Elogio aos Cães

Os cães foram criados pelo homem, à sua imagem e semelhança, tão variados entre si como são variados os homens e suas sociedades.

E são talvez sua melhor, mais nobre criação.

Se algum dia a humanidade desaparecer, que seja julgada não por suas bombas atômicas ou obras de arte, mas por essa criação magnífica e transcendental, coletiva e cumulativa, generosa mas interessada, verdadeiramente atemporal e transcultural: o cachorro.

Se sumíssemos todos, os cachorros seriam a melhor coisa que deixaríamos pra trás.

Só que não aceitariam ser deixados para trás: viram junto conosco até o fim, se preciso.

Shadows and Oliver

* * *

"Eu Sou a Lenda", com Will Smith, é um filme ruim baseado em um livro bom, mas vale pelo cachorro.

Sozinhos em um mundo pós-apocalíptico, temos uma relação homem-cachorro paradigmática: acordam juntos, caçam juntos, dormem juntos - como tem de ser, em perfeita sintonia.

É a própria essência do companheirismo, uma relação tão primordial que chega a ser atemporal e transcultural: há 10 mil anos, um aborígine africano e seu cão, o que haveria de diferente?

Oliver em Ubatuba Oliver on the Tracks  (A Trip to the Levee)

* * *

Perdi minhas maiores batalhas. Tentei ser empresário e quebrei. Tentei salvar meu casamento e falhei. Ainda tento ter uma carreira literária e nada.

E, ainda assim, a pior noite da minha vida foi passada no aeroporto de Detroit, véspera do Katrina, dormindo sozinho no chão e chorando convulsivamente pelo amigo e companheiro que trouxera comigo do Brasil e não conseguira salvar do pior furacão de todos os tempos.

Nada nunca chegou perto do que senti essa noite.

Oliver's Rescue / Resgate do Oliver

* * *

Oliver se recusa a revelar a idade, mas já está velhinho. Essa semana, ficou ao mesmo tempo constipado e sem controle da bexiga: teve que sofrer um enema pra resolver o primeiro e está tomando um remédio pro segundo. Ficar velho é isso: saem coisas demais por um orifício, e de menos, pelo outro.

Ele, que sempre dormia entre as minhas pernas, agora dorme numa caminha improvisada no chão, cujos lençóis eu lavo diariamente. E, toda noite, ele me olha com uma expressão de infinita tristeza e quase ressentimento: "não posso mesmo dormir aí em cima com você?"

E eu, diga-se a meu favor ou contra mim, acabo regularmente cedendo e acordo invariavelmente mijado.

Snow in New Orleans

* * *

Ter um cão significa não apenas uma lição diária sobre os verdadeiros prazeres da existência (afinal, o que são dinheiro e prestígio perto de correr ao sol e lamber quem se ama?), mas também sobre o inevitável ciclo da vida.

Ter cachorro é aprender que a nossa juventude acaba mais rápido do que imaginamos e que logo atrás vem a velhice, a decadência física e a morte.

E ter cachorro também, por outro lado, é aprender que a morte pode e deve ser encarada com naturalidade e tranquilidade, com força e com estoicismo.

Nessa minha vida cinófila, já perdi três grandes amigos: Dolly, 1977-1989, Júnior, 1990-1992, Átila, 1993-2002. Oliver, companheiro atual, de idade desconhecida, está comigo desde março de 2003, quando já era adulto. Apareceu em minha vida no mesmo mês em que criei o LLL. Simbólico?

Átila morreu depois de uma semana de esforços frenéticos para salvá-lo. Não o deixamos sozinho nem por um instante. Quando finalmente morreu, minha irmã e eu dormimos abraçados ao seu corpo. Sentimos o rigor mortis progressivamente ir e vir. No dia seguinte, o enterramos debaixo das flores que ele gostava de cheirar toda manhã. Entre as flores, minha mãe colocou uma plaquinha: "canto do Átila".

E digo, sem pestenejar: nenhum herói de filme teve morte mais digna, nenhum guerreiro valente foi mais bravo do que esses três animais ao encararem a própria morte. Quem me dera ter essa força, essa tranquilidade, essa segurança.

Quem me dera ter um cachorro pra me lamber a mão enquanto morro.

Cut! Oliver on the Couch

* * *

Para ler: as aventuras do Oliver e eu durante o Katrina.

Para ver: fotos do bicho, só para fãs e loucos por animais.

 Eu Sou a Lenda  Marley e Eu

* * *

Pós Escrito I

Como todo texto que não seja estritamente de momento, esse aqui também ficou meses na fila de publicação do blog, sempre sendo adiado em função de outros mais urgentes. É por isso que rio tanto quando publico um post, já escrito há mais de ano, e me vem uma anta vestir uma carapuça por alguma besteira que me falou ontem.

Enfim, saibam que o Oliver já está melhor, saudável e como novo.

Pós Escrito II

Eu realmente perco minha verve, minha ironia, meu distanciamento, meu senso de ridículo, tudo, quando se trata de cachorro. Esse post não tem nada a ver com o tom e a temática do LLL, mas quem me conhece sabe que viro um idiota perto de um cãozinho.

 

22.07.09


Categorias: Animais


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Comentários:


Comentário de: Edilene Mora

Sem a menor pretensão de consolar, repito sua última frase do post todo o tempo... Somos então dois idiotas!
Amei seu blog, mas em especial, amei esse post.

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 15:09



Comentário de: Teles

Eu gosto de cacorro, tenho dois. Mas não chega a esse ponto.

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 15:45



Comentário de: Eu gosto é de mulher!

Dormir com o cachorro e acordar mijado? É, se existe inferno deve ser algo parecido com isso.

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 15:56



Comentário de: renata viana

Post lindo, parabéns. Vale total a pena passar por idiota ao lado de um cachorro só pela lealdade que eles nos devotam até o último dia de suas vidas.

Bjs!

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 16:36



Comentário de: Rafael Cesar · http://meujazz.wordpress.com

Alex, você linkou o Empregadas e Escravos, mas eles pedem um login para ler. Desculpe a inconveniência, porque me parece que o blog é fechado. Enfim, eu trabalho com o tema de raça e sou fiel leitor dos seus posts sobre o assunto já há algum tempo(apesar de rarissimamente comentar...) e, pelo título, bom, imaginei que tivesse relação com o assunto.

Caso você o esteja abrindo, como faço para ler? Se for fechado, ok, deixa pra lá.

Obrigado e um abraço,

Rafael.

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 17:45



Comentário de: Norrin Kurama

Cães são bons demais!

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 18:19



Comentário de: Fabíola Ariadne · http://www.dramaticoeorgastico.com

Deveria ter apresentado o roteiro do seu drama para Hollywood. É mais tocante que Marley e eu. Emocionei-me muito lendo este texto e as aventuras sobre o resgate de Oliver. E olhar as fotos dele, todo faceiro para câmera, emociona muito mais. Principalmente a foto dentro da cesta olhando o alagamento. É a história mais comovente sobre cães que já vi. Oliver!

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 23:14



Comentário de: Isabelle

Putz... bem que me falaram... Vc escreve fodasticamente foda...

(chorei)

O meu está aqui na caminha aos pés da minha cama, dormindo e sonhando com cadelinhas poodle tosadinhas... (Sim, eles sonham).

Abraço...

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 23:22



Comentário de: wilma · http://www.vievivi.blogspot.com

Que sorte a minha que encontrei um post sobre o Oliver
o Oliver, por sinal, é também por ele que volto sempre e entendo perfeitamente essa relação apaixonante, tenho agora tres e sei como é. Foi na ocasião do Katrina que conheci o blog e a história comovente do Oliver. Que ele tenha muitos anos de vida e com saúde!!! Parabéns!!!

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 23:46



Comentário de: Marília · http://dialetica.org/cafemineiro

Como uma apaixonada por cães, adoro ler seus textos sobre o Oliver! São os melhores! ;)

PermalinkPermalink 22.07.09 @ 23:56



Comentário de: Gisela · http://www.bloggi-gisa.blogspot.com

Também sou amante de cachorros, na verdade meu Jack é que me tem. Eu sou dele e ele sabe disso.
Oliver é lindo e tem muita sorte!
Toda minha vida tive cães por perto e nunca nenhum deles me decepcionou. Quisera poder dizer o mesmo das pessoas que partilharam tantos momentos da minha vida.
Abraços

PermalinkPermalink 23.07.09 @ 00:34



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

Sabe o que me ocorre? É que falar em uma raça de cães mais nobre do que outra é ok, mas falar em raça humana mais nobre do que outra é racismo.

Por que um cão de raça é mais caro e mais digno que um vira-lata? Isso não é injusto? Taí uma boa causa pra você, Alex.

PermalinkPermalink 23.07.09 @ 08:01



Comentário de: Alex Castro Email

"Por que um cão de raça é mais caro e mais digno que um vira-lata?"

eu não me lembro de ter dito isso

PermalinkPermalink 23.07.09 @ 08:35



Comentário de: Georgia Martins · http://mazzy3008.blogspot.com

Putz!
Tinha q me fazer chorar???
:)
Post perfeito, do tipo que a gente manda pra toda a nossa lista como Spam. Alias, acho que vou fazer isso.

PermalinkPermalink 23.07.09 @ 12:30



Comentário de: Sandra · http://www.lordcao.blogspot.com

Sempre adoro seus textos sobre Oliver, mas o filme "Eu Sou a Lenda" não vale nem pelo cachorro (ou melhor, cadela).

PermalinkPermalink 23.07.09 @ 17:04



Comentário de: Lucas

"Eu sou a lenda" é aquele filme do Will Smith que eles se "esborracham" no chão e nem quebram a unha do mindinho do pé esquerdo?

Tinham que pegar todas as cópias e tacar fogo.

PermalinkPermalink 23.07.09 @ 17:40



Comentário de: Sabrina Ortiz

Eu sou a lenda? Você assistiu Marley e eu? Acho que vc não iria aguentar.

PermalinkPermalink 24.07.09 @ 00:41



Comentário de: Carlinha

Não viramos idiotas perto de um cachorrinho... viramos humanos, de uma humanidade absoluta e há muito tempo esquecida.
Eles nos mostram o que há de melhor em um ser vivo... pena que muitos de nós não conseguem perceber isso.

PermalinkPermalink 24.07.09 @ 01:25



Comentário de: Alex Castro Email

claaaaaaaero q NAO vi marley e eu. eu me conheco.

PermalinkPermalink 24.07.09 @ 07:13



Comentário de: Renata Palladino

O meu me acompanhou por 14 anos, o que significa mais da metade da minha vida. Há quem não entenda, mas se eu der números, fatos e relatar essas coisas do dia-a-dia de ter um cão, as pessoas talvez passem a compreender melhor a cara de babaca que faço quando vejo um. Afeto é afeto, e cães me provaram ser muito competentes nesse quesito.

PermalinkPermalink 24.07.09 @ 13:09



Comentário de: Guilherme

Melhor não ver Marley e eu. Péssimo filme, mas chorei de soluçar, contrangedoramente, no cinema.
Ao ler seu texto chorei só um pouquinho menos - e olha que virei cat lover - mas pelo menos a obra é de qualidade.
Abs

PS nada a ver: O prof. José Jorge de Carvalho, da UnB, tem acompanhado com interesse sua série sobre racismo (http://lattes.cnpq.br/2089135273264758)


PermalinkPermalink 24.07.09 @ 17:53



Comentário de: j41ivi3

Alex, deveria tentar ver "Marley e eu". O co-protagonista (o "Eu") é colunista e rola uma dinámica sobre cão+textos...

PermalinkPermalink 25.07.09 @ 08:13



Comentário de: Cinthia Rocha

Post mais bonito que você já escreveu.

Obs.: Ignore os comentários. Não tente VER Marley e Eu porque é horrível. Tente ler, porque o livro é divertido. Chorei horrores, mas faz parte.

PermalinkPermalink 25.07.09 @ 09:33



Comentário de: Marcia Aguiar

Você deveria aproveitar o momento editorial canino e escrever a história de Oliver. Tenho certeza que venderia muito. Eu tenho pelo menos uns 10 títulos recentes de histórias contados por donos de cães, e nenhuma delas tem um cão que sobreviveu ao Katrina. Pense nisso.
Oliver é tudo de bom! Fico feliz de saber que já está bem.

PermalinkPermalink 26.07.09 @ 20:50



Comentário de: Adam · http://suspensaodejuizo.wordpress.com

Semana passada, o cachorrinho da minha namorada morreu, atropelado. Ela ficou desconsolada, e até eu chorei: era um animalzinho adorável. Fomos para a casa dela, para tentar consolar a irmã menor dela, que, solitária, praticamente só tinha ele como amigo.

E o que acontece? Lembro desse texto aqui e tenho dificuldade até de me controlar, quanto mais de consolar a menininha. Então, agora entendi bem como você conseguiu chorar ao ver "Eu sou a Lenda"...

PermalinkPermalink 14.09.09 @ 01:48



Comentário de: karina

Eu viro uma idiota quando você escreve sobre cachorro. Torço sempre pela saúde do Oliver.

PermalinkPermalink 03.08.11 @ 17:45



Comentário de: Alfredo Chagas

Demorou pra escrever um livro sobre Oliver! Poderia ficar muito bom e com certeza venderia.

Eu mesmo daria de presente pra várias pessoas.

PermalinkPermalink 15.05.12 @ 13:31



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