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Faz alguns dias, coloquei em exposição alguns comentários de uma leitora que assina Indy. Considerei que os comentários faziam uma antologia bem exaustiva de vários lugares-comuns racistas brasileiros e que mereciam ser lidos.
Depois disso, começou uma chuva de acusações e carapuças: a Indy de um lado dizendo que não era racista e outros, dizendo que era.
Mais uma vez, vocês não vêem a floresta porque ficam prestando atenção nas folhas.
Eu nunca acusei nem jamais acusaria ninguém de racista. Um, porque é mal-educado. Dois, porque o racismo ou não das pessoas individualmente é irrelevante.
Ninguém está inocente nesse tribunal, nem mesmo as próprias vítimas - que muitas vezes são os algozes de si mesmos. Quem pode levantar a mão e jurar, de cara limpa, sua completa inocência?
Por um lado, uma típica tática do deixa-disso brasileiro é definir racismo de modo tão restritivo que a palavra se esvazia. Realmente, se racista é só aquele cara que ativamente vai lá e dá na cara do negro, então racista não é mais quase ninguém, problema resolvido.
Por outro lado, instituir uma caça às bruxas aos "racistas" entre nós também é um caminho sem volta, pois acaba fazendo do racismo um pecado quase religioso, daqueles que se comete até em pensamento. Outro dia, um leitor adolescente me escreveu, angustiado: "Eu só sinto tesão pelas loiras gostosas, nunca pelas mulatas! Será que sou racista??"
E respondi que não sou tribunal pra sair decretando quem é racista e quem não é. E nem vocês, amigos leitores. Nossa sociedade é complicada demais pra isso. Nada é tão simples assim.
O problema do Brasil não é o racismo individual de uma ou outra pessoa, mas o racismo estrutural, constitutivo, de nossa sociedade.
Não estou propondo de modo algum uma reflexão individual sobre nosso próprio racismo como pessoas. Isso não adianta nada. Vai ter gente dizendo que não é racista porque nunca linchou um negro e outro vai dizer que é racista porque só sente tesão por loiras. E daí?
Estou propondo uma reflexão sobre como funciona o nosso país, sobre nossa história, sobre nossas dinâmicas sociais, sobre nossa política, sobre nosso padrão de beleza, sobre nossa literatura.
A própria estrutura da nossa sociedade é tão arraigadamente racista que não é necessário haver pessoas-de-opiniões-racistas no controle. De certo modo, essas pessoas seriam até contra-producentes: chamariam muito atenção. Basta que todos façam seu trabalho honestamente, que a polícia pare os cidadãos mais propensos a serem presos ou que as lojas contratem sempre vendedores de boa aparência, além de mil outras pequenas coisas que nos soam totalmente naturais, e pronto, os negros continuarão efetivamente afastados dos centros de poder - sem que exista uma única lei contra eles!
Mudarmos nossas próprias opiniões é razoavelmente fácil. Nossa tarefa é mudar as próprias bases da sociedade. Reescrever nossa teoria de Brasil.
* * *
O Baralho Viciado
Escreveu o Plausível:
"Se existe essa entidade diáfana chamada "racismo estrutural" q existiria MESMO q ninguém fosse racista, então vc tá falando da NATUREZA das coisas, q é da natureza da coisa social se organizar dessa forma em q o negro está "sempre" em desvantagem, q é da natureza dos grupos multi-étnicos terem um bias contra o negro. E mais, q justamente POR ISSO é preciso uma legislação q, digamos, DOME a natureza em prol de uma ética artificial, criada ou desenvolvida pelo homem."
Precisa realmente explicar isso, meu deus? Então, vamos lá, didaticamente, pra todo mundo entender e poder citar depois:
Nossa sociedade (a "coisa social" do Plausível) não se organizou sozinha, nem caiu pronta do céu: foi organizada por muitos homens, ao longo de muitos séculos, e obedece, via de regra, aos interesses de quem a organizou - interesses muitas vezes conflitantes e contraditórios, pois a sociedade é fruto não de uma "conspiração a portas fechadas", mas de um longo processo social e político.
No caso do Brasil, nossa sociedade foi engendrada por uma elite racista, classista, hierarquizada, machista, paternalista, hipócrita e autoritária, e continuamos funcionando de acordo com esse paradigma até hoje, mesmo que sob o verniz da democracia e do estado de direito.
Então, se todos os brasileiros magicamente deixarem de ser racistas mas as estruturas e instituições permanecerem inalteradas, essa nossa hipotética sociedade sem racistas continuará intrinsecamente racista e marcada pela mais profunda desigualdade racial.
Na prática, não adianta nada que o Diretor de Recursos Humanos não tenha um pingo de sentimentos racistas se ele, mesmo assim, não contrata recepcionistas negras por saber que isso iria desagradar o dono da empresa. E, digamos que a contratatasse, o chefe apareceria em sua sala dando esporro ("foi você que contratou aquela morena da recepção?!") não por ser racista, claro, mas porque "nunca sabemos o tipo de cliente que pode entrar, que tipo de preconceitos ELES têm, então é melhor não arriscar e contratar uma loirinha."
Eu acredito de pés juntos que tanto o diretor quanto o dono da empresa não tem um pingo de sentimentos racistas em seus corpos, mas o fato é que negaram oportunidade a mais um negro em nome de um cliente racista hipotético - assim como acredito que não são racistas as pessoas se opõem às cotas porque dar benefícios aos negros poderia criar "conflito racial" e "deixar irritados muitos racistas" - esses também hipotéticos, claro.
Acredito nos bons sentimentos de todos, mas não deixo de achar incrível que, mesmo ninguém sendo racista nessa nossa democracia racial tão linda, o resultado final dessas situações, e de tantas outras, é que os cidadãos brasileiros negros sempre acabam se fudendo.
O baralho que herdamos dos nossos antepassados já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. Não basta somente que nós, os jogadores beneficiados, simplesmente não trapaceemos. É necessário trocar de baralho.
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