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Mais uma adição aos termos de uso desse blog:
Ultimamente, alguns leitores bem-intencionados andam me mandando um tipo de aviso que sempre recebo. Dessa vez, é sobre teatro. Alguns meses atrás, foi sobre racismo. Antes disso, nem lembro. Mas é sempre assim:
Alex, toma cuidado. Esse seu novo assunto (teatro/racismo/etc) não interessa à maior parte dos seus leitores. O pessoal está indo embora às multidões. Daqui a pouco, não sobra ninguém lendo o blog! Olha lá, hein!
Nem sempre o aviso é sobre o assunto do blog. Também me avisam muito que vou perder todos os leitores porque:
- Não respondo a todos os comentários.
- Não trato bem os leitores.
- Coloco muita coisa em inglês.
- Não tenho muita ilustração, só texto corrido.
- Tenho ilustrações demais, o blog fica pesado.
- Etc.
Como sempre, a maior graça desse tipo de aviso é o que ele revela sobre as premissas do avisador. Ou seja, será que as pessoas acham mesmo, sinceramente, que decido os assuntos sobre os quais vou escrever baseado no interesse dos leitores?! Como é possível alguém acompanhar o LLL por mais de uma semana e pensar isso?
Tudo o que a gente escreve na vida é cheio de regras. Quando escrevo textos acadêmicos, tenho que ter sempre em mente a linguagem acadêmica, a padronização bibliográfica, o recorte do assunto. Quando escrevia pra Tribuna, tinha que usar o Manual da Redação, várias palavrões tinham que ser censurados, os parágrafos tinham que ser curtos. Quando escrevia para a Mad, tinha que sempre pensar no punchline de cada quadrinho e evitar regionalismos e carioquices, pois a revista era nacional. Etc etc.
O blog é justamente o oposto. Aqui, mesmo sabendo que vai gerar dúvidas nos não-cariocas, eu falo que saí pra comer um "refresco de caju com joelho" e pronto - não pelo perverso prazer de não ser entendido, mas simplesmente porque é assim que cresci falando, porque essa é a formulação mais natural pra mim. (E, toda vez, sempre tem algum leitor que pergunta e sempre tem outro que responde, e tudo se ajeita.)
No blog, eu não preciso me preocupar com padronização nem com Manual de Redação: escrevo internet às vezes em minúsculas, às vezes Internet em maiúsculas, dez por extenso ou 10 em numerais. E daí? (Um dia preciso escrever mais sobre a imbecilidade do culto à padronização nas editoras e jornais. Digamos que um colunista escreva "século XIX" e o outro "século 19". E daí? O que, de fato, o leitor perde com isso? O que, de fato, o leitor ganha com a imposição de uma convenção aleatória sobre outra?)
Não me preocupo em substituir cada caralho por caramba: se o leitor tem medo das palavras, azar o dele. Não me preocupo em usar a linguagem assim ou assado. Não me preocupo em anotar e dar a fonte de tudo o que cito. Não me preocupo em traduzir textos. O leitor do LLL frequenta esse blog gratuito por sua própria conta e risco.
E, mais do que tudo, não me preocupo em delimitar um assunto. Tudo é jogo. Nada é off-topic. De vez em quando, escuto uns blogueiros falarem: "ah, vi um filme legal, mas não posso escrever sobre isso no meu blog, porque ele é sobre tecnologia", "não vou colocar foto do meu gato porque pega mal", "acho que vou criar outro blog só pra falar de futebol", etc.
Pois aqui não. Nunca deixei de escrever sobre qualquer assunto no LLL. Jamais escrevi sobre um assunto só por achar que ele atrairia leitores.
Aí, vem um leitor chato e diz:
Deixa de ser mentiroso, Alex. Você vive fazendo posts pra vender livros!
E eu respondo:
Sim, exatamente! Quando o Submarino começou a oferecer coleções completas da obra de Freud com um desconto absurdo (aliás, de R$960 por R$399, clique aqui pra ver), eu não me obriguei a escrever um enorme texto forçação de barra sobre a obra de Freud só pra vender mais livros. Pelo contrário, simplesmente (e honestamente) fiz um post de duas linhas anunciando a oferta. Outro dia, escrevi um texto empolgado sobre Gil Vicente, porque comecei a ler uma de suas peças às duas da manhã e não parei mais. Somente depois, ao montar o post para publicação no blog, foi que eu enchi o texto de links para o Submarino. Ou seja, não escrevi o texto para vender livros: escrevi o texto porque quis e aproveitei para usá-lo para vender livros.
Tem um outro tipo de email que eu recebo sempre, só muda o assunto. Vou citar o último que chegou:
Oi, Alex. Reparei que você nunca fala do Saramago mas ele aparece na sua lista de leituras. Adoraria saber sua opinião. Você poderia falar um pouco sobre ele?
E sabem o que é o pior? Apesar de reconhecer que é um email gentil e educado, eu nem respondo, pois minha única resposta sincera seria vista como uma terrível grosseria:
Posso não, amigo leitor. Se eu tivesse qualquer coisa a falar sobre Saramago, eu já teria escrito no blog. Se não falei, é porque o assunto ou não me interessa ou não tenho nada interessante a falar sobre ele.
Se o LLL tem um fio narrativo, é o livre fluxo dos meus interesses intelectuais ao longo dos últimos seis anos. Relacionamentos abertos, religião, tecnologia, Cuba, etc etc: todos foram temas dominantes desse blog durante o tempo pelo qual me interessaram e depois foram sendo gradualmente deixados de lado.
Já tem muita gente mandando no que escrevo. A única coisa que justifica ter um blog é poder escrever sobre o que quero, na hora que eu quero, do jeito que eu quero.
Essa liberdade não tem preço e não tem substituto.
No dia em que eu parar pra pensar, por um minuto que seja, que não posso escrever sobre teatro porque isso vai afugentar os leitores, o LLL vai se transformar em mais uma insuportável obrigação de trabalho, em mais uma linguagem escrita a dominar.
E, aí sim, acabou esse blog.
Obra completa de Freud, de R$960 por R$299/399/499 (o preço varia!).
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