Buceta, de Luiz Biajoni (E uma Conversa sobre Linguagens Literárias)

Buceta, de Luiz BiajoniEu sou um amigo relapso. O Bia me mandou várias vezes as versões preliminares de Buceta e eu, imerso nos meus estudos, acabei nunca tendo tempo de ler. Quando finalmente li, o livro já estava no prelo e só o que pude fazer foi pegar o telefone e fazer uma caríssima ligação Nova Orleans-Americana pra dizer pro Bia que, putaqueopariu!, ele é foda.

Como todo bom livro, Buceta já de agarra pelo começo. Em um mundo de surpresas batidas e clichês narrativos, o começo de Buceta é impactante mesmo. Confesso que não esperava aquilo. Não tão cedo. E já estava dado o tom do livro. (Leia aqui o primeiro capítulo de Buceta)

Buceta consegue ser melhor do que Sexo Anal. Na verdade, é o mesmo estilo inconfundivelmente biajônico, apenas mais trabalhado e amadurecido, e com uma trama mais complexa e interessante pra amarrar tudo. Se você gostou de Sexo Anal, vai adorar Buceta.

Fiquei adiando escrever essa resenha por meses (e o Bia cobrando) porque simplesmente não sei o que dizer. O livro é sensacional e pronto. Terminei de ler e fiquei tão empolgado, que peguei o telefone e liguei pro Bia. É nosso perfeito pulp nacional interiorano - sobre isso, ver o excelente prefácio do Pedro. Tudo o que a melhor literatura de entretenimento deveria ser. Onde estão com as cabeças nossas acéfalas editoras que não vêem que Buceta seria um best-seller?

Na verdade, o objetivo do post é o seguinte: a primeira tiragem de 50 exemplares já está quase esgotada, sobraram uns 3, 4, e o preguiçoso do Bia diz que não vai mais reeditar. Entao, meus amigos, corram lá pro site da Os Vira-Lata e não deixem fugir essas últimas bucetas.

* * *

Pra não falar que só elogiei, o livro tem lugares-comuns demais. Não na trama, que é original e bem-amarrada, mas na linguagem dos personagens. Entretanto, isso é parte integrante do projeto estético consciente do Bia: segundo ele, as pessoas falam assim na vida. E eu concordo, e acrescento que não precisam falar assim nos livros também. Enfim, é uma discussão longa e frutífera.Mulher de Um Homem Só

Hoje, na resenha que o Bia escreveu sobre Mulher de Um Homem Só, ele disse:

O problema, para mim, é que a narração é de um dos personagens, Carla, uma dentista. Ela ama seu marido, Murilo, mas se vê ameaçada por uma antiga amiga dele, uma artista plástica, Júlia, talvez mais inteligente, sensível e moderna que ela.

Essa narração de Carla tem um aspecto ótimo e interessante: muitas vezes conta coisas que jamais podia saber, já que não estava no local no momento da ação. Ela imagina? Não sabemos, e isso é bacana. Por outro lado, a narração de Carla tem algo de incrivelmente experimental, especialmente para uma… dentista. Para exemplificar o que quero dizer, vai o trecho inicial do livro:

"Não tinha nem me libertado da escola ainda quando casei. Mas, boa fedelhacente que era, não encampava mais vida na minha casa: foi só Murilo puxar o pedido e aceitei, num estrambelho."

Que tipo de dentista que não tivesse pretensões literárias podia contar uma história nesse tom, com essas palavras?

Essa levada de Alex Castro/Carla se prolonga por todo livro, exigindo do leitor mais que o interesse pela boa história – ou seja, tira o foco da atenção das relações que se estabelecem entre os personagens para chamar a atenção para a narração, para o texto, como se o autor/personagem não estivesse preocupado com sua trama/confissão, mas sim com o modus, com a redação do enredo, com a experimentação literária.

Mas é isso mesmo, Bia! A linguagem literária é aquela que chama atenção para si mesma enquanto artifício construído. Ela não tem nenhuma pretensão de reproduzir realisticamente a linguagem comum mas, pelo contrário, busca criar uma nova linguagem.

Riobaldo também não falava como um caboclo capanga semianalfabeto do interior de Minas. Mas e daí? Guimarães Rosa nunca quis que falasse. Riobaldo fala como Riobaldo: aquela linguagem que ele usa é só dele, foi criada por Guimarães Rosa somente para ele, não tem pretensões extra-artísticas.

Admiro imensamente Scliar, Sabino, Machado, Fitzgerald, Biajoni, gente que escreve bem sem inventar moda, mas, por outro lado, acho que sem forçar os limites da língua, como fizeram Lispector, Guimarães Rosa, Garcia Marquez, Joyce, a literatura fica muito só enredo, enredo, enredo, fofoca, fofoca, fofoca.

* * *

Trechinho do meu artigo Ficção e Não-Ficção:

Em minha não-ficção (inclui meus livros de crônicas Radical Rebelde Revolucionário e Liberal Libertário Libertino, a maioria dos textos desse blog e minhas colunas para a Tribuna), a linguagem é somente uma ferramenta para o enredo ou para o argumento. Sim, ela é trabalhada cuidadosamente, mas apenas para melhor transmitir o conteúdo sendo expresso. A linguagem, em si, não é uma atração. O texto não-ficcional não chama atenção para o fato de ser texto: idealmente, ele é invisível. Introdução à Teoria da Literatura

Em minha ficção (inclui meu romance Mulher de Um Homem Só e meu livro de contos Onde Perdemos Tudo), a linguagem é parte intregrante do espetáculo. O texto literário é aquele que não quer ser transparente: ele lembra ao leitor, o tempo todo, de que a linguagem é uma convenção humana, uma criação traiçoeira. A literatura é complexa e sempre se apresenta em forma de enigma: quanto mais parece simples, menos o é. Se for, ou não é literatura ou você perdeu alguma coisa. Enquanto a historinha acontece na superfície (o príncipe dinarmarquês que vê um fantasma, o homem que vira inseto, o defunto que narra do pós-tumulo), muito mais coisa acontece abaixo, em camadas mais e mais profundas, no espaço vazio entre as letras, nas entrelinhas: o texto literário é justamente aquele que não se limita a contar uma historinha. Todo texto literário também tem algo de poesia: as palavras não transmitem apenas um conteúdo, elas são o conteúdo. O som, o ritmo, a voz, as lacunas, as aliterações, as metáforas, tudo é proposital. Em um texto literário, até os hífens são deliberados: cada palavra conta, principalmente as não ditas.

O sentido do texto de não-ficção é o argumento exposto ou a história narrada. Já o texto literário é aquele que borbulha de sentido em cada vírgula.

* * *

Buceta, de Luiz BiajoniAlguns Links:

Blog do Biajoni
Site da Editora Os Vira-Lata
Biajoni fala sobre o livro
Resenha de Juliana Dacoregio
O primeiro capítulo
O prefácio de Pedro Dória
Compre "Buceta", de Luiz Biajoni.

* * *

E não esqueçam que meu humilde romance, "Mulher de Um Homem Só", também está em pré-venda.

* * *

Bia, eu te amo, meu irmão.

 

15.07.09


Categorias: Livros


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Comentários:


Comentário de: Guilherme · http://orinocerontevoador.blogspot.com/

Demais o trecho do seu texto Ficção vs. Não Ficção.

Esses dias por exemplo, estava a ler alguns textos do LLL, coisa e tal. Vi, como sempre, Henry Miller, Whitman, Thoreau, R. Freire por aí.

São meus autores referenciais também, e o mais curioso é que, quando voce escreve, aparece tanto a influencia de ideias desses autores como a forma de expressar esses pensamentos.

Tanto a fluência gostosa (deveria dizer despojamento?) do texto como os questionamentos complexos que são diluidos em parágrafos aparentemente simples parecem remontar, em parte, a alguns desses autores que citei.

Mas o mais curioso é que, mesmo sendo influenciado por esses homens de induvidosa lucidez, quando eu escrevo, o faço de forma completamente diferente, quer dizer, não consigo escrever não escrever sem a influência ritmica de um autor como Pessoa, por exemplo.

Sabe aquela coisa da contradição, de escrever em ordem inversa? Sei lá, mas acho que para dizer o real é necessário inverter a linguagem.

Se a realidade é dialética, contraditória, porque a forma de expressá-la também não pode ser?

Não estou querendo tomar partido na discussão de forma versus conteúdo, mas é interessante como as ideias se manifestam de forma diferente para expresssar conteudos semelhantes.

Gosto muito do trecho em que voce diz: "Todo texto literário também tem algo de poesia: as palavras não transmitem apenas um conteúdo, elas são o conteúdo. O som, o ritmo, a voz, as lacunas, as aliterações, as metáforas, tudo é proposital. Em um texto literário, até os hífens são deliberados: cada palavra conta, principalmente as não ditas."

Isso é fantástico! Quantas vezes, mesmo na faculdade, ouvir reclamarem de textos - seja de que autor for - onde o seu sentido não se expressa escancaradamente, como se isso fosse obrigatorio, ainda mais na literatura!

Parece que as pessoas estão a perder um pouco dessa vontade em romper com o obvio, o sensato e previsível.

PermalinkPermalink 15.07.09 @ 08:54



Comentário de: Pauloc · http://allhaileris.blogspot.com/

"Buceta consegue ser melhor do que Sexo Anal [...] Se você gostou de Sexo Anal, vai adorar Buceta."

É só a gente comprar o livro do cara para ele desencanar e começar a fazer trocadilho infame...

PermalinkPermalink 15.07.09 @ 10:18



Comentário de: marcus · http://grandeabobora.com/

Eu ia comentar a mesma coisa, Pauloc, exceto pelo fato de comprar o livro.

PermalinkPermalink 15.07.09 @ 10:39



Comentário de: Te

"Buceta consegue ser melhor do que Sexo Anal." "Se você gostou de Sexo Anal, vai adorar Buceta."
Fico rindo sozinha imaginando a reação das pessoas a essas frases em stands nas livrarias e em anúncios nos cadernos de cultura e literatura dos jornais.

PermalinkPermalink 15.07.09 @ 13:09



Comentário de: Biajoni · http://www.verbeat.org/blogs/biajoni

obrigado, lindo.
:)
essa é uma boa discussão, vamos fomentá-la.
;)

PermalinkPermalink 15.07.09 @ 14:20



Comentário de: Henrique Cartaxo · http://multimidiacartaxo.blogspot.com

A Gloriosa Família, de Pepetela, é narrado por um escravo analfabeto e mudo, de ter língua cortada. E bem narrado... Mas e daí, né...

PermalinkPermalink 29.07.09 @ 11:36



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