Os cães foram criados pelo homem, à sua imagem e semelhança, tão variados entre si como são variados os homens e suas sociedades.
E são talvez sua melhor, mais nobre criação.
Se algum dia a humanidade desaparecer, que seja julgada não por suas bombas atômicas ou obras de arte, mas por essa criação magnífica e transcendental, coletiva e cumulativa, generosa mas interessada, verdadeiramente atemporal e transcultural: o cachorro.
Se sumíssemos todos, os cachorros seriam a melhor coisa que deixaríamos pra trás.
Só que não aceitariam ser deixados para trás: viram junto conosco até o fim, se preciso.
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"Eu Sou a Lenda", com Will Smith, é um filme ruim baseado em um livro bom, mas vale pelo cachorro.
Sozinhos em um mundo pós-apocalíptico, temos uma relação homem-cachorro paradigmática: acordam juntos, caçam juntos, dormem juntos - como tem de ser, em perfeita sintonia.
É a própria essência do companheirismo, uma relação tão primordial que chega a ser atemporal e transcultural: há 10 mil anos, um aborígine africano e seu cão, o que haveria de diferente?
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Perdi minhas maiores batalhas. Tentei ser empresário e quebrei. Tentei salvar meu casamento e falhei. Ainda tento ter uma carreira literária e nada.
E, ainda assim, a pior noite da minha vida foi passada no aeroporto de Detroit, véspera do Katrina, dormindo sozinho no chão e chorando convulsivamente pelo amigo e companheiro que trouxera comigo do Brasil e não conseguira salvar do pior furacão de todos os tempos.
Nada nunca chegou perto do que senti essa noite.
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Oliver se recusa a revelar a idade, mas já está velhinho. Essa semana, ficou ao mesmo tempo constipado e sem controle da bexiga: teve que sofrer um enema pra resolver o primeiro e está tomando um remédio pro segundo. Ficar velho é isso: saem coisas demais por um orifício, e de menos, pelo outro.
Ele, que sempre dormia entre as minhas pernas, agora dorme numa caminha improvisada no chão, cujos lençóis eu lavo diariamente. E, toda noite, ele me olha com uma expressão de infinita tristeza e quase ressentimento: "não posso mesmo dormir aí em cima com você?"
E eu, diga-se a meu favor ou contra mim, acabo regularmente cedendo e acordo invariavelmente mijado.
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Ter um cão significa não apenas uma lição diária sobre os verdadeiros prazeres da existência (afinal, o que são dinheiro e prestígio perto de correr ao sol e lamber quem se ama?), mas também sobre o inevitável ciclo da vida.
Ter cachorro é aprender que a nossa juventude acaba mais rápido do que imaginamos e que logo atrás vem a velhice, a decadência física e a morte.
E ter cachorro também, por outro lado, é aprender que a morte pode e deve ser encarada com naturalidade e tranquilidade, com força e com estoicismo.
Nessa minha vida cinófila, já perdi três grandes amigos: Dolly, 1977-1989, Júnior, 1990-1992, Átila, 1993-2002. Oliver, companheiro atual, de idade desconhecida, está comigo desde março de 2003, quando já era adulto. Apareceu em minha vida no mesmo mês em que criei o LLL. Simbólico?
Átila morreu depois de uma semana de esforços frenéticos para salvá-lo. Não o deixamos sozinho nem por um instante. Quando finalmente morreu, minha irmã e eu dormimos abraçados ao seu corpo. Sentimos o rigor mortis progressivamente ir e vir. No dia seguinte, o enterramos debaixo das flores que ele gostava de cheirar toda manhã. Entre as flores, minha mãe colocou uma plaquinha: "canto do Átila".
E digo, sem pestenejar: nenhum herói de filme teve morte mais digna, nenhum guerreiro valente foi mais bravo do que esses três animais ao encararem a própria morte. Quem me dera ter essa força, essa tranquilidade, essa segurança.
Quem me dera ter um cachorro pra me lamber a mão enquanto morro.
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Para ler: as aventuras do Oliver e eu durante o Katrina.
Para ver: fotos do bicho, só para fãs e loucos por animais.
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Pós Escrito I
Como todo texto que não seja estritamente de momento, esse aqui também ficou meses na fila de publicação do blog, sempre sendo adiado em função de outros mais urgentes. É por isso que rio tanto quando publico um post, já escrito há mais de ano, e me vem uma anta vestir uma carapuça por alguma besteira que me falou ontem.
Enfim, saibam que o Oliver já está melhor, saudável e como novo.
Pós Escrito II
Eu realmente perco minha verve, minha ironia, meu distanciamento, meu senso de ridículo, tudo, quando se trata de cachorro. Esse post não tem nada a ver com o tom e a temática do LLL, mas quem me conhece sabe que viro um idiota perto de um cãozinho.
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