Quem Faz Usucapião de Murilo, Afinal?

Mulher de Um Homem Só

Um livro ... que ... retrata muito bem os limites de uma amizade intima entre o sexo oposto e o relacionamento afetivo de um casal, bem como a interferência que isso tem e de como isso funciona para os três indivíduos envolvidos.

Não tem como não gostar do livro. O jeito leve e envolvente do livro cativa o leitor a lê-lo de uma vez só, como se a narradora, Carla, estivesse ali batendo papo com você. Para mulheres então, nós adoramos isso! Foi por essas e outras que meu namorado comprou o livro e me disse: "Comprei especialmente para você, leia primeiro" ;)

... "Mulher de um homem só" consegue retratar bem a situação de duas mulheres que devotam a vida a um homem que representa praticamente tudo em suas respectivas vidas, seja pela importância ou o papel que ele assume.

Poderíamos dizer que o título de mulher de um homem só caberia muito bem a esposa, Carla, visto que conforma sua vida em torno do casamento precoce e pela postura de colocar o marido sempre no centro de sua vida, sendo que parece que o foco de sua vida não é mais voltado para si, e a partir daí, abre mão de muitas coisas para ficar dependente de só uma.

No entanto, existe mais uma mulher envolvida no enredo e esta tem relevância fundamental: Júlia é a pessoa que está presente desde a infância do marido de Carla, sendo uma melhor amiga de todas as horas e totalmente devota ao amigo, sendo ele um pai, um irmão, um psicólogo e muito mais... Esse muito mais que preocupa :P

Pois é, nós, mulheres, temos sérias dificuldades para entender uma amizade assim, fato. Até porque - como se revela (!) e se confirma no livro (obrigada Alex, não era paranoia nossa, nem infundamento de Carla) -, sabemos que é muito difícil uma pessoa ser unida assim e não ter nenhuma segunda intenção ou desejo... (é claro que existem muitas exceções nessas situações, por exemplo, se o homem é homossexual, se a mulher já é realmente apaixonada por outro e enfim..., é algo muito relativo). Há quem venha com o argumento de que um olha para o outro como se fossem irmãos, que não há atração alguma... No entanto, isso é muito permeável, relações de amizade e amor seguem uma linha tênue...

E afinal, qual é o limite da intimidade? Acho que isso é uma questão muito interessante levantada pelo livro.

O mistério do livro é o Murilo, o marido e amigo. Realmente gostaria de ter mais pareceres sobre ele, de suas origens, de suas razões e de muito mais. E aliás, Carla esqueceu de contar algo crucial em sua história, algo que muitas mulheres adoram contar, como os dois se conheceram. Mais interessante seria Murilo contando isso, retratando a relevância que Carla assume em sua vida para os dois formarem um laço matrimonial, porque, oficialmente, quem é a mulher dele é Carla. Poderia ser clichê, mas adoraria se o livro tivesse uma continuação assim: 'Homem de só uma mulher' ou de duas, afinal. Imaginem, "Homem de duas mulheres"! Mas sinceramente, Murilo não me transpassa essa dualidade. Isso que é difícil para eu, como leitora, conseguir lidar... Afinal, é difícil não conseguir formar um parecer concreto de um personagem, de maneira a deterministicamente saber "se eu posso gostar ou ter raiva dele", só odeio essa neutralidade de sentimento que tenho de assumir por ele. ;P

Voltando a questão do título, Alex Castro no seu posfácio conta que lhe interessava, primeiramente, o título "Uti possidetis", e eu adorei demais, porque para mim se adéqua perfeitamente ao livro. Com a intenção de significar usucapião - que em português não fica tão bonito nem tão agradável como em latim, mas... - levanta reflexões muito interessantes ao livro. Quem estaria fazendo usucapião de Murilo, no final das contas? Quem se intrometeu na história, seria a mulher oficial no meio da amizade de Murilo e Júlia ou a Júlia que não soube restringir-se a sua singela posição de apenas amiga? Ou seria Murilo o culpado de toda essa confusão, por não saber estabelecer os limites dessas relações? Isso é muito interessante!

Pois então, no critério narrativo, a narração feminina é incrível! Pelo menos, mais uma vez, eu como mulher, adorei. É realmente muito identificável todas as atitudes que Carla assume, em torna-se amiguinha próxima de Júlia também, escutando todas as "julices" (adorei isso!), porque afinal, nenhuma mulher quer a melhor amiga do respectivo marido fazendo intrigas no relacionamento... E sim, ciúmes: inevitável. Inevitável para qualquer um, ainda mais para qualquer mulher. Mas olha, não posso tirar a razão de Carla - apesar de uns grandes exageros (mas mulheres tendem a hipérboles e desesperos nessas horas mesmo) - por existir até uma base no fundamento de ciúme dela, segundo a regra: oportunidade + 'motivo'. ...

Indico o livro e recomendo veementemente, especialmente para muitas amigas minhas, haha! ;D

Resenha de Agatha Brandão, publicada no blog "Pequena Infante" em 2 de setembro de 2009. Texto Completo aqui.

* * *

Só pra Agatha, um trecho exclusivo, eliminado e não-canônico do penúltimo parágrafo da primeira versão de "Mulher de Um Homem Só":

Estavam os dois em Grumari, há muito tempo, alguns dias antes de eu e o Murilo nos conhecermos, lá no Pedro I, onde ele foi mesário, eleição ainda de papel, e nós tão moleques, votando pela primeira vez e achando o máximo, Murilo pediu licença rapidinho, saiu logo atrás de mim, e apesar de ele nem me conhecer e já ter feito pouco do meu voto, eu agarrei ele ali mesmo no campo de futebol do colégio, e até hoje sustento que o Dr. Ulysses era um velhinho muito fofo e teria dado um excelente presidente, melhor que Murilo que votou no Collor e olha o que deu!, mas enfim, alguns dias antes disso, Murilo e Júlia estavam andando pela praia de Grumari, falando de política, preciso dizer que Júlia votou no Gabeira?, quando passaram por uma colônia de ciganas, vocês já viram?,

Mulher de Um Homem Só

 

10.09.09



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Comentários:



Isso é muito comprometedor, Alex! Murilo votou no Collor?! Que horror! Ainda bem que vc tirou isso do livro.

PermalinkPermalink 11.09.09 @ 10:15



Comentário de: Agatha · http://pequenainfante.blogspot.com/

Ei Alex! Fico extremamente contente em ver meu singelo texto por aqui, haha! ;)
Muito obrigada pelo reconhecimento e ainda mais pelo trecho especial para mim, muito muito bom saber, bastante interessante e consegue atender algumas boas curiosidades de minhas reflexões!

Beijos!

PermalinkPermalink 12.09.09 @ 02:14



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