Estão acontecendo simultaneamente no Rio de Janeiro dois festivais:
Flip - Festa Literária Internacional de Paraty
FestLip - Festival do Teatro da Língua Portuguesa
Para a Flip, vieram atrações internacionais como Richard Dawkins e António Lobo Antunes (meu escritor vivo favorito) e vão palestrar autores nacionais como Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Milton Hatoum, Sérgio Rodrigues e Zuenir Ventura.
Para o FestLip, vieram se apresentar companhias teatrais de Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde.
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Para a Flip, eu não vou, nunca fui e jamais irei - a não ser como autor convidado.
Já o FestLip é gratuito, mas eu pagaria uma fortuna para ver peças que jamais poderia ver de outro jeito.

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Sempre que digo que não vou à Flip, aparece um idiota me acusando de invejoso uvas-verdes. Nada disso. Trabalho com literatura. Escrevo meus livrinhos. Deve ser o máximo ir à Flip como autor - mas (tirando os groupies de escritor e as marias-estante de praxe) qual é a graça para os leitores?
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A diferença entre o FestLip e a Flip é simples:
Quem gosta de teatro, e eu gosto muito, vai ao FestLip e toma contato (gratuitamente) com o teatro de países aos quais normalmente não tem acesso. Vê os figurinos, escuta as músicas, conhece os atores, acompanha os enredos. Ou seja, é teatro sendo oferecido a quem gosta de teatro. O que poderia ser melhor que isso?
Quem gosta de literatura, e eu gosto muito, vai à Flip e toma contato.... não com literatura, mas com os autores! Suas caras feias, seus perdigotos nas palestras, suas terríveis gravatas-borboleta. E ainda paga caríssimo por isso!
Se você gosta de literatura de verdade, não era melhor ficar em casa lendo?
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Idelber, sobre a Flip, em seu twitter:
a #FLIP é o caipirismo deslumbrado de uma classe média q não lê, mas nela vê chance de posar.
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Flip é pra quem gosta de social. Quem gosta de literatura, fica em casa, lendo. Sozinho - que é como se lê.
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Só posso entender o cara sair de casa e pagar pra ouvir Lobo Antunes se ele já tiver lido tudo do autor ou estiver pesquisando-o.
Eu adoro Lobo Antunes, mas prefiro investir meus suados reais nos livros dele que ainda não tenho do que em vê-lo pessoalmente.
Qual é a graça de vê-lo pessoalmente, aliás? Alguém me explica?
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Nunca tive vontade de conhecer meus autores preferidos. Autor é pra ser lido. Se o cara fosse agradável, simpático, sociável, não teria se metido em uma atividade que lhe obriga a longas horas de solidão preso dentro de casa.
Pelo contrário, o camarada em geral é empurrado em direção à literatura porque é chato, mala, cínico, ranzinza, rabugento, anti-social. Porque foi rejeitado, recusado e ostracizado por seus pares. Porque só lhe restou mesmo ficar sozinho em casa escrevendo sobre a vida que poderia ter.
Se fosse agradável e tivesse vida social, não se metia em literatura. Estaria ocupado demais sendo convidado pra festas, comendo mulheres, vivendo a vida loca. Seria promotor de eventos, ator, político, vendedor de seguros - tudo menos escritor.
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Adoro Lobo Antunes. Literatura é a coisa mais importante da minha vida. Lobo Antunes é o melhor praticante vivo de literatura.
Compro seus livros assim que saem em Portugal e custam uma nota. Se o próximo só pudesse ser comprado fisicamente em Paraty por R$500, eu ia.
Mas não iria até a esquina para ouvi-lo falar.
Não tenho interesse algum no que Lobo Antunes tem a dizer. Gosto do que ele ESCREVE. Sabe como é, literatura. Não de punhetagem sobre literatura, não de socialização com literatos. Literatura mesmo.
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Antonio Lobo Antunes é, em minha opinião, o melhor escritor vivo em língua portuguesa. Como médico psiquiatra, ele participou na Guerra Colonial em Angola. Hoje, grande parte de sua obra é dedicada a mostrar os horrores da colonização portuguesa na África - ainda vista com muita simpatia por seus compatriotas. Acima, meus dois livros preferidos de Lobo Antunes sobre esse assunto: Manual dos Inquisidores e, principalmente, O Esplendor de Portugal.
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