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Ninguém é obrigado a nada.
Tenho amigos que me amam mas não gostam do que eu escrevo, ou que gostam disso e odeiam aquilo - confiem em mim, sei separar autor e obra. Tenho amigos que não saem de casa nem pra salvar a própria vida. Tenho amigos ainda mais pobres do que eu.
Mas não acredito em amigo-de-escritor que, depois desse um mês intenso de lançamento, não comprou o livro, não foi no lançamento, não escreveu uma linha no seu blog - e não disse nada.
O amigo que não compra manda um email pra chorar miséria e desejar boa sorte.
O amigo que não apareceu no lançamento conta uma história triste de cachorro na uti.
O amigo que não escreveu no blog confessa que não gostou e melhor calar do que falar mal.
Já o amigo que não faz nada, não ajuda em nada, e nem mesmo *diz* nada, esse desamigou-se por WO, não?
* * *
Meu padrinho tem sido ausente pelos últimos 20 anos. Tudo bem, a vida é complicada.
Faz uns dois anos, ele surgiu das trevas, viu a minha lista de clientes da Usability (gente graúda, Banco do Brasil, Casa & Video, StarOne, Contax, Vivo, Telemar, Embratel, Par Perfeito, Bondfaro) e queria que eu aproveitasse meus contatos nessas empresas para lhes propor um "esquema infalível". Obviamente, desconversei. Tudo bem, a vida é dura, todo mundo tem altos e baixos.
Sexta-feira passada, depois de mais alguns anos de silêncio, surgiu no meu lançamento. Circulou, andou, falou, e saiu sem comprar um livro.
Deu, né? Despadrinhou-se também.
* * *
Jornalista cultural fodão me diz que adorou livro tal de um autor independente.
E eu, tolinho, pergunto se já escreveu sobre tal autor.
Não.
*Suspiro* Mais uma vez, ninguém é obrigado a nada. Ninguém é obrigado a ler. Quem lê, não é obrigado a gostar. Quem gosta, não é obrigado a divulgar.
Mas...
Se você é um jornalista cultural fodão, se você leu o cara e sinceramente gostou (ao ponto de sair por aí dizendo como ele é bom), se você sabe que uma palavra sua pode ser a diferença entre a vida e a morte da carreira do cara e, mesmo assim, você não fala nada, sei lá, acho que esse tipo de omissão fica ali na fronteira da canalhice com o desprezo.
Antes um canalha escancarado que me xingue.
Update
Só pra ficar claro: perceber que alguém não é meu amigo (pois obviamente não deixou de ser naquele momento) não quer dizer odiá-lo ou transformá-lo em desafeto. 90% dos mecenas não são meus amigos e eu os amo muito, e lhes serei sempre grato. Mas a amizade supõe uma série de direitos e deveres e, se você abdica deles consistentemente, está também abdicando dessa relação de amizade.
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