"Mulher de um Homem Só" é, entre outras coisas, um romance de formação, cobrindo a vida dos personagens dos seus quinze até lá pelos vinte e cinco anos, e também todos os ritos de passagem dessa época, como casamento e maternidade. Não poderia faltar, claro, o vestibular:
E eu acordava cedo, ia pro cursinho, estudava morbidamente até uma da tarde, encontrava Murilo pra almoçar – agora era minha vez de almoçar com Murilo – ficava na loja enquanto ele trabalhava e, depois, íamos pra casa juntos. E é, eu me angustiava sim, tinha vinte e dois anos e nunca me senti tão velha e obsoleta, cercada por menininhas e moleques ambiciosos (e nervosos) de dezesseis, dezessete, um tentando pisar no pescoço do outro, porque não cabe todo mundo não, não cabe mesmo, são vinte mil candidatos pra só trezentas vagas, e aí?, quem vai ficar pra trás?, e eu tinha fobia de que seria eu, a decrépita!, a caduca!, tinha pânico de perder mais um ano estudando, e aquela loucura é contagiante: você vê os colegas desabando pelo chão como soldados caídos em batalha, um desiste, um tem ataque dos nervos, outro decide que a sua vocação era mesmo filosofia, com sua relação candidato/vaga abaixo de um, e só resta a você cair de barriga na lama e avançar, avançar, e os professores parecem sargentos também, e expectoravam que aquilo ali é uma guerra mesmo, só usam metáforas militares e agüentei um ano de guerra na cabeça, verberam o tempo todo sobre a falta de tempo, sobre o desespero e sobre a agonia, que quem não estudar vinte horas por dia não vai sobreviver: estamos atrasados, não vai dar tempo de enfrentar o modernismo porque já estamos em março e nem encaramos o barroco!, e vocês já atacaram Marília de Dirceu?, é chato mas vai cair, vai cair e vocês não vão passar, ninguém aqui vai vencer, ainda mais que o vestibular das federais vai ser mais cedo esse ano, não vai dar tempo de derrotar a matéria toda!, e no meio de tudo isso, eu me sentia desembarcando nua e sozinha na Normandia, eu precisava de cobertura contra o fogo inimigo, já não suportava mais as metáforas militares, é só um teste, putaqueopariu!, mas Murilo estava mais disperso do que nunca, agora sempre em trânsito, do hospital universitário pro centro médico, do centro médico pro hospital universitário, e era só residência, plantão e pacientes, o tempo todo, e o Dr. Jader sem dar trégua, manobrando e exercitando aquela tropa de um homem só, não iria confiar seus pacientes a um filho incompetente, e então, para o Murilo, o pai era um sargento pior do que os meus professores, estávamos travando campanhas diferentes da mesma guerra,
e Murilo pelo menos era seguro de si, sempre foi, mas eu não sabia de nada, sempre fui péssima aluna, eu me pegava pensando, quem sou eu pra pretender ser dentista?, esses moleques são tão melhores que eu, mais inteligentes, mais preparados, e, ainda assim, isso era o pior!, estão todos achando que não vão conseguir! Mas foi uma época boa, sabia? Porque ter Murilo ao meu alcance compensava tudo.
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