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"Mulher de Um Homem Só" nasceu em 7 de julho de 1996, durante uma discussão filosófica sobre eutanásia na casa da Renata, em Buenos Aires. Bolei e rascunhei tudo ali mesmo: a princípio, era uma história entre uma artista plástica que queria se matar e seu melhor amigo médico.
Com o título de trabalho "Eutanásia", brinquei com essa idéia por dois anos, sempre sem chegar a lugar algum. Por fim, em 5 de julho de 1998, durante um almoço no Tia Palmira, em Pedra de Guaratiba, Isabel Löfgren me veio com uma sugestão louca: ao invés de colocar o médico ou a artista de narradores, por que não a mulher dele, que não tinha papel nenhum na trama e podia observar melhor as interações entre os personagens? Além disso, Murilo e Júlia eram obviamente moldados em mim e na Isabel. Nós já os conhecíamos. Éramos eles. Mas quem seria aquela esposa ciumenta que tudo observava? Afinal, a ficção não é para sermos outras pessoas?
Essa sugestão certamente salvou o livro de um aborto prematuro. Agora narradora, Carla simplesmente tomou conta do romance e transformou-o em sua história. O que seria o enredo original acabou virando um mero detalhe - e usado por Carla para fazer pouco de Júlia e Murilo, naturalmente.
Boa parte do romance foi escrito na segunda metade de 1998 e em 1999, e depois retomado em 2001. Essas pausas são importantes, pois nos permitem esquecer o texto, e relê-lo com olhos de leitor. Se a história nos cativar, então o romance tem salvação.
Durante essa última etapa, o título de trabalho passou a ser "Uti Possidetis", uma expressão do latim muito usada em política internacional e que tem simplesmente tudo a ver com a história. Para não dar ao romance um ar pedante e sofisticado que ele não tem, mudei o título para sua tradução portuguesa "Usucapião". Quase todos os leitores, entretanto, desconheciam essa palavra e, por isso, o título ficava vazio de impacto, significado e emoção. Acabei cedendo ao conselho de algum santo que não lembro mais quem foi e adotei o título final, "Mulher de Um Homem Só", que apesar de um pouco lugar-comum, abriga muitas ambiguidades interessantes.
Depois do livro já terminado, Isabel salvou-o de novo, com uma sugestão vital. Foi sua idéia de que os quadros da terceira exposição fossem todos retratos de Raquel. Sem isso, a profissão de Júlia ficava praticamente aleatória: ela teria podido ser atriz teatral ou videomaker e o enredo continuaria igual.
Coloquei o ponto final na primeira versão do romance em 9 de setembro de 2001, dois dias antes do atentado ao World Trade Center, e na mesma semana em que casei, provando que nem tudo foi tragédia naquele mês. Depois de muita revisão, criei um site e coloquei o romance para download em julho de 2002. Somente no ano seguinte, em março de 2003, inaugurei o LLL, o blog pelo qual sou mais conhecido hoje.
Por causa do blog, muita gente gosta de resenhar "Mulher de Um Homem Só" sob o viés da internet. Dizem que o livro tem a linguagem da web, que é literatura-blog ("blog é literatura?", pergunta o repórter), etc, uma besteirada só. O livro foi todo escrito quando eu nem sabia o que era um blog, e foi posto na internet muitos meses antes de eu abrir o LLL - aliás, também por sugestão da Isabel.
Entre 2002 e 2006, foram realizados 30 mil downloads de "Mulher de Um Homem Só" e o romance foi resenhado incontáveis vezes em blogs e sites pela internet afora. Recebeu críticas boas e ruins, foi lido com ódio e com carinho, e me permitiu um contato direto com os meus leitores - que é o sonho de qualquer escritor. Algumas das resenhas que o livro recebeu podem ser conferidas aqui: http://tinyurl.com/MulherResenhas. Uma leitora chegou a dizer que, ao lado de Chico Buarque e Miguel Paiva, eu era o homem que mais entendia de mulher do Brasil. Não sou, claro, até porque gente não se entende, mas foi bom de ouvir.
Para minha surpresa, "Mulher de Um Homem Só" foi insistentemente comparado a "Dom Casmurro" e, apesar de uma referência indireta no texto, realmente não era essa a minha intenção. Segundo os leitores, seriam ambos romances de narradores não-confiáveis. Entretanto, como todo narrador, por definição, até os em terceira pessoa, são não-confiáveis, a comparação acaba perdendo o sentido. É meio como comparar "Mulher de Um Homem Só" a "Ulisses" porque ambos estão impressos em papel.
E, por outro lado, em um universo de leitores onde praticamente todos leram "Dom Casmurro", foi impressionante a quantidade de pessoas que simplesmente comprou o discurso de Carla sem nenhum questionamento, jamais parando pra pensar sobre as lacunas e contradições de sua história e, mais importante ainda, sobre tudo o que ela omite. De vez em quando, eu recebia emails assim: "tem uma falha no seu livro, você nunca menciona isso ou aquilo" e eu respondia: "quem nunca menciona isso é a Carla, a narradora do romance, não eu. Por que você acha que ela não fala disso se lhe parece tão óbvio que ela deveria falar?"
A maior crítica que o livro recebeu foi quanto à onisciência da narrativa de Carla. Leitores me escreveram com todo tipo de questão: onde está Carla?, de onde ela narra?, quando ela está?, o quanto ela sabe?, para quem ela está falando?, etc. Toda obra que se pretende artística e perene tem sua dose de ousadia, e a narração em primeira pessoa onisciente de Carla foi o grande risco de "Mulher de Um Homem Só". As críticas recebidas ocasionaram alguns ajustes, mas me recusei a desistir da idéia. Sem isso, não haveria romance. Ele simplesmente não faria sentido pra mim. Não vou explicar nem justificar minha escolha, cabe a cada leitor decidir se o recurso funcionou ou não: minha única frustração é quando alguém vem me apontar o "erro", como se achasse sinceramente que a onisciência de Carla foi um lapso e que eu, distraído, não percebi que ela narra coisas que não poderia saber. E eu fico repetindo meu mantra: "o leitor sempre tem razão e toda leitura é válida".
Em termos de influência literária, talvez a principal tenha sido Joseph Conrad. Carla tem muito da voz e do jeito do velho marinheiro Marlowe, narrador de "Lord Jim" e "Coração das Trevas". O modo circular como o enredo de "Mulher de Um Homem Só" vai sendo desenrolado deve muito a "Lord Jim". Já a linguagem foi intencionalmente inspirada pelos melhores momentos de Luiz da Câmara Cascudo e Gilberto Freyre; os conhecedores da obra de Freyre vão reconhecer um parágrafo escancaradamente freyriano. Talvez o romance que mais remeta ao "Mulher de Um Homem Só" seja "O Amor É Fogo", de Nora Ephron, recentemente publicado no Brasil em tradução de minha amiga Fal Azevedo, e que eu só fui ler muito depois. Para quem gostou, fica a recomendação.
Ao longo dos anos de download, muita gente boa e experiente veio me avisar que eu estava queimando "Mulher de Um Homem Só", que nenhuma editora iria se interessar por um romance que já tinha sido tão baixado, que ele perdera seu valor comercial. Eu acho isso besteira. Minha experiência com outras mídias indica que os múltiplos downloads só aumentam o boca-a-boca, mas vá lá. Em 2006, fechei contrato com a agente literária Ana Maria, estanquei os downloads e ela saiu batendo às portas das editoras. O resultado foi zero. Rocco, Língua Geral e Objetiva enviaram cartinhas simpáticas e bem-educadas; Planeta, Bertrand/Record e José Olympio me deixaram de molho por meses, algumas por anos, e não tiveram nem a gentileza de dizer não. A culpa não foi dos 30 mil downloads, pois eles não chegaram jamais a ser mencionados.
Em minha fantasia, quatro anos na internet, blog conhecido, coluna semanal em jornal diário, milhares de leitores cativos e dezenas de milhares de downloads seriam suficientes para chamar atenção do mundo editorial, cultural e jornalístico. Afinal, eu não era mais um zé ninguém, mas um escritor que traria seus próprios leitores. Nada disso. A exposição na internet me rendeu dinheiro, amigos, namoradas, frilas, até mesmo um convite para doutorado no exterior, mas nada relativo à literatura.
Decidi então ir à luta: enquanto ainda procurava editora para "Mulher de Um Homem Só", lancei três livros pela editora Os Vira-Lata, de Albano Martins Ribeiro, especializada em literatura independente. Anunciando no meu blog e vendendo pela internet, percebi que conseguia mais repercussão na imprensa, mais exemplares vendidos e mais dinheiro no meu bolso do que a maioria dos meus amigos jovens escritores publicados por grandes editoras, com suas constantes queixas de solidão, abandono, pouco caso, e nenhum pagamento.
Finalmente, em 2009, achei que tinha chegado a hora de "Mulher de Um Homem Só". Não vai ser o grande romance da vida de ninguém, não vai entrar na História da Literatura, mas é o melhor que pude fazer. Se morro amanhã, minha contribuição à Grande Conversa e à literatura de modo geral é esse livrinho. Melhor colocá-lo logo na rua.
Antigamente, antes das editoras assumirem o papel de financiadoras da literatura, quem tinha dinheiro levava seus originais para uma gráfica, pagava pela edição e pronto. Quem não tinha, recorria a métodos indiretos: passava o pires entre os amigos e pedia para que se tornassem mecenas da obra, comprando seus exemplares antecipadamente. Quando atingia-se o valor necessário para a impressão, o livro era editado e os nomes dos santos mecenas em geral vinham listados na contracapa.
E pensei: não seria possível trazer esse antigo método de publicação para o século XXI? Coloquei "Mulher de Um Homem Só" à venda em 29 de junho de 2009 e, em menos de dois dias, esse livro que ainda nem tinha capa, totalmente virtual, já arrecadara dinheiro necessário para uma pequena tiragem de 50 exemplares. Nos dias seguintes, a artista plástica Isabel Löfgren (para quem o livro está dedicado e sem a qual ele não existiria) criou várias capas possíveis, que eu prontamente coloquei no ar. A princípio, a capa atual não era minha favorita, mas foi justamente no bate-papo com meus leitores que percebi suas inúmeras possibilidades e sutilezas. Fizemos a escolha juntos.
O valor do livro foi deixado em aberto e cada mecenas deu o que considerou justo. A primeira edição de XXX exemplares de "Mulher de Um Homem Só" é numerada e os mecenas que contribuíram com os maiores valores receberam os menores números. Que lhes sejam valiosos um dia.
O livro que você tem nas mãos só existe graças ao interesse, ao carinho e à generosidade desses leitores. No total, nas três semanas entre o início das vendas e a impressão do romance, XXX pessoas abriram suas carteiras para financiar um romance brasileiro completamente independente. Esses ilustres leitores anônimos, que não eram nem meus parentes nem meus amigos, confiaram em um autor que nem conheciam, vendendo um livro que nem existia, que nem capa possuía ainda. 
Não consigo imaginar uma primeira edição pela Companhia das Letras, um topo de lista de best-seller, um Prêmio Nobel de literatura que me daria mais orgulho do que essa profunda conexão e confiança com meus leitores. A gente produz arte toda uma vida buscando justamente esse tipo de sintonia com nosso público.
Muito obrigado.
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O texto que você acabou de ler é o posfácio do meu romance "Mulher de Um Homem Só". Ele é uma tentativa de mostrar o interior da fábrica de salsichas e criar maior intimidade entre autor e leitor. Tem gente que ama, tem gente que odeia. Ninguém é obrigado a ler. O que VOCÊS acham?
Somente serão citados nas páginas finais do livro os mecenas que comprarem "Mulher de Um Homem Só" até segunda-feira, 20 de julho, data em que o livro vai pra gráfica. A hora é agora.
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