O Rafa está discutindo a questão do filme de autor, e decidi dar meu pitaco.
Eu adoro música clássica. Sexta-feira passada, eu assisti a Filarmônica da Louisiana interpretando o Bolero de Ravel. A tensão era crescente. A platéia estava na ponta das cadeiras. Os músicas tocavam com movimentos cada vez mais bruscos. O maestro parecia ao ponto de ter uma síncope. Foi das experiências mais poderosas e energizantes que já tive na vida. No final, eu estava chorando de emoção.
Fico impressionado com a coragem que deve exigir subir em um palco e interpretar o Bolero.
Minha arte, graças a deus, não é executada ao vivo. Fico na segurança da minha casa, reescrevo as frases quantas vezes eu quiser e só mostro pra alguém quando estou satisfeito com o resultado.
Por outro lado, eu nunca tenho esse eletrizante contato com a platéia ao vivo, um dos melhores momentos na vida de qualquer artista. Esse blog supre parte dessa carência.
Mas será que esses músicos da Louisiana Philharmonic Orchestra são realmente artistas?
Arquitetos e Peões-de-Obra
Uma vez, conversando com uma empregada, tocou-se no tema arquitetos. Ela, que nunca tinha parado pra pensar no assunto, nem sabia que existia esse profissional. Em sua cabeça, eram aqueles peões-de-obra mesmo que levantavam o prédio por conta própria.
Não é uma crença tão absurda assim. Cupinzeiros comparativamente mais complexos do que qualquer construção humana são erigidos por animais muito mais idiotas do que o peão-de-obra médio e sem arquiteto central algum.
Mas, como sou professor, fiz questão de ensiná-la o que era um arquiteto e qual a relação entre um arquiteto e os peões. Essa empregada era uma das pessoas mais inteligentes que já conheci em minha vida. Ela ouviu tudo, entendeu e não aceitou. Para ela, o prédio, se era de alguém, era criação dos peões, que estavam lá, com a mão literalmente na massa, e não do arquiteto, que fez um desenhinho lá de longe do escritório dele e pronto.
Naturalmente, nós, cultos e refinados, sabemos que minha empregada estava errada. O artista é o arquiteto. O prédio é criação sua. Os peões apenas executaram sua visão artística.
Então, por que consideramos grandes artistas Heifetz ou Yo-Yo Ma? Eles também não fazem mais do que executar a visão artística dos outros. Beethoven está para Heifetz como o arquiteto para o peão.
Ou será que entendi tudo errado?
O Criminoso e o Virtuoso
Você pode dizer que não é fácil interpretar a Sonata Kreutzer de Beethoven. É preciso sensibilidade, perícia e anos e anos de estudo.
Mas você também poderia dizer que não é fácil "interpretar" O Grito, de Munch. É preciso sensibilidade, perícia e anos e anos de estudo.
Então, por que um forjador, que "repintou" O Grito exatamente como Munch o pintou, não é considerado um tão grande artista quanto Heifetz, que executou a Kreutzer exatamente como Beethoven a compôs?
Pior, um é um criminoso, o outro, virtuoso.
Alex Castro Interpreta Machado de Assis
Aí você argumenta: o Heifetz não se limita a reproduzir ou executar fielmente a obra de Beethoven. Ele interpreta. Ele impõe sua própria visão.
Ótimo. Já posso até ver os pôsteres: "Alex Castro interpreta Dom Casmurro, de Machado de Assis", em cartaz na Biblioteca Nacional.
Eu entro no palco, sozinho, luz em mim, e leio minha versão modificada de Dom Casmurro. Minha visão. Tirei algumas vírgulas, para o texto ficar um pouco mais rápido, troquei algumas palavras em desuso por outras mais comuns, e até decidi que, afinal de contas, Capitu não era adúltera coisíssima nenhuma.
O espetáculo dura somente umas duas horas e meia, com direito a intervalo. Afinal, é um livro curto. No final, sou aplaudido de pé.
"Alex Castro é o mais novo virtuoso da literatura, dizem as resenhas, ele trouxe Dom Casmurro ao século XXI com a mão firme de um mestre em sua arte.
Ah, quem me dera se fosse tão fácil.
Para que eu, algum dia, seja considerado um bom artista, eu vou ter que de fato criar alguma coisa.
Interpretar ou Reproduzir?
Para a maioria dos amantes da literatura, a idéia de alguém "impor sua própria visão" sobre Dom Casmurro (ou qualquer outra obra literária) soa herética e desrespeitosa. Quem sou eu (ou qualquer outro) pra tirar uma vírgula que Machado (ou qualquer outro escritor) decidiu colocar? Pra fogueira com ele!
Por outro lado, consideramos normal Yo-Yo Ma impor sua visão sobre Piazzola ou Heifetz interpretar Beethoven, mudando isso ou aquilo, acelerando aqui, segurando ali.
Na verdade, pelo pouco que conheço de música, esses grandes intérpretes seriam considerados medíocres caso se limitassem a somente reproduzir fielmente as composições dos mestres.
Heifetz vs Racionais MCs
Não estou desmerecendo os grandes intérpretes. Tenho certeza que interpretar corretamente uma grande sinfonia é um aprendizado de uma vida. Uma técnica dificílima. Um verdadeiro artesanato.
Só não é arte, pois arte é criação.
Se Heifetz é tão artista quanto Beethoven, então Harold Bloom é tão artista quanto Shakespeare, e o mestre-de-obras é tão artista quanto o arquiteto.
Heifetz e Yo-Yo-Ma são alguns dos meus intérpretes favoritos. O que o Heifetz faz com um violino ninguém acredita. Yo-Yo Ma relê os tangos de Piazzola como nenhum outro.
Arte por arte, qualquer rapeiro da periferia é mais artista do Heifetz e Yo-Yo Ma juntos. Boas ou ruins, suas músicas são suas criações artísticas.
* * *
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