Ricardo Cabral e "Mulher de um Homem Só"

Ricardo Cabral, homem sensível, amigo, blogueiro do Ágora com Buraco no Meio, também leu "Mulher de um Homem Só" e escreveu um belíssimo post:

Como sabia que se ficasse na cama não voltaria a pregar o olho de novo, fui para a sala, peguei o livro e sentei numa poltrona, na expectativa de que a leitura àquela hora da manhã fosse um bom indutor ao sono. Que nada. Só parei de ler na página 115, por culpa de um telefonema que me fez adiar para as seis da tarde as sete páginas que faltavam até o ponto final da história.

Não me alongarei em análises de qualquer espécie. Não tenho a expertise necessária para tal, e já disse isso ao Alex. Atrevo-me a comentar duas coisas, no máximo. Primeiro, que a Carla, personagem que narra a história, me convenceu. Concordo com o que outras pessoas já disseram antes de mim: Carla é uma mulher, sim, nunca um homem tentando pensar/falar/agir como se mulher fosse. Só por isso, pontos para o autor. (Tudo bem, você pode mesmo dizer que eu não sou mulher, que por isso não posso entender o que se passa realmente na cabeça de uma e blá blá blá. Direito seu, mas antes de chegar a uma conclusão dessas apoiando-se apenas nesse ponto, seria bom que batêssemos um papo antes. Dar a alguém o benefício da dúvida costuma ser um gesto salutar.) E segundo, que o ritmo da narração é perfeito o ideal em relação à história e a quem a conta. Nem me senti atropelado pelas palavras da Carla, nem tampouco fiquei entediado. Consegui escutar perfeitamente o (e permanecer atento ao) que ela disse, até (a)os seus parênteses. (Como já gosto de alguns, posso atestar que os parênteses dela são ótimos.)Mulher de Um Homem Só

Só um detalhe curioso (para mim), que notei por conta do ritmo da narrativa. Vi que a Carla tem o hábito de fazer três observações sobre o que quer que seja. Não é algo que aconteça em todas as ocasiões, mas ocorre bastante. É como se o número três servisse tanto para descrever uma sequência lógica de eventos, para explicar bem explicadinho como ela entende que as coisas são (ou deveriam ser) e para sustentar melhor suas teses, o terceiro item/argumento para reiterar aos demais — ao ouvinte/leitor e a ela mesma — que não resta nenhuma dúvida de que o que ela diz é líquido e certo.

Logo no começo, descrevendo Murilo:

…não tinha grandes despesas: estudava em universidade pública, almoçava bandejão e mal jantava. (p. 6).

Mais uma:

…Murilo não sabe nada e isso me exaspera, porque ele não sabe o seu lugar, e nunca se decide e nunca tem certeza. (p. 45)

Carla falando de si:

E acho graça que só tinha que só tinha dezoito anos e que nem sabia o que era casamento: fui aprendendo. Estudei com afinco, levei muita bomba e vivia sendo mandada para a sala do diretor. (p.8)

De novo sobre Murilo, agora em relação a ela:

Mas o fundo é sempre mais embaixo, nem sei onde, e lá o Murilo nunca se aventurou. Casou com uma rocha, se satisfez com a rocha e uma rocha era o que esperava que eu fosse. (p. 13)

A propósito de Júlia:

Rêmora atrelada, lombriga faminta e urubu ansioso, até seus grandes momentos coincidiam com os nossos. (p. 99)

Há exemplos melhores e em maior número para ilustrar minhas impressões, mas estou com preguiça de procurar por eles agora. Fico apenas com esses cinco, encontrados ao acaso. Só falta acrescentar algo mais: dizer que espero pelo próximo livro do Alex, expectativa de ver mais notas de tristeza e drama, diferentes de um certo (e acertado) tom de vaudeville — delicioso, vale dizer — de Mulher de um Homem Só, e um pouco mais próximas de dona Adelaide, mãe de Júlia, que quando “…se sente sozinha, ela permanece sozinha, naquela solidão espessa de quem não tem nada o que fazer, nem livros para ler…” (p. 119).

P.S. Leia Mulher de um Homem Só e/ou presenteie alguém com o livro. Custa uns 10 maços de cigarro, e ainda te livra de uma boa dose de nicotina e de alcatrão. (Compre online na editora Os Viralata.)

Ricardo, muito muito obrigado. Realmente, eu não tinha percebido essa ênfase tríplice da Carla. Muito bem reparado.

Para quem sentiu falta de mais drama, eu recomendo meu livro Onde Perdemos Tudo, formado por seis contos unidos pelo tema comum de perda.

Mulher de Um Homem Só Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro
Compre meu romance "Mulher de um Homem Só".

 

26.08.09



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Comentários:


Comentário de: FlaviaQ

Quando comecei a ler sobre a "enfase triplice da Carla", pensei que devia ser porque mulher fala muito. Eu mesma sou assim, fico tentando deixar tudo bem explicadinho... (repararam?)

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 01:04



Comentário de: Ricardo Cabral · http://agora.opsblog.org/

Alex, bom é o livro, não o post que fiz para ele. Gostei muito do livro, queria eu dar conta de escrever um assim. Independente de minhas veleidades literárias, o que de verdade quero hoje é que todos leiam "Mulher de um homem só".

P.S. Não bastava vc sacanear o nome do blog em particular, tinha que fazê-lo em público também, né? Tá certo, tudo bem. Mas vai ter troco, não sei quando, onde nem como, ah se vai... ;-)

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 09:25



Comentário de: Biajoni · http://www.verbeat.org/blogs/biajoni

"homem sensível" foi sacanagem.
;>)

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 15:58



Comentário de: Indy

Olha, eu até ia comprar o livro,mas ai me ocorreu
uma ideia,e se eu for juntando os comentários e trechos sobre esse livro,até formar o livro por completo.Éh né?!melhor ñ rsrs´s
Quando é que esse livro vai estar nas livrarias de todo o Brasil? quando eu falo todo o Brasil,eu digo todo ele mesmo,é que eu moro em Porto velho,isso é a capital... como? ah ñ,ñ é a capital do acre ñ,é a capital de Rondônia,o Acre nem existe...Acre rsrs´s
Falando serio ñ vejo a hora de ter esse livro,ja estou até salivando aqui.

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 17:02



Comentário de: Alex Castro Email

basta comprar q ele chega aí rapidinho :)

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 17:06



Comentário de: Jucelio Soares Jr

basta comprar! chegou aqui em Belém, deve chegar também um pouco mais a cima.

Existe correio em Porto Velho? =p

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 21:47



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