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É impossível estudar o trabalho doméstico sem considerar também que a grande maioria dessas trabalhadoras são mulheres. E o grande ponto cego do feminismo latino-americano talvez seja justamente sua relação com as empregadas domésticas.
Graças a uma divisão de trabalho ainda muito machista, a liberação da mulheres de classe média muitas vezes se deu graças a uma maior disponibilidade de mão de obra barata (leia-se mulheres pobres) que as substituísse nas tarefas domésticas.
Pode-se dizer que, para as mulheres latino-americanas, a libertação sexual teve soma zero. Algumas tornaram-se mais livres e outras, mais exploradas, e as perdas de umas anularam os ganhos das outras. Nada mudou, especialmente para os homens, que não perderam nada: continuam tendo suas cuecas passadas a ferro e seus bifes fritos no ponto exato, não importando pela mão de quem.
De modo ironicamente perverso, são muitas vezes as mulheres mais liberadas, progressistas e profissionais aquelas que mais precisam ter uma "escravinha" tomando conta da retaguarda doméstica para que possam invadir a esfera pública, tradicionalmente masculina, e lutar o bom combate. Como diria DaMatta, só podem sair à rua quando arranjam quem tome conta da casa.
A missão do feminismo latino-americano não estará concluida (aliás, não estará nem começada) enquanto as feministas não se derem conta do aspecto urgencial dessa questão. Sem reeducar os homens, de nada adianta tirar poder de umas mulheres para dá-lo a outras.
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E você, leitora urbana, profissional, antenada, ecológica, consciente, diga-lá com honestidade: você também teve que comprar sua independência oferecendo outra mulher em holocausto no altar da sua domesticidade?
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Texto inspirado na leitura do artigo “Feudal Enclaves and Political Reforms: Domestic Workers in Latin America”, de Merike Blofield (Latin American Research Review, vol.44, no.1, 2009), sobre as lutas para a formalização do trabalho doméstico na América Latina - incluindo uma surpreendente omissão por parte de muitas das feministas mais militantes. De acordo com dados da autora, o Brasil tinha 5 milhões de trabalhores domésticos em 2004.
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Homens Invisíveis: Relatos de Uma Humilhação Social, de Fernando Braga da Costa. (SP: Globo, 2004) Profundo, lindo, fortíssimo. O autor era aluno de pós-graduação de Psicologia e, como parte de um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, teve que exercer algum emprego "humilde" - definido como não exigindo qualquer tipo de treino ou experiência. Tornou-se gari da USP e experimentou na pele a humilhação e a invisibilidade.
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Link excelente mandado pelo machista sem-vergonha do Rafael Galvão: Housewife Confidential, por Caitlin Flanagan
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