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Eu sou um amigo relapso. O Bia me mandou várias vezes as versões preliminares de Buceta e eu, imerso nos meus estudos, acabei nunca tendo tempo de ler. Quando finalmente li, o livro já estava no prelo e só o que pude fazer foi pegar o telefone e fazer uma caríssima ligação Nova Orleans-Americana pra dizer pro Bia que, putaqueopariu!, ele é foda.
Como todo bom livro, Buceta já de agarra pelo começo. Em um mundo de surpresas batidas e clichês narrativos, o começo de Buceta é impactante mesmo. Confesso que não esperava aquilo. Não tão cedo. E já estava dado o tom do livro. (Leia aqui o primeiro capítulo de Buceta)
Buceta consegue ser melhor do que Sexo Anal. Na verdade, é o mesmo estilo inconfundivelmente biajônico, apenas mais trabalhado e amadurecido, e com uma trama mais complexa e interessante pra amarrar tudo. Se você gostou de Sexo Anal, vai adorar Buceta.
Fiquei adiando escrever essa resenha por meses (e o Bia cobrando) porque simplesmente não sei o que dizer. O livro é sensacional e pronto. Terminei de ler e fiquei tão empolgado, que peguei o telefone e liguei pro Bia. É nosso perfeito pulp nacional interiorano - sobre isso, ver o excelente prefácio do Pedro. Tudo o que a melhor literatura de entretenimento deveria ser. Onde estão com as cabeças nossas acéfalas editoras que não vêem que Buceta seria um best-seller?
Na verdade, o objetivo do post é o seguinte: a primeira tiragem de 50 exemplares já está quase esgotada, sobraram uns 3, 4, e o preguiçoso do Bia diz que não vai mais reeditar. Entao, meus amigos, corram lá pro site da Os Vira-Lata e não deixem fugir essas últimas bucetas.
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Pra não falar que só elogiei, o livro tem lugares-comuns demais. Não na trama, que é original e bem-amarrada, mas na linguagem dos personagens. Entretanto, isso é parte integrante do projeto estético consciente do Bia: segundo ele, as pessoas falam assim na vida. E eu concordo, e acrescento que não precisam falar assim nos livros também. Enfim, é uma discussão longa e frutífera.
Hoje, na resenha que o Bia escreveu sobre Mulher de Um Homem Só, ele disse:
O problema, para mim, é que a narração é de um dos personagens, Carla, uma dentista. Ela ama seu marido, Murilo, mas se vê ameaçada por uma antiga amiga dele, uma artista plástica, Júlia, talvez mais inteligente, sensível e moderna que ela.
Essa narração de Carla tem um aspecto ótimo e interessante: muitas vezes conta coisas que jamais podia saber, já que não estava no local no momento da ação. Ela imagina? Não sabemos, e isso é bacana. Por outro lado, a narração de Carla tem algo de incrivelmente experimental, especialmente para uma… dentista. Para exemplificar o que quero dizer, vai o trecho inicial do livro:
"Não tinha nem me libertado da escola ainda quando casei. Mas, boa fedelhacente que era, não encampava mais vida na minha casa: foi só Murilo puxar o pedido e aceitei, num estrambelho."
Que tipo de dentista que não tivesse pretensões literárias podia contar uma história nesse tom, com essas palavras?
Essa levada de Alex Castro/Carla se prolonga por todo livro, exigindo do leitor mais que o interesse pela boa história – ou seja, tira o foco da atenção das relações que se estabelecem entre os personagens para chamar a atenção para a narração, para o texto, como se o autor/personagem não estivesse preocupado com sua trama/confissão, mas sim com o modus, com a redação do enredo, com a experimentação literária.
Mas é isso mesmo, Bia! A linguagem literária é aquela que chama atenção para si mesma enquanto artifício construído. Ela não tem nenhuma pretensão de reproduzir realisticamente a linguagem comum mas, pelo contrário, busca criar uma nova linguagem.
Riobaldo também não falava como um caboclo capanga semianalfabeto do interior de Minas. Mas e daí? Guimarães Rosa nunca quis que falasse. Riobaldo fala como Riobaldo: aquela linguagem que ele usa é só dele, foi criada por Guimarães Rosa somente para ele, não tem pretensões extra-artísticas.
Admiro imensamente Scliar, Sabino, Machado, Fitzgerald, Biajoni, gente que escreve bem sem inventar moda, mas, por outro lado, acho que sem forçar os limites da língua, como fizeram Lispector, Guimarães Rosa, Garcia Marquez, Joyce, a literatura fica muito só enredo, enredo, enredo, fofoca, fofoca, fofoca.
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Trechinho do meu artigo Ficção e Não-Ficção:
Em minha não-ficção (inclui meus livros de crônicas Radical Rebelde Revolucionário e Liberal Libertário Libertino, a maioria dos textos desse blog e minhas colunas para a Tribuna), a linguagem é somente uma ferramenta para o enredo ou para o argumento. Sim, ela é trabalhada cuidadosamente, mas apenas para melhor transmitir o conteúdo sendo expresso. A linguagem, em si, não é uma atração. O texto não-ficcional não chama atenção para o fato de ser texto: idealmente, ele é invisível.
Em minha ficção (inclui meu romance Mulher de Um Homem Só e meu livro de contos Onde Perdemos Tudo), a linguagem é parte intregrante do espetáculo. O texto literário é aquele que não quer ser transparente: ele lembra ao leitor, o tempo todo, de que a linguagem é uma convenção humana, uma criação traiçoeira. A literatura é complexa e sempre se apresenta em forma de enigma: quanto mais parece simples, menos o é. Se for, ou não é literatura ou você perdeu alguma coisa. Enquanto a historinha acontece na superfície (o príncipe dinarmarquês que vê um fantasma, o homem que vira inseto, o defunto que narra do pós-tumulo), muito mais coisa acontece abaixo, em camadas mais e mais profundas, no espaço vazio entre as letras, nas entrelinhas: o texto literário é justamente aquele que não se limita a contar uma historinha. Todo texto literário também tem algo de poesia: as palavras não transmitem apenas um conteúdo, elas são o conteúdo. O som, o ritmo, a voz, as lacunas, as aliterações, as metáforas, tudo é proposital. Em um texto literário, até os hífens são deliberados: cada palavra conta, principalmente as não ditas.
O sentido do texto de não-ficção é o argumento exposto ou a história narrada. Já o texto literário é aquele que borbulha de sentido em cada vírgula.
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Blog do Biajoni
Site da Editora Os Vira-Lata
Biajoni fala sobre o livro
Resenha de Juliana Dacoregio
O primeiro capítulo
O prefácio de Pedro Dória
Compre "Buceta", de Luiz Biajoni.
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E não esqueçam que meu humilde romance, "Mulher de Um Homem Só", também está em pré-venda.
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Bia, eu te amo, meu irmão.
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