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Como parte do Festival de Teatro do Rio de Janeiro, assisti a Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena, clássico da comédia brasileira, escrito em 1844. O autor tem o enorme mérito de ser praticamente o único sobrevivente de sua geração: de todos os dramaturgos brasileiros ativos durante o século XIX, Martins Pena é o único ainda vivo, ainda canônico, ainda rotineiramente reencenado. Os outros ressurgem aqui e ali, quase sempre mais por interesse histórico do que por outra coisas, mas Martins Pena nunca sai do palco.
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Era a minha 14a peça da temporada 2009 e, assim que abriu a cortina, levei um susto: percebi que era a primeira vez que via, em cena, atores negros e mulatos. Até então, todas as minhas peças tinham sido representadas por atores oriundos das melhores companhias teatrais do Eixo Morumbi-Leblon, ou de Curitiba - que implora pra entrar no Eixo tanto quanto o Brasil mendiga pra entrar no Conselho de Segurança da ONU.
Não estou dizendo que os atores da Companhia de Pesquisas Teatrais (CPT) de Duque de Caxias sejam carentes, ou algo assim. Não sei quem são. Sei apenas que vêm da complexa da Baixada Fluminense (a Periferia do Rio): rica em indústrias e pobre em cultura e investimentos. E sei que bastou a Companhia subir ao palco, refletindo as verdadeiras e múltiplas cores do Brasil, para imediatamente problematizar a composição racial do elenco de todas as peças que eu tinha visto na temporada. Como naquelas novelas mexicanas, onde ninguém tem cara de mexicano e que bem poderiam se passar em Estocolmo, as 14 peças que eu tinha assistido até então, no Rio de Janeiro de 2009, poderiam ter sido encenadas na Islândia. E eu nem me dei conta: parece tão normal que todos os atores sejam branquinhos, né?
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Há alguns meses atrás, falei de um anúncio de escola curitibana que gerou polêmica por só conter alunos brancos. Quando alguns militantes negros reclamaram, os alunos acharam um absurdo que se "enfiasse raça nessa história". Para quem faz parte da maioria dominante, a desigualdade é natural. Para eles, um anúncio de escola só com alunos brancos é a coisa mais normal do mundo, algo que eles nem reparam. Anormal, anti-natural, incômodo é quando alguém aponta que essa situação não é nem normal, nem natural e que é muito incômoda para quem foi suprimido. Aí, a reação é imediata.
Eu gostaria de fazer um teste com esses adolescentes: refilmar o mesmo anúncio da escola, mas só com alunos negros. Ou asiáticos. Será que eles também não iriam perceber? Ou será que dessa vez o "conteúdo racial" do anúncio lhes saltaria aos olhos?
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A montagem se manteve fiel ao texto, com um twist.
A linguagem antiquada de Martins Pena poderia não ser tão engraçada aos espectadores de hoje. Então, fugindo de um extremo (que seria adaptar o texto ao português de hoje), a companhia aposta no grotesco e não só mantém o texto inalterado, como adota uma dicção toda própria, exagerada e anti-natural, que além de chamar ainda mais atenção ainda para a linguagem antiquada, torna-se engraçada por si só. Nos primeiros dois minutos, claro, o estranhamento é grande, mas como essa dicção alternativa é utilizada consistemente, o espectador logo se acostuma e o efeito cômico se instala.
Ri muito. Me diverti muito. A companhia demonstrou um domínio firme da linguagem do autor e Martins Pena demonstrou que continua mais vivo do que nunca.
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Confira o blog da companhia teatral Centro de Pesquisas Teatrais de Duque de Caxias
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Comédias Completas de Martins Pena
Vale muito, muito a pena ler e assistir Martins Pena.
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Ficha Técnica
Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena. Companhia: Centro de Pesquisas Teatrais de Duque de Caxias. Dirigido por Guedes Ferraz. Estrelado por Natália Ramos, Marcelle Fernandez, Paulo César, Edilson Sales, Alex Fabiani, Jessé Cabral, Bianca e Evelin. Teatro Maria Clara Machado, no Rio de Janeiro. Apresentação única como parte do Festival de Teatro do Rio de Janeiro. Assistido a 3 de junho, com Carlos.
Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.
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