A leitora Indy postou nos comentários um depoimento pungente sobre uma história de horror que viveu:
No pré-escolar tinha um menino chamado Adelson (negro tbm)ele me batia,tomava o meu lanche e me chamava de leite azedo,e eu ñ podia sequer chamar ele de "tição" "carvão" ou alguma coisa da cor preta.(é nesse tempo preto ainda era preto,e ñ negro) Tipo o menino atormentou a minha vida até a 3° serie e eu nunca podia dizer nada,pois ele era negro.E isso dava-lhe algum tipo de imunidade.O pior é como as professoras agiam,elas me falavam pra ñ ligar e que meninos eram assim mesmo,mais eu ñ me lembro de enhum menino branco fazendo isso comigo,é claro que é só um detalhe.As professoras agindo daquela forma me passavam a informação de que:
Ele é negro e vc é branca,então nada do que ele te fizer,vai compensar a opressão que o povo dele sofreu.
Eu ñ entendia,viviamos no mesmo bairro,eramos pobres do mesmo tanto,estudavamos na mesma escola publica.E a unica diferençaentre eu e ele era:
Sexo feminino da cor Branca
Sexo masculino da cor negraE só o fato dele ser negro,me impedia de dizer umas pucas e boas pra ele.Porque qualquer ofensa ñ seria vista como forma de extravassar minha raiva e sim de mostrar o meu "racismo",coisa que eu ñ tinha e nem tenho,pouco me importava se ele era negro ou branco,eu só queria que ele parasse de tomar o meu lanche,ora bolas!
E a leitora Andreia comentou em resposta:
Quanta injustiça! o menino roubando seu lanchinho na escola, chamando a menina de leite azedo e, coitada, ela sem poder chama-lo de "tição" "carvão" ou alguma coisa da cor preta! Sem poder fazer nada pq o menino era negro! A professora não deixava, a sociedade não deixava, a boazinha da Princesa Isabel não deixava!
Aí aconteceu o que?, vc caiu da cama, acordou e resolveu que aqui seria um bom lugar pra publicar sua estorieta?
Quanto a mim, eu fico só imaginando a cena: uma pobre menina branquinha loirinha sendo atormentada por um tição malvado, o negrinho no meio do pátio do colégio dando sapatadas na cabeça dela, a pobre menina olhando em volta, estendendo os braços, pedindo ajuda, e todos os professores, alunos, colegas e funcionários fingindo que não vêem, não podem interferir, estão todos de mãos atadas!, até que, finalmente, uma professora nova (talvez estrangeira, não sabe ainda como as coisas funcionam no Brasil) faz menção de ir ajudar, mas as colegas, nervosas, suando frio, olhos esbugalhados, a seguram pelo braço:
"Não, Anne-Marie, não faça isso! Não interfira! Você... você não entende como as coisas funcionam no Brasil.... Não entende a ditadura a que nós, as branquelas, estamos submetidas.. Ele é... *engasga* negro.... Ele pode fazer o que quiser! Vamos torcer apenas para que não queira estuprar a pobre menina! Sabe como são esses negros! Nesse caso, seríamos obrigadas a... a... olhar pro outro lado! Ó deus, até quando vai durar essa opressão?!"
Leia também "Essa Tal Supervalorização do Negro"

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Isso sem falar das acusações de que ela fantasiou o episódio, como se pudessem saber.