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O Brasil não tem conflitos raciais mas, ao ficar falando de racismo e estimulando as pessoas a se identificarem racialmente, você arriscam criar conflitos que nunca existiram.
Minha opinião é oposta: acho que a falta de conflitos raciais é um dos grandes problemas do Brasil.
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Muito estrangeiros consideram os Estados Unidos, por exemplo, uma nação fraca por causa de seus conflitos internos. Do ponto de vista, digamos, de uma nação pacífica, como a Arábia Saudita, os EUA são um poço de crimes, contradições, ódios. E eles têm razão. A diferença é que os conflitos são a fonte de força dos EUA, não de fraqueza.
Sociedades que não tem conflito são em geral estratificadas e anti-democráticas. Não existe conflito porque uma classe social, etnia ou grupo religioso está totalmente sob o controle de outra, especialmente se essa superioridade já está culturalmente introjetada. As mulheres africanas não se revoltam contra a circunsição feminina porque elas sabem que são naturalmente mais propensas ao pecado e que o prazer sexual só serve para estimular a luxúria. Como poderia haver conflito nesse cenário?
A paz, via de regra, só existe dentro de uma hierarquia pré-definida. O confucianismo foi uma tentativa de resolver as disputas internas que convulsionavam a China: dentro desse sistema, sempre se sabe exatamente quem manda e quem obedece. A hierarquia militar funciona sob a mesma lógica: quando um capitão fala, o tenente obedece; quando o tenente fala, o cabo obedece; quando falam dois tenentes, vale o mais antigo; etc. O importante é: sempre se sabe, sem sombra de dúvida, quem é o superior. Se todos aceitam as premissas, não há possibilidade nem espaço para conflito.
Por outro lado, terça feira agora, 8 de setembro, o presidente dos Estados Unidos vai fazer um discurso em rede nacional para os alunos da nação - e já está em curso um movimento para que as famílias deixem seus filhos em casa, ou que não permitam que assistam, para não sofrerem "lavagem cerebral com os dogmas liberais". Sob pressão dos pais, muitas escolas declararam que não obrigarão os alunos a assistir, e muitas não vão nem mesmo passar o discurso. Parece coisa de maluco, mas são cidadãos encarando o governo mais poderoso do mundo e brigando pelo direito de eles mesmos lavarem os cérebros de seus filhos. Do ponto de vista de uma sociedade estratificada, anti-democrática e pacífica, parece ser mais um exemplo de como os EUA são uma nação fraca e dividida. Do meu ponto de vista, é um exemplo da força das instituições democráticas americanas -cuja prática nem sempre está a altura da teoria, todos sabemos bem disso.
As democracia se baseiam no conflito. Quando você tem uma massa de cidadãos com os mesmos direitos civis e políticos - pelo menos, segundo a letra da lei - eles vão entrar em conflito o tempo todo. Vão uns processar os outros. Vão tentar puxar as sardinhas pros seus lados. Vão eleger deputados que irão defender bandeiras radicalmente opostas no Congresso. A própria estrutura do governo já prevê um conflito contínuo entre os três poderes - teoricamente, esse conflito garantiria a democracia, ao não permitir que um poder tenha ascendência sobre os outros.
Acho graça quando batem no peito pra dizer que somos uma nação pacífica e sem guerras. Claro que somos. Mas isso é bom? As independências hispano-americanas foram sangrentas porque, de fato, se tentou uma mudança institucional radical. A nossa foi pacífica porque foi uma assunto de pai pra filho no qual nada fundamentalmente mudou - a não ser para quem iam as receitas alfandegárias. Assim é fácil ser pacífico.
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É verdade que no Brasil não existe conflito racial? Claro que sim. Isso é bom? Claro que não.
No Brasil, não existe conflito racial porque o negro sabe o seu lugar*.
Quando falo de racismo, muitos leitores respondem apontando que muitas vezes os negros são mais racistas que os próprios brancos. Esses leitores parecem não entender que, além de ser tristemente verdade, essa fato é mais uma comprovação do racismo endêmico e generalizado do Brasil, um racismo transmitido e sustentado por todos os meios de comunicação, pelos nossos ditados populares, pelos nossos costumes, pela nossa literatura infantial, pelas nossas lendas folclóricas, pela própria língua. Como esperar que os próprios negros não sejam influenciados e não introjetem todo esse preconceito? Como esperar que uma menina negra, em fase de formação, não se identifique com as princesas loiras dos contos de fadas? (clique aqui e assista o vídeo no finalzinho do post)
Sim, falta conflito racial no Brasil. No Brasil, o negro sabe o seu lugar: os conflitos começam somente quando ele tenta sair desse lugar e ocupar outra posição socioeconômica. O negro brasileiro, imerso no mais profundo, avassalador, disseminado, estrutural racismo, ou introjetou sua própria inferioridade e acha que não merece um lugar melhor que o atual, ou então, por se saber cidadão de terceira categoria, sabe que a luta seria vã, que começar um conflito que não pode ganhar só pioraria as coisas, e educa seus filhos para serem humildes, calados, pra não chamarem atenção e não criarem problemas.
No Brasil, nunca houve leis racistas proibindo negros de ingressarem em restaurantes, hotéis, tribunais porque a própria estrutura socioeconômica perversa já era garantia mais do que suficiente de que negros somente entrariam nesses ambientes pra varrer o chão e servir café. O Brasil é tão arraigadamente racista que nunca nem precisou de leis racistas para manter seus negros em posição totalmente inferiorizada.
A falta de conflito racial no Brasil é a paz do mais forte que é tão mais forte que sua dominação nem mesmo é contestada e do mais fraco tão mais fraco que nem vale a pena começar a brigar. Assim é fácil não ter conflito racial.
A Pax Romana também foi uma era inigualada de paz e tranquilidade: a Europa inteira estava ou sob controle dos romanos ou temerosa de vir a estar. Os romanos mandavam e todos obedeciam. Não tem como ser mais pacífico do que isso.
A questão é outra: isso é bom?
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Nos EUA, esse país que no imaginário ignorante brasileiro é um inferno racial, um professor negro foi preso ao tentar entrar na própria casa. O incidente virou assunto nacional, dando origem a mais uma reflexão sobre o racismo no país.
No Brasil, o caso de um cidadão que foi espancado e torturado pelos seguranças de um supermercado e pela própria polícia, acusado de roubar seu próprio carro, demorou mais de duas semanas a aparecer no primeiro grande jornal e o assunto foi rapidamente enterrado. Cadê reflexão nacional? Zero.
Abaixo, alguns links para ambos os casos. Basta usar o google para perceber a discrepância. Busquem pela prisão do professor e encontrarão matérias dos principais jornais dos EUA. Busquem pelo cidadão torturado e só encontrarão posts em blogs - a maioria estrangeiros.
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O Brasil seria um país muito melhor se houvesse um pouco mais de conflitos raciais; se episódios como esse repercutissem por todo país e fizessem mais pessoas repensarem suas opiniões idiotas; se mais negros lutassem por seus direitos; se mais brancos fossem abertamente (ao invés de insidiosamente) racistas; se um lado tivesse pelo menos um terço das baixas do outro.
As pessoas tendem a ficar mais conservadoras e pacatas com a idade, mas eu sempre fui todo ao avesso mesmo. Quanto mais envelheço, quanto mais viajo, quanto mais conheço a História, quanto mais vejo a condição de vida de quem está por baixo, quanto mais escuto as opiniões canalhas de quem está por cima, mais me convenço de que certas situações, deus que me perdoe, só se resolvem com sangue correndo na rua.
Aliás, sangue correndo na rua é o que já não falta. A questão é: de quem?
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Alguns links
Sobre o discurso de Obama aos alunos da nação:
- Obama school speech suddenly a prickly topic for educators
- Obama speech to students: Is flap a sign of polarized times?
- Resistance to Obama school speech just plain ’silly’
- Conservatives wave red flags over Obama school speech
- School district won’t share Obama speech
Sobre o professor preso ao entrar na própria casa:
- Gates arrest: racial profiling or 'tempest in a teapot'?
- Cambridge Cop Accidentally Arrests Henry Louis Gates Again During White House Meeting
- This Post Is Not About Henry Louis Gates Jr.'s Attempt To Enter His Own Home In Cambridge, MA (o melhor texto sobre o assunto, ao mostrar as maneiras como brancos, mesmo sem saber, colocam seus amigos negros em perigo)
Sobre o cidadão torturado por roubar seu próprio carro:
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* Tentei encontrar o autor dessa lapidar frase, mas encontrei-a atribuída a Millor Fernandes, Érico Veríssimo, Roberto DaMatta, etc. Ou seja, já virou domínio público.
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