Quando falo de racismo e privilégio, alguns leitores pensam que estou clamando por ação governamental ou propondo políticas públicas, e respondem que é um absurdo o governo querer se meter no problema das raças, que o governo não tem nada a ver com a desigualdade, que o papel do governo é outro, etc. Governo, governo, governo.
Não deixa de ser engraçado: porque não estou falando de governo em momento algum.
Pessoalmente, eu não confio em governos. Na dúvida, prefiro que o governo se meta o mínimo possível na sociedade. Não acho que o governo deve investir em cultura, por pensar que isso distorce a cultura e corrompe os artistas. Não vejo motivo para o governo ser dono de tantas empresas (é realmente necessário a ECT ter o monopólio da entrega de cartas?), mas também não tenho problema com isso, se estiverem fazendo um bom trabalho (Petrobras, Vale e afins). O modelo de universidades públicas no Brasil é perverso e insano, ao fornecer educação de primeiro mundo gratuitamente para a elite enquanto força os brasileiros de baixa renda a procurarem as terríveis universidades particulares, que eles ou se endividam pra pagar ou, pior, todos pagam pelo Pro-Uni. Entretanto, enquanto o sistema existe, não considero contradição aceitar dinheiro do governo para minha arte e procurar emprego em universidade pública.
Essas são algumas de minhas posições políticas em relação ao governo, mas vocês nunca vão ver esses temas desenvolvidos aqui no blog: são muito chatos e não tem nada a ver. Quando necessário, mando emails para meus representantes eleitos e resolvo o assunto com eles*.
O LLL é intensamente político, mas com outro viés. Aqui, eu não clamo por ação governamental e não escrevo sobre o que o governo deve ou não deve, pode ou não pode fazer. Enquanto tema desses ensaios, o governo, simplesmente, francamente, não me interessa muito.
Minha preocupação nesse blog é fazer vocês, leitores, um por um, refletirem sobre alguns problemas que acho importantes, urgentes, interessantes. Nem precisam concordar comigo: se só pararem pra pensar sobre um tema sobre o qual nunca tinham pensado antes já é uma vitória. Depois de pensar, pode ser que concordem comigo, pode ser que reforcem sua opinião anterior, não faz diferença. O importante é que agora essa questão não é mais "natural", não é mais um "dado" da vida que você aceitava acriticamente, mas sim uma conclusão sua, conquistada depois de alguma reflexão.
Uma vez que decididam o que acham, é fundamental (aliás, inevitável) tomar uma ação política a respeito. A omissão e a auto-ilusão de ser apolítico são algumas das formas mais comuns de ação política. Sugiro que encontrem representantes legislativos que concordem com suas opiniões e votem neles para representá-los a nível municipal, estadual, federal. Escrevam para seus representantes, exponham suas opiniões, exijam ação política sobre temas relevantes e façam questão que eles saibam não só que trabalham pra vocês, como que seus contratos são renovados a cada quatro anos. Já deixei de votar em gente que não respondia meus emails*.
Só não esperem que seja EU a dizer, ou mesmo sugerir, que ações políticas devem tomar. Isso é entre vocês e seus representantes eleitos. Eu só levanto as questões: as conclusões são por sua conta.
O objetivo desse blog é fazer com que você desnaturalize todas aquelas noções e conceitos que lhes pareciam mais naturais.
Ser um animal racional é isso. Bem-vindo ao clube.


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*Nos últimos quinze anos, votei repetidas vezes em três políticos de matizes bem diferentes, sobre os quais tenho várias críticas pontuais, mas que sempre se comportaram como políticos profissionais dignos, responderam todas as minhas comunicações e me fizeram sentir bem representado: Fernando Gabeira, Eduardo Paes e Carlos Minc. Foi estranho e instrutivo ano passado ver os dois primeiros se digladiando no segundo turno da eleição para prefeito e ver o terceiro pagando alguns micos como Ministro do Meio Ambiente. Para bem ou para mal, os três estão em ascensão e se tornando cada vez mais conhecidos nacionalmente.
Tenho algumas reservas, claro. Com a recente polarização da política brasileira, Gabeira e Paes estão sendo empurrados cada vez mais pra direita, o primeiro entrando de fininho e o segundo se enfiando mais fundo lá dentro. Me preocupam também as palhaçadas públicas do Minc, os novos companheiros de cama do Gabeira, e algumas iniciativas autoritárias de Paes na prefeitura, mas por enquanto ainda gosto dos três, acompanho suas carreiras de perto e votaria neles de novo. Nenhum até agora fez nada de eliminatório - como o FHC, que perdeu pra sempre meu voto e meu respeito, ao mudar as regras no meio do jogo e apoiar a própria releição. Nem mesmo um canalha como Reagan, que no auge da sua popularidade tinha muitos fãs pedindo por isso, teve tamanha cara-de-pau. Votei em Lula em 2002, não votei nele 2006 e hoje - especialmente considerando as escolhas que teremos que fazer em 2010 - gostaria muito de um terceiro mandato de Lula, mas não ao custo de mudar as regras no meio do jogo outra vez.
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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