaga pra contratado, ou porque falava alemão fluente que aprendeu nos seis meses de intercâmbio em Berlim, você já está léguas e léguas a frente da grossa maioria dos brasileiros.
Um dos grandes empecilhos para o progresso pessoal e profissional de um jovem favelado é o simples fato de que todos seus amigos e parentes também tendem a ser favelados subempregados.
O manto de privilégios que cobre e protege a nossa classe média é tão espesso que basta o simples fato de você SER da classe média, e ter amigos e conhecidos e parentes na classe média, para que isso já lhe abra portas e lhe conceda oportunidades totalmente fora do alcance da maioria dos brasileiros.
O favelado mais excepcional entre os excepcionais, se vencer todas as armadilhas da vida, pode teoricamente conseguir cursar uma Federal, abrir uma empresa, ficar rico - mas só se ele não errar nunca, se nunca cair em tentação, se nunca for morto de bala perdida ou torturado pela polícia, e tiver muita, muita sorte. Já na classe média, não existem erros tão grandes, nem preguiça nem inépcia, capazes de transformar alguém em favelado faxineiro: na pior das hipóteses, dá-se um jeito. Sempre pode ser assistente administrativo do escritório do padrinho, balconista da videolocadora do tio, fica tranquilo, compadre, dá-se um jeito, ele não é nenhum gênio, mas é meu primo, e família é família, não?
É por isso, entre outras coisas, que o Brasil não é um país meritocrático. É por isso, aliás, que o próprio conceito de meritocracia não faz nenhum sentido, pois meu mérito individual nunca é só meu, mas está sempre corrompido ou viciado pelos méritos acumulados dos meus antepassados, na minha família, dos meus compatriotas. É por isso, entre outras coisas, que mesmo um cidadão de classe média baixa, daqueles que fala coisas como "é um absurdo eu gastar uma fortuna em escola particular e plano de saúde, e depois ainda ser escorchado pelo governo que não faz nada por mim!", ainda assim é um tremendo de um privilegiado em comparação à massa de cidadãos brasileiros que não teriam renda pra pagar nem escola particular e nem plano de saúde.
Em um país escroto, injusto e desigual como o nosso, não é preciso ter lancha de 40 pés ou ilha particular pra ser um privilegiado. Se você está aqui, lendo esse blog, ao invés de lavando chão pra ganhar salário mínimo, provavelmente é um privilegiado também.
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Capitalismo de Compadres
Estudo recente do IPEA decifra alguns números sobre o nosso capitalismo de compadres. Para os mais pobres, nem adianta ser mais escolarizado, pois continuam por fora das redes de contatos e apadrinhamento que protegem a classe média. Nas palavras do presidente do IPEA:
É estranha a interpretação de que quanto maior a escolaridade (do trabalhador), maior é a chance de emprego, porque isso não ocorre com os mais pobres. ... Há uma barreira, do ponto de vista da inserção, para trabalhadores pobres, apesar da escolaridade. É o chamado QI, ou quem indica. Isso não ocorre com os menos escolarizados, porque esses não dependem das relações sociais para conseguir emprego.
Leia mais:
- O IPEA, o antropólogo e o capitalismo de compadres
- Capitalismo de acesso
- Ipea revela que os mais escolarizados engrossam as filas de desempregados


"Igualdade e Meritocracia: a Ética do Desempenho Socidades Modernas", de Livia Barbosa & "Mediocracia ou Meritocracia", de Robert D'Alanjis
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As crianças, por não conhecer nada de diferente, aceitam a realidade como ela é. Para a criança privilegiada, seus privilégios são tão naturais que ela pensa que todo mundo os têm.
Então, um dia, por qualquer motivo (talvez lendo um blog), baixa aquela consciência da enormidade dos seus privilégios. De quanta coisa você tem ou teve que outros nunca tiveram.
Em um segundo momento, consciente de todos seus privilégios, você pára de reclamar dos privilégios que não possui e, mais importante, pára de lutar por mais privilégios.
Por fim, percebendo que somente isso não basta, mesmo que a custa de alguns sacrifícios pessoais, você começa a repassar alguns desses privilégios para quem nunca teve nenhum.
E assim o mundo começa a mudar.
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É impossível amadurecer sem ao mesmo tempo desnaturalizar o mundo, sem perceber que a sociedade, as instituições, a língua, nada disso caiu pronto do céu e que foram criados ao longo de processos históricos que não tiveram necessariamente um final feliz.
Nosso mundo atual não é o único possível. A maneira como organizamos nossa economia, nossa postura em relação às raças, a maneira como nos vestimos, literalmente tudo, poderia ter sido diferente - e ainda pode ser, se quisermos.
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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