Arte É Criação

 Bolero de Ravel SIR JOHN BARBIROLLI  O Rafa está discutindo a questão do filme de autor, e decidi dar meu pitaco.

Eu adoro música clássica. Sexta-feira passada, eu assisti a Filarmônica da Louisiana interpretando o Bolero de Ravel. A tensão era crescente. A platéia estava na ponta das cadeiras. Os músicas tocavam com movimentos cada vez mais bruscos. O maestro parecia ao ponto de ter uma síncope. Foi das experiências mais poderosas e energizantes que já tive na vida. No final, eu estava chorando de emoção.

Bolero & La Valse - Ravel RAVEL  Fico impressionado com a coragem que deve exigir subir em um palco e interpretar o Bolero.

Minha arte, graças a deus, não é executada ao vivo. Fico na segurança da minha casa, reescrevo as frases quantas vezes eu quiser e só mostro pra alguém quando estou satisfeito com o resultado.

Por outro lado, eu nunca tenho esse eletrizante contato com a platéia ao vivo, um dos melhores momentos na vida de qualquer artista. Esse blog supre parte dessa carência.

Mas será que esses músicos da Louisiana Philharmonic Orchestra são realmente artistas?

Arquitetos e Peões-de-Obra

Uma vez, conversando com uma empregada, tocou-se no tema arquitetos. Ela, que nunca tinha parado pra pensar no assunto, nem sabia que existia esse profissional. Em sua cabeça, eram aqueles peões-de-obra mesmo que levantavam o prédio por conta própria.

Não é uma crença tão absurda assim. Cupinzeiros comparativamente mais complexos do que qualquer construção humana são erigidos por animais muito mais idiotas do que o peão-de-obra médio e sem arquiteto central algum.

 Classic Archive - Heifetz Rubinstein Piatigorsky: ARTHUR RUBINSTEIN   GREGOR PIATIGORSKY   JASCHA HEIFETZ Mas, como sou professor, fiz questão de ensiná-la o que era um arquiteto e qual a relação entre um arquiteto e os peões. Essa empregada era uma das pessoas mais inteligentes que já conheci em minha vida. Ela ouviu tudo, entendeu e não aceitou. Para ela, o prédio, se era de alguém, era criação dos peões, que estavam lá, com a mão literalmente na massa, e não do arquiteto, que fez um desenhinho lá de longe do escritório dele e pronto.

Naturalmente, nós, cultos e refinados, sabemos que minha empregada estava errada. O artista é o arquiteto. O prédio é criação sua. Os peões apenas executaram sua visão artística.

Então, por que consideramos grandes artistas Heifetz ou Yo-Yo Ma? Eles também não fazem mais do que executar a visão artística dos outros. Beethoven está para Heifetz como o arquiteto para o peão.

Ou será que entendi tudo errado? Obrigado Brazil  YO-YO MA (CELLO)

O Criminoso e o Virtuoso

Você pode dizer que não é fácil interpretar a Sonata Kreutzer de Beethoven. É preciso sensibilidade, perícia e anos e anos de estudo.

Mas você também poderia dizer que não é fácil "interpretar" O Grito, de Munch. É preciso sensibilidade, perícia e anos e anos de estudo.

Então, por que um forjador, que "repintou" O Grito exatamente como Munch o pintou, não é considerado um tão grande artista quanto Heifetz, que executou a Kreutzer exatamente como Beethoven a compôs?

 The Essential YO-YO MA (CELLO)Pior, um é um criminoso, o outro, virtuoso.

Alex Castro Interpreta Machado de Assis

Aí você argumenta: o Heifetz não se limita a reproduzir ou executar fielmente a obra de Beethoven. Ele interpreta. Ele impõe sua própria visão.

Ótimo. Já posso até ver os pôsteres: "Alex Castro interpreta Dom Casmurro, de Machado de Assis", em cartaz na Biblioteca Nacional.

Eu entro no palco, sozinho, luz em mim, e leio minha versão modificada de Dom Casmurro. Minha visão. Tirei algumas vírgulas, para o texto ficar um pouco mais rápido, troquei algumas palavras em desuso por outras mais comuns, e até decidi que, afinal de contas, Capitu não era adúltera coisíssima nenhuma.

O espetáculo dura somente umas duas horas e meia, com direito a intervalo. Afinal, é um livro curto. No final, sou aplaudido de pé.

"Alex Castro é o mais novo virtuoso da literatura, dizem as resenhas, ele trouxe Dom Casmurro ao século XXI com a mão firme de um mestre em sua arte. Dom Casmurro MACHADO DE ASSIS

Ah, quem me dera se fosse tão fácil.

Para que eu, algum dia, seja considerado um bom artista, eu vou ter que de fato criar alguma coisa.

Interpretar ou Reproduzir?

Para a maioria dos amantes da literatura, a idéia de alguém "impor sua própria visão" sobre Dom Casmurro (ou qualquer outra obra literária) soa herética e desrespeitosa. Quem sou eu (ou qualquer outro) pra tirar uma vírgula que Machado (ou qualquer outro escritor) decidiu colocar? Pra fogueira com ele!

Por outro lado, consideramos normal Yo-Yo Ma impor sua visão sobre Piazzola ou Heifetz interpretar Beethoven, mudando isso ou aquilo, acelerando aqui, segurando ali.

Na verdade, pelo pouco que conheço de música, esses grandes intérpretes seriam considerados medíocres caso se limitassem a somente reproduzir fielmente as composições dos mestres.

Heifetz vs Racionais MCs

Não estou desmerecendo os grandes intérpretes. Tenho certeza que interpretar corretamente uma grande sinfonia é um aprendizado de uma vida. Uma técnica dificílima. Um verdadeiro artesanato.

Só não é arte, pois arte é criação.

Se Heifetz é tão artista quanto Beethoven, então Harold Bloom é tão artista quanto Shakespeare, e o mestre-de-obras é tão artista quanto o arquiteto.

Heifetz e Yo-Yo-Ma são alguns dos meus intérpretes favoritos. O que o Heifetz faz com um violino ninguém acredita. Yo-Yo Ma relê os tangos de Piazzola como nenhum outro.Marcador de Livro Exclusivo para Mecenas

Arte por arte, qualquer rapeiro da periferia é mais artista do Heifetz e Yo-Yo Ma juntos. Boas ou ruins, suas músicas são suas criações artísticas.

* * *

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28.07.09


Categorias: Música, Livros


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Comentários:


Comentário de: Fernanda França · http://www.fernandafranca.com

Alex, me manda um e-mail? Sou jornalista (no interior, mas vale, né? haha) e quero botar seu livro na parte de cultura aqui do jornal. Uma notinha, mas acho que é sempre legal. Preciso de release, foto de capa e, bão, me manda e-mail. Beijoca.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 10:09



Comentário de: cris · http://quitanda2008.wordpress.com

olha, essa discussão é da mais cabeludas. tem tradutores que se consideram co-autores dos textos, sabia? tem toda uma argumentação em cima disso [por parte deles, que eu não endosso essa visão,até pq não é minha área]. eu diria que a diferença está na 'identidade' de cada tipo de atividade que você apresentou. é uma questão de reconhecê-las em suas diferenças. todas elas possuem uma identidade co-construída no discurso. é como a questão dos jogos. tudo é jogo, mas se você for parar pra pensar, qual é a semelhança entre um jogo de xadrez e o futebol? eles são 'aparentados', decerto, mas não há traços essenciais que façam a gente dizer 'ah, tá vendo. os dois são jogos exatamente por *isso*. por conta de uma característica essencial'. então, tudo é arte, mas elas se 'aparentam' e se afastam também. por isso, penso eu, a gente diz que um músico é artista pq 'recriou' a obra e não diz o mesmo de um escritor. acho que viajei, né? rs. bjs

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 10:28



Comentário de: Alessandra · http://alessandrasouza.blogspot

Péssima analogia, Alex.

Uma sinfonia, assim como uma peça de teatro, é um trabalho incompleto. Ele depende de um intérprete talentoso para tirar o máximo daquele material. Se isso não fosse necessário, as pessoas nunca iriam ao teatro e comprariam as partituras para ficar olhando em casa. Mas fazer isso (e você SABE disso, Alex), não basta um técnico. É necessário um artista, que não só vai saber extrair o máximo daquele texto/partitura e também acrescentar coisas novas, que o criador da "planta" não tinha imaginado.

Um livro, um quadro, essas coisas são obras de arte acabadas, finais. Da mesma maneira que a montagem de uma peça é uma obra final, que pode ser plagiada. Com música, a interpretação do artista (falo, lógico, do músico) é algo muito mais sutil e difícil de apontar.

Para finalizar, não só um pedreiro é um técnico, como para mim arquiteto não é artista coisa nenhuma. O trabalho de um arquiteto pode ter um caráter artístico, pode conversar com a arte, mas não é arte. É útil demais para ser arte.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 11:39



Comentário de: Marco

Mas ninguém paga pra ver um pedreiro trabalhar...

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 11:54



Comentário de: Norrin Kurama

Alessandra, não vejo porque algo não pode ser util e artístico. Arquitetura pode ser arte, sim.

E acho que os músicos podem ser artistas, artistas executores. Qual a definição do artista, é só aquele que cria? Quem executa tambem põe algo de si na obra.

Mas isso coloca os peões na mesma categoria, IMHO.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 12:28



Comentário de: FlaviaQ

Vou falar sobre o arquiteto, que é o que sou.

Eu nao considero arquitetura arte, mas entendo porque as pessoas o fazem.

Durante muito tempo essas duas coisas estiveram muito misturadas.

Mesmo que o arquiteto se preocupe com a estética, na minha opiniao, nao é ela que define se um espaço funciona ou nao.

Acho que é a má qualidade dos arquitetos que faz as pessoas (e os próprios arquitetos)acharem que precisam decorar um espaço pra ele ser bom. (pra ninguém me atiras pedras, eu nao estou me refenrindo ao "antigamente", estou me referindo as tecnologias, materiais e possibilidades de hoje)

Agora, na prática, eu tenho provas literalmente concretas que o peão faz completa difereça no trabalho final.

Inclusive em casos de casas identicas serem construidas por duas equipes diferentes.

Eu vejo o peao como um profissional, e em alguns casos como artista.
Por exemplo um cara que faz paredes de pedra. Eu digo que no local vai ter uma parede de pedra, vai um sujeito la, faz algumas amostras de como ele pode dispor as pedras, eu escolho uma aparencia e ele fica lá, a semana toda, sozinho, quebrando as pedras na hora e compondo de acordo com o senso dele. É uma arte, acredite.
Eu não faço um desenho de paginaçao.
Já pra aplicar uma cerâmica no chao, sai de lá do escritorio uma plantinha mostrando a disposicao exata das peças. Dai o peao só tem obedecer e fazer limpinho, nao precisa pensar muito.

Eu considero um trabalho em equipe, pra mim a obra acabada é a construçao pronta, todo mundo influi. Eu acredito que todo mundo tem que entender e entrar no clima do projeto antes de começar a executar.

Por isso o maior problema, na minha opiniao é a ignorancia dos peoes. Já começa que muitos nao sabem ler, entao, voce faz aquele desenho informando tudo e o engenheiro tem que interpretar pro mestre, que interpreta pro peao. No maior estilo telefone sem fio.

Sem contar, que no nosso pais tem uma enorme diferença social, entao eles nao tem nem como visualizar a casa pronta. Por isso, na minha opinião, o peao tambem deveria ter uma formaçao.

Agora, falando como leiga, muitos artistas tem empregados para ajudar na execuçao das suas obras, desde, sei lá, Michelangelo até Vik Muniz. Ou você acham que eles ficavam misturando quilos de pozinhos de tinta ou arrastando aquelas peças enormes de entulho sozinhos?

Será que a capela sistina seria tao impressionante se o tom de azul tivesse por acaso ficado diferente? Será que, se na época houvesse tecnologia pra fazem uma cobertura toda de vidro, alguém teria pensado que seria necessario fazer aquele teto todo pintado?

É claro que eu entendo que, por forças das circunstancias, uma pessoa, só, pode ser toda a equipe, como provavelmente aconteceu no livro novo do Alex.

Eu achei interessante essa coisa que o Alex falou da versão nova do Dom Casmurro. Por que não? Eu achei até que esse tipo de coisa já existisse. Principalmente com aqueles clássicos que vendem na banca de jornal. Eu sempre achei que eles eram uma versão do original.

E cara, eu prefiro muito mais entender alguma coisa do que nao entender nada.

Por isso o lance do tradutor ser um artista também. Cara, livro mal traduzido é um saco. Eu até ja falei sobre isso aqui uma vez. Aquele Armas Germs e Aço... 3 pessoas traduzindo, você ia lendo, ia tudo bem, de repente vinha o chato. Nao consegui finalizar. Até hoje eu penso que se nao fosse por causa desse ser eu seria hoje uma pessoa mais bem informada!

Alex, lança o Dom Casmurro que eu leio!


PermalinkPermalink 28.07.09 @ 12:42



Comentário de: FlaviaQ

Outra coisa:

As pessoas nao fazem leitura de livro? Devem existira algumas mais empolgantes do que outras.

Que lê pros outros é artista?

Acho que todo mundo que influencia no entendimento da obra, pode ser considerado um pouco criador dela.

Ninguém é menos criador por que outro se meteu no meio. Acho que ideia boa é igual oportunidade. Quem aproveita, sempre se dá bem. Saber reconhecer uma boa ideia e tirar o maior proveito dela é uma virtude.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 12:53



Comentário de: Breno Kümmel

O cara que copia um quadro não é artista porque o quadro já existe.

Um intérprete é artista porque a música só existe na partitura, ou a peça só existe no papel.

E o plagiador do quadro é elogiado quando se aproxima o máximo possível do original, enquanto o intérprete é elogiado por dar uma interpretação pessoal à peça.

Se você fosse ler em voz alta o texto do machado de assis, seria outra coisa, porque escritura e leitura são coisas diferentes.

Enfim, bobagem.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 13:33



Comentário de: Glauber Kist

questão simples

Um ator de teatro que interpreta um roteiro que não é dele é um artista ou ele é apenas um interprete?

aí está

Você definiu arte como criação.

Posso afirmar que tanto o interprete musical quanto o ator são artistas e a criação está no momento da execução e não no momento de composição.

Na literatura geralmente não há um momento de execução, geralmente, pois podemos ter a situação de um declamador lendo um poema, ainda que o poema não seja seu, o declamador possui sua arte na execução.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 13:51



Comentário de: Humberto

Maior roubada confundir 'arte' com 'criação'. Melhor entendê-la como 'comunicação'. Nada é fundamentalmente criado, mas sim transmitido.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 17:14



Comentário de: Marcio

Alex, o texto tá bem estruturado, os argumentos bem apresentados, etc e tal, mas acho sua análise furada por um motivo: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Literatura e música não têm praticamente NADA a ver uma coisa com a outra. Somente estão sob a mesma tênue e subjetiva classificação de "Arte". Os processos de criação são diferentes, as formas de se apreciar são diferentes, quase tudo é diferente...

Ou você vai me dizer que Maria Bethânia não é artista pq não compõe? Ou Marlon Brando não é artista pq o diretor e o roteirista que criavam o que o personagem ia fazer?

Não dá pra fazer um paralelo entre Literatura e Música pq são coisas praticamente incomparáveis. Faz uma experiência: ouve um arquivo MIDI de uma música do Bethoven e depois ouve uma interpretação de uma grande orquestra. Vai dar pra entender a diferença entre reprodução mecânica e arte.

Um abraço!

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 17:53



Comentário de: Lucas

Quanto ao quadro de Munch:

Tudo que é criado depois é obrigatoriamente "menos genial".

Originalidade é critério indispensável para se avaliar o que é extraordinário.

Pode ser até um exemplo bem simples: Um abridor de latas. Fazer um abridor de latas não é tarefa das mais difíceis, não precisa nem se pensar para fazê-lo, pois essa parte já foi feita.

Agora pensar em algo, atualmente, tão funcional quanto um abridor de latas não é tarefa fácil.

Que dirá algo naturalmente complexo.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 19:28



Comentário de: DrPlausível · http://drplausivel.blogspot.com

O forjador q repinta o Grito é criminoso pq tenta vender a cópia como original; o músico faz algo totalmente diferente: o original existe platonicamente num mundo abstrato, e o músico vê aquilo ali e tenta retransmitir o q ele percebe.

Além de confudir 'arte' com 'criação' (como alguém apontou acima), acho até q vc tá superestimando o criador. Há pouquíssimas coisas q se podem chamar de "criação individual" em qqer arte. A maior parte dos chamados "gênios criadores" são na realidade "re-estruturadores": pessoas muito boas em absorver o q existe a sua volta e tbm muito felizes ao estruturá-las numa forma palatável embora inusitada.

Beethoven não criou a escala temperada, a forma sonata, a sinfonia, &c. Apenas, trabalhando dentro de um contexto fechado, sabia exatamente o q estava fazendo. A "aura do artista" é uma fantasia do venerador, pra quem a confecção de algo belo é um mistério.

PermalinkPermalink 28.07.09 @ 20:02



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Lendo os argumentos todos, fiquei muitíssimo em cima do mundo, porque concordo com o Alex e a turma que diz que arte é crianção, mas também concordo com a turma que diz que a arte é interpretação, (re)leitura, (re)criação. Acho até que ler uma obra de arte é muito mais o trabalho de (re)ler mesmo. E acho que (re)criar é uma forma interessante de dialogar e criar.

Prefiro brincar com a dúvida. E acho que boa arte é aquela que nos põe frente a questões boas como a desse post.

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 00:14



Comentário de: Manuel Carreiro · http://manuelcarreiro.com

Eu quis dizer, claro, em cima do muro, mas até que ficou bacana em cima do mundo.

;P

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 00:27



Comentário de: rob

Digamos que um prédio seja uma obra de arte. Conforme a direção do arquiteto, só pode haver um tipo de realização daquele prédio em específico. Se os peões resolverem colocar um quarto ou sala onde não havia no plano original, o prédio já não seria mais uma obra de arte de autoria exclusiva do arquiteto. Se performance não for arte, poderíamos ter um bolero de ravel executado a um pulso por minuto, já que o seu plano abstrato sustentaria toda a obra de arte (neste caso, grosso modo, o pulso por minuto não fere o plano ariginal de modo como o quarto adicional fere o projeto original do arquiteto). não faria sentido, não haveria " frase" e vc não choraria. Se ravel escutasse, nem mesmo a reconheceria como obra sua. Por isso acho que a música de mozart não existe sem heifetz da mesma maneira que dom casmurro existe sem vc. A música de mozart precisa ser recriada para existir, o que não acontece com dom casmurro. recriar é também criar, e aí não importa fundamentalmente onde se inicia o evento da obra, seja nos anos de formação em que mozart passou imitando os partimentis da música italiana ou nos anos em que o heifetz passou trabalhando em sua técnica ou no domínio de um estilo. yo-yo ma é tão artista qto o rapper pq ambos precisam esculpir no tempo para dar existência à música e essa escultura é a própria música. acho que a performance não é considerada como criação devido a um certo que existe preconceito contra a corporalidade. pode-se argumentar que a performance não é arte já que existem programas de computador que geram interpretações de obras clássicas bem convincentes (aliás, existem também programas que compõem músicas no estilo de mozart bem convincentes). Mas o fato de que pode haver uma versão automática de uma música não a faz definitiva e podemos continuar consumindo interpretações de uma mesma música, já que elas sempre vão revelar coisas diferentes sobre a sua estrutura. O dom casmurro é acabado, tudo está posto, se vc mudar uma frase, não é mais dom casmurro. mas a obra de beethoven, por ex, só existe como um esboço, um galho que precisa ser vestido de carne para se revelar em estrutura e superfície, e por isso escutar a mesma sonata de schumman por dois bons " intérpretes" é contemplar duas obras de fato distintas. São as mesmas notas - nem sempre- na mesma ordem mas criando paisagens, digamos assim, diferentes.Há uma graça, um interesse na interpretação musical que pode ser considerado como arte e criação. é que a palavra " interpretação" musical não é muito adequada pq o músico age na obra que " interpreta" de uma forma que vc não pode agir em dom casmurro, não sem vc ter que recriar a obra, ou seja, fazer algo diferente. se vc o fizer com graça e isso despertar interesse, talvez sua interpretação tenha virado arte. nossa, que viagem... esta discussão é bem interessante. abs

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 04:46



Comentário de: João Paulo Cursino · http://sratoz.wordpress.com

Saindo da discussão sobre arte e voltando à conversa com a empregada: embora eu não concorde com ela, considero natural que ela pense que os peões são mais Autores do que o arquiteto. E isso por uma razão marxista: o que está acontecendo ali é a alienação do trabalho. Foram eles que suaram mais, que gastaram mais tempo (ou não -- mas estou na óptica dela, não na minha), que se arriscaram mais. Portanto, a obra deve ser creditada a eles. Aí, um dia eles recebem pagamento pela obra, e eles a alienam, ela deixa de pertencer a eles.

Bom, acho que isso é o que acontece na percepção psicológica dela. Mas é óbvio que posso estar enganado.

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 09:21



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

A obra não é do arquiteto, é dos peões de obra?

Então, o filme é do diretor ou da equipe de filmagem?

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 12:01



Comentário de: Adam · http://suspensaodejuizo.wordpress.com

Parece que você quer uma definição de arte que seja uma tirada que possa ser dita rapidamente. "Arte é criação" é fácil de falar, mas porque eu não poderia dizer, tão arbitrariamente quanto, que "Arte é criação, exceto na música e no teatro, nos quais é também interpretação"?

Há uma certa forçação para ser consistente na sua definição. Se arte é criação em pintura, deve ser em música também! mas não tem de ser assim. Seria você uma vítima da prisão Consistência ou da prisão Definições-curtinhas? :)

Até!

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 12:57



Comentário de: FlaviaQ

Só pra esclarecer: o arquiteto não dirige uma obra.
Ele faz o projeto, coloca tudo num papel, exatamente como o musico faz com a partitura.
Um engenheiro, na obra, lê o projeto e dirige os peoes pra estes fazerem a construçao.
Na teoria, o arquiteto nao precisa nem ir à obra.
Um exemplo disso é a Sagrada Familia e o Gaudí.
Ao contrário do que todo mundo pensa, existem mil maneiras de executar o mesmo projeto.

Abraços

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 14:20



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Bom,vc pode fazer o que quiser,escrever sobre o que quiser.O que vc ñ pode é inocentar a Capitu,tána cara que ela traio o bentinho,isso é obvio porque o outro era melhor amigo dele,e toda mulher que se preze dá pro melhor amigo do marido.

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 15:20



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Não.Não nos conhecemos,bom eu posso dizer que te conheço,ja que sou uma das leitoras do LLL.Acompanho o LLL e o Hereia Loira,gosto da forma que vc´s escrevem,e tento aprender um pouco tbm,dessa tal arte que o blog se tornou.

PermalinkPermalink 30.07.09 @ 15:41



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Agora falando serio,eu guase tive um treco quando abri meu blog e vi seu post lá.Meu Deus do Ceu! ja fui logo olhando pro meu pé,pra ver se ele estava bonitinho.
O engraçado é que depois eu ficava alisando ele (o pé;) e lendo as suas poucas palavras. tipo,surreal.

PermalinkPermalink 31.07.09 @ 16:48



Comentário de: isa · http://www.bookofhours.blogspot.com

aí, me empolguei.

postei um comentário ENORME lá no Boh http://bookofhours.blogspot.com

bjs!

PermalinkPermalink 04.08.09 @ 14:36




que tudo! vou fazer essa semana!

PermalinkPermalink 13.11.10 @ 23:19



Comentário de: HTC Sync · http://htcsync.org/

Howdy just wanted to give you a quick heads up. The text in your article seem to be running off the screen in Safari. I'm not sure if this is a formatting issue or something to do with internet browser compatibility but I figured I'd post to let you know. The design look great though! Hope you get the problem fixed soon. Thanks

PermalinkPermalink 29.11.11 @ 14:51



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